Ascensão do Inimigo

A Guerra da Lança tinha chegado ao seu fim, grandes cavaleiros se sacrificaram para manter a paz, mas o exército maligno não tinha sido derrotado totalmente. Em sua poderosa fortaleza a Dama Azul ainda planejava um último ataque de seu Armada Dracônica aos Reinos de Solamnia. No entanto, um mal muito mais antigo foi despertado sem o conhecimento de nenhum dos lados. Um inimigo incrivelmente poderoso que usa sutilmente sua influência sombria para alcançar seus objetivos. Cabe a um grupo de bravos heróis confrontar esse perigo avassalador que a todos domina. O Sussurro das Trevas é um épico de fantasia dividido em três partes que narrará uma saga no mundo de Dragonlance.

Poema dos Seis Heróis

“A palavra será a redenção dos pecadores
Apenas o mais misericordioso a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O escudo será a proteção dos desamparados
Apenas o mais honrado o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A espada será a justiça dos oprimidos
Apenas o mais temerário a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O cajado será a lei dos desesperados
Apenas o mais prudente o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A flecha será o equilíbrio dos soberbos
Apenas o mais sábio a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O machado será a vingança dos esquecidos
Apenas o mais audacioso o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Capítulo X - Masmorras de Vingaard

Os sete companheiros encontraram uma pequena câmara repleta de celas decadentes extremamente imundas onde várias pessoas vestidas apenas com trapos estavam presas. A cena era horrível e a condição em que aqueles prisioneiros se encontravam era deplorável. Estavam totalmente no escuro e as prisões estavam inundadas até o joelho com uma água turva e nociva. Muitos já estavam mortos ali e os poucos vivos estavam com doenças hediondas pelos maus tratos. Aquele era um lugar de morte e desolação.
Os aventureiros não entendiam o porquê de aqueles pobres coitados estarem sendo mantidos ali, a causa de tamanha vileza, mas sabiam bem o que deveriam fazer. Teriam que ajudá-los de alguma forma. Mas inicialmente a cena era tão chocante que eles demoraram um tempo para assimilarem tudo aquilo. Não tinham percebido, até mesmo, que a chama contínua da tocha de Diana mais causava mal do que bem aos prisioneiros das masmorras de Vingaard.
Valdor, que como um heraldo era o mais sensível dos companheiros, se apiedou completamente dos prisioneiros e decidiu que tinha que fazer algo por aqueles homens e mulheres sem esperança. Sabia que não poderia fazer muito mais do que qualquer um ali, assim decidiu tentar acalmar e trazer um pouco de alegria aos que estavam naquelas lastimáveis condições. O jovem pegou seu modesto alaúde e improvisou uma canção:

“Este homem que vos fala,
Não é somente um poeta cantor
E esta canção que vos embala,
Nunca deverá ser um desabafo de dor.

Uma exaltação que nunca se cala,
Nem diante do mais forte ardor
Mesmo a escuridão desta sala,
Ilumina-se ante o caloroso amor.”

Seus corações ficaram mais leves com o poema e o ar já não estava mais tão terrivelmente carregado. Aqueles homens ainda estavam melancólicos, mas a total desolação já os tinha abandonado, graças à canção do bardo, e até mesmo os heróis conseguiam pensar melhor no que deveriam fazer para levar a esperança novamente a aqueles tristes rostos.
- Quem são vocês? – perguntou a sacerdotisa enquanto entregava sua tocha a Dális, enquanto este ia para um pouco longe diminuindo a força da luz que feria os olhos dos prisioneiros. – De onde vêm?
- Al... Aldeões! – disse um dos presos. – Vi... Vivemos na Floresta Guardiã perto da saída oeste da Cordilheira aqui. Embo... Embora não passe de um brejo nevoento agora!
- Er, sim! E bons olhos os vejam! – falou outro preso, este mais velho – Se vieram nos salvar, ficamos muito felizes... Mas eu... Nós não podemos dar nada como recompensa, pois tudo nos foi tirado!
- Nem tudo meu bom homem! – afirmou Sir Hector. – Vocês ainda têm uns aos outros e agora sua liberdade também! Estamos indo justamente para a saída oeste e não vejo problemas em passarmos pela tua floresta!
- Não! – exclamou assustado o velho prisioneiro. – Não desejamos ir por aquelas bandas de forma alguma!
- Mas por quê? – perguntou Orvalho da Aurora. – Lá está um círculo de druidas se bem me lembro! Por que não quer voltar para aquele local sagrado?
- Por... Porque uma noite tenebrosa caiu sobre as florestas transformando tudo aquilo em um charco ácido. So... Somos o circulo de druidas que diz tão amavelmente, mas vos digo agora; evitem aquelas terras, pois é sempre escuro no agora chamado Pântano Guardião!
- O que vamos fazer? – perguntou Diana a Sir Hector. – Não podemos deixá-los aqui e nem podemos nos desviar de nossa missão!
- Não! – respondeu o nobre ponderando tudo aquilo. – Não! Eu levarei estes refugiados a Relgoth para que fiquem seguros lá. Em minha cidadela eles nunca receberão maus tratos e os guardarei de todo perigo e afronta. Vocês, meus companheiros, continuarão com a demanda!
- Eu vou com você, Cavaleiro de Solamnia! – disse Fizban. – Vai se perder miseravelmente nessas minas sem minha ajuda!
- Eu também vou contigo! – afirmou Valdor. – Seu escudeiro irá junto!
- Não! – discordou Sir Hector cofiando o bigode. – Não podemos ir todos se não a missão falhará desgraçadamente e muitos dependem de nós! Iremos apenas eu e o mago! Devo chegar à entrada da garganta apenas à noite e isso será ótimo, pois eles sofrerão por ver a luz do dia novamente! Mas digo a vocês que serão bem-vindos em minha cidade e serão bem tratados na Cidadela dos Leões de Bronze!
Embora muito agradecidos os aldeões não falaram nada, pois estavam muito cansados pelos maus tratos e doenças que tinham.
- Não deveríamos nos dividir! – reclamou Diana. – Mas não vejo outra solução para este problema...
Tanto a sacerdotisa como Orvalho de Aurora curaram como podiam aqueles pobres homens e os ajudaram a se levantar para partirem na jornada para Relgoth. Enquanto isso os outros companheiros ajudaram a enterrar aqueles que já tinham morrido e finalmente Diana fez a Lígion, uma prece de despedida, pelos pobres falecidos.
- Pela minha palavra digo que retornarei a vocês o mais rápido que for possível! – pronunciou finalmente Sir Hector. – Minha palavra é minha honra e minha honra é minha vida! Que os Deuses da Luz estejam com vocês neste lugar escuro.
- Sabemos disso senhor dos cavalos! – disse Thorvalen com uma mesura. – Que sua jornada também seja de boa ventura e fique de olhos bem abertos!
Assim Fizban, o Fabuloso e Sir Hector Launwaine voltaram com os refugiados enquanto os outros aventureiros, agora em cinco, ficaram no corredor de acesso àquele local para descansar. Era uma longa demanda e, se eles pretendiam ainda ver o que acontecia no Pântano Guardião, já que passariam por perto e não queriam deixar aquele mal impune, então teriam de ter boa resistência e deveriam estar descansados completamente.
Comeram as rações de viagem que tinham sido providenciadas pelo Empório do Lobo Andarilho, um dos lugares mais conhecidos pelos aventureiros que passavam pela bela Cidadela de Relgoth. Era uma pequena caixa de arroz, feijão e um pedaço de carne seca, muito usado pelos soldados quando viajavam para guerrear longe de suas casas.
- Alguém quer queijo? – perguntou Dális. – Eu trouxe bastante queijo que comprei em um armazém de nome engraçado lá em Solanthus. Chama Roda Quebrada, se bem me lembro tem uma boa atendente de nome que eu já me esqueci, mas enfim, o queijo é ótimo! Bom como os queijos de Abanassínia, mas não tanto como os de Solance! Veja bem lá está a Hospedaria do Derradeiro Lar e não sei como o queijo de lá é tão bom! Já perguntei pra eles onde compram, mas aquele velho careca não diz nem sob tortura! Embora ele fique se gabando das batatas...
- Eu como o queijo! – interrompeu Thorvalen. – Se isso fizer você ficar com sua matraca fechada!
- Ah, mais aí eu perco duas vezes! O queijo e a graça!
Todos riram da conclusão do gnomo que preferiu comer o queijo sozinho e continuar falando sobre sua visita à Cidadela Dourada. Era uma gargalhada que não davam há um bom tempo e aquilo ajudou a aliviar um pouco a tensão do que passaram ao entrar nas minas de Vingaard. Por um curto momento, apenas um pequeno momento, todos se esqueceram de sua laboriosa campanha, mas não aquela jovem druidisa.
Orvalho da Aurora estava preocupada com os refugiados e com o que poderia ter expulsado um círculo de druidas inteiro de seu santuário. Estava preocupada também com Sir Hector e percebera apenas agora o quanto aquele humano significava para ela. Sentia falta da segurança que ele a fazia sentir, mesmo que não reconhecesse para si mesma. Como uma elfa kagonesti gostava de acreditar que era auto-suficiente e de fato até era, mas por algum motivo queria arrebatadoramente que o sorriso confortante do nobre cavaleiro estivesse ali junto dela. Pensou enfim que deveria ter algum motivo para ela pensar assim, só poderia ter um porquê, mas a pequena selvagem não queria acreditar ou não queria reconhecer que estava ficando enamorada de um solâmnico.
- Não estou dizendo – Thorvalen levantou a voz fazendo-a voltar de seus pensamentos – que ele não saiba lutar! Apenas que ele poderia usar o escudo de outra forma. Como ataque, mas sem que isso prejudique sua defesa!
- Sir Hector foi treinado em Sancrist! – contra-argumentou Valdor. – Acha que luta melhor que os melhores Cavaleiros de Solamnia?
- Sei que os anões possuem técnicas de combate apuradas em séculos de experiência em guerras! Lutávamos bem antes de Vinnas Solamnus criar a cavalaria. Com certeza sou bem mais experiente que todos aqui!
- Apenas porque você é um velho...
- Não sou velho! Não para meu povo, mas com certeza estaria morto se fosse um fracote humano! Eu já sobrevivi há 147 invernos e cem deles foi ao calor da batalha seu tratante indolente!
- Parem já com isso! – disse Diana acalmando os ânimos. – Perceberam que estão discutindo à toa? Sir Hector nos levou até aqui com uma diligência inabalável. Foi levar para a cidadela os refugiados e voltará para nos ajudar! O que mais quer dele, mestre anão?
- Que melhore aquela base ou vai acabar caindo por um golpe forte, oras! Que esqueça seus títulos de nobreza e vire um guerreiro de verdade!
- Não sabe – falou pesarosamente Valdor – o quanto esse comentário, este exato comentário, o derrubaria de verdade, meu experiente mercenário da colina!
Thorvalen resolveu não falar mais nada e apenas ele percebeu a saída de Orvalho da Aurora da roda dos companheiros. A elfa se sentia ainda mais triste pela aquela conversa e resolveu se isolar um pouco. Pensou em como tudo tinha mudado de forma tão rápida. Lembrou da maravilhosa vida que tinha na Floresta Enegrecida e dos amigos, Hurian e Thandro, que morreram para protegê-la. Para proteger aquele livro maldito que trazia consigo. Um segredo conhecido apenas pelo anão e pelo cavaleiro. Ah, como aquela jovem gostaria que Sir Hector ainda estivesse junto a ela!
- Farei o primeiro turno, pois não estou nem um pouco cansado! – disse o neidar pegando um pedaço do queijo de Dális. – Essa coisa é horrível! – ralhou ele sob os olhares inquisidores de todos os aventureiros presentes. – Só estou comendo porque estou com muita fome mesmo, mas nunca provei algo tão amargo em quase dois séculos de vida!
O dia seguinte foi mais calmo e os companheiros puderam seguir tranqüilos pelas várias salas, câmaras e túneis das montanhas. Não havia nenhum sinal dos skuns e Thorvalen guiava o grupo com seu habitual jeito taciturno. Graças ao anão da colina os heróis puderam evitar várias armadilhas naturais e locais perigosos, embora todos eles se sentissem perdidos naquele ambiente labiríntico; menos, claro, o neidar proscrito.
Caminhavam naquelas masmorras por horas e já estavam cansados de tanto andar, mas o pior é passar tanto tempo sem sentir o calor da luz do sol em seus corpos. Toda aquela escuridão, mesmo com a tocha de chama contínua da reverenda Diana, deixava o ar ainda mais pesado e fazia com que a vontade deles diminuísse drasticamente.
- Então eles são lançados? – perguntou Valdor assustado. – Esse tal de elevador não me parece muito diferente de uma catapulta humana!
- Não é uma catapulta! – respondeu Dális contrariado. – O processo é totalmente diferente e veja, tem as redes! Depois que a pessoa é lançada para o andar superior, ou outro andar acima, de qualquer forma, há uma rede para amortecer sua queda. Entretanto e, no entanto, problema é que nem sempre acertamos os cálculos ou algum labrego opera o elevador e a pessoa acaba caindo a alguns metros longe da rede, mas é um erro comum no fim das contas. O curioso é que com as nossas catapultas isso não acontece, pois calculamos a distancia do disparo da pedra e ela vai pra lá certinho! Não entendo o porquê, mas quando perguntei aos membros da Guilda dos Engenhoqueiros, me disseram que isso acontece porque há mais variantes entre os pesos das pessoas do que das pedras. Particularmente, assim, comigo mesmo, eu acho... Opa!
O pequeno gnomo parou de falar por um instante e, como isso era extremamente raro de acontecer, logo chamou a atenção de todos. Os aventureiros olharam em sua volta e logo perceberam que não estavam mais sozinhos. Havia mais alguma coisa na escuridão das masmorras. Vultos se aproximavam cautelosamente, mas como logo perceberem que tinham sido vistos, eles subitamente atacaram com muita celeridade.
Novamente eram atacados por um bando de Skuns, os homens-peixe, e novamente se viam cercados por eles. Os cinco companheiros se colocaram de costas um para o outro, formando um círculo, achando melhor esperar que os seus monstruosos agressores viessem até eles.
Essa tática funcionou bem no inicio. Nenhuma das criaturas conseguia penetrar no circulo, pois era fatalmente atacada pela espada veloz de Valdor, pelo machado retalhador de Thorvalen, a maça esmagadora de Diana, a lança pungente de Orvalho da Aurora ou a adaga precisa de Dális. Se algum deles falhasse o outro ao lado rapidamente lhe dava cobertura. Assim continuaram por um bom tempo, mas logo perceberam que não paravam de chegar cada vez mais skuns...
- Essas criaturas brotam das pedras? – perguntou a elfa selvagem. – Nossos inimigos são muitos!
- Talvez – respondeu o heraldo – eles sejam parentes do Thorvalen!
- Bah! – resmungou o anão da colina. – Posso ficar aqui talhando o dia todo!
- Não! – contrariou a sacerdotisa tomando cuidado para convencer o companheiro. – Vamos ter que sair deste lugar para uma melhor posição!
- Ali! – bradou o gnomo ao encontrar uma brecha entre os inimigos. – Me sigam aqueles que forem meus amigos!
O pequeno saiu em meio aos skuns e foi seguido instintivamente pelos outros heróis. Dális, percebendo isso, sentiu uma alegria enorme lhe preencher a mente, pois duvidara que alguém naquele grupo lhe desse algum crédito. Entretanto até mesmo o rabugento Thorvalen estava atrás dele, mas se lembrou de algo e a tristeza novamente veio à sua face. O gnomo não tinha a mínima idéia do que fazer e nem para onde ir.
Foi em meio a essa confusão que Orvalho de Aurora viu que em um dos trilhos logo adiante estava um dos carroções, mas este, montado no estranho caminho de metal e madeira. Imaginou se não era isso que Dális tinha visto e correu rapidamente subindo no transporte.
- Vamos! – disse ela. – Entrem rápido aqui!
- Isso mesmo! – gritou o pequeno gnomo. – Vamos para o carroção e ele irá nos tirar daqui!
Enquanto eles entravam no veículo uma saraivada de azagaias silvou no ar do túnel e se abateu velozmente contra eles. No entanto, nenhuma delas atingiu os aventureiros, a não ser a que ricocheteou no escudo de Thorvalen. Uma vez lá dentro, Valdor resolveu perguntar:
- E agora, Dális?
- Tenho que alcançar a manivela! – respondeu o pequeno. – Sabe? Ela vai dar impulsão ao carroção e ele irá deslizar com facilidade, já que estamos em uma decida, mas cuidado! Lembra quando fa...
- Vai logo sua matraca! – ralhou o anão. – Eu lhe cubro e tu acionas esta coisa do abismo!
- Certo!
Assim, coberto pelo escudo protetor do neidar, o pequeno Dális, com muito esforço, puxou a alavanca e o carroção se pôs a movimentar-se.
Os cinco companheiros desceram, dentro do transporte, e quando o caminho dos trilhos ficou mais íngreme, atingiram uma velocidade assustadoramente vertiginosa. Apenas o gnomo, que estava adorando a experiência, e Thorvalen, conseguiam ficar em pé para ver onde estavam indo exatamente, mas mal podiam acreditar em tudo aquilo.
Era uma infinidade de passagens e túneis que viam passar por seus olhos de forma embaçada, quase onírica. Grandes eram as câmaras das Masmorras de Vingaard e se não fosse pelo “atalho” que aquele carroção lhes proporcionara, talvez tivessem demorado mais um dia pra atravessar tudo aquilo. Entretanto outra coisa incomodou o experiente anão da colina.
- Se abaixem!
Uma seção do trilho estava quebrada e o transporte de descarrilou ao passar por aquele local. O carroção atingiu o alto daquele salão lançando os companheiros ao ar e os fazendo cair dentro de um grande lago subterrâneo.
Aos poucos os sentidos dos heróis foram voltando. Valdor conseguia ver Diana e Orvalho da Aurora se levantando machucadas ainda pela queda. Procurou os outros, achou Dális desmaiado, mas não viu Thorvalen e iniciou uma busca, apenas com os olhos, pelo lugar, a fim de achar o amigo.
O heraldo viu que estava em uma grande câmara com vários túneis de passagens e em seu centro um grande lago, em relação ao qual se encontrava na margem. A água parecia tranqüila e refrescante, um verdadeiro bálsamo em meio a aquele lugar amaldiçoado. Uma linda queda d’água vinha do alto teto, mas ele não conseguia ver tão longe devido à escuridão. De certa forma era ainda mais escuro aquele lugar e Valdor agradeceu em pensamento por Diana ter aquela tocha cuja chama nunca se apagava.
Entretanto, algo chamou a sua atenção. Podia ver algo, uma massa obscura, se mexendo nas águas transparentes do lago, e imaginou se não seria Thorvalen. Andou o mais rápido que pôde até perto do centro do lago, para enxergar melhor, e quando viu o que era ele parou. O frescor e a limpidez da fonte eram um alívio para aqueles dias de tensão e desolação que estava vivenciando. Estava totalmente fascinado por aquilo!
Diana viu o heraldo se dirigir ao centro do lago e decidiu ir com ele para saber o que tinha chamado sua atenção, mas outra coisa desviou seu olhar. Sua companheira, Orvalho da Aurora, estava sentada na margem com graves ferimentos e a reverenda de Paladine achou melhor ajudar a amiga.
Foi quando subitamente tentáculos sinuosos agarram a elfa selvagem puxando-a para debaixo das águas límpidas. A jovem ainda teve tempo de armar seu arco e disparar uma flecha bem no meio donde vinham os tentáculos. Ela com certeza acertou algo, mas mesmo assim foi tragada pela força da estranha besta e desapareceu no meio do lago cristalino.
A sacerdotisa tentou chegar perto da amiga para ajudá-la, mas foi interrompida por Valdor que se colocou à sua frente.
- Orvalho da Aurora está em perigo! – disse Diana. – Vamos ajudar!
Para sua total surpresa, o heraldo a socou precisamente no rosto fazendo a jovem cair mais pelo susto do que pela força do golpe e, uma vez ela estando no chão, Valdor retirou seu sabre e apontou em direção a Diana.
- O que você está fazendo! – gritou. – Por que está me atacando?
Não houve resposta alguma e a jovem sacerdotisa não entendeu aquilo, apenas percebeu um olhar estranho em seu companheiro. Tinha que raciocinar rápido, pois sua amiga élfica ainda estava submersa e ela não tinha visto nem Dális nem Thorvalen ainda. Não tinha a mínima idéia de como eles estavam. Também não queria ferir o seu amigo, mesmo esse agindo com tamanha insanidade, assim ela contemporizou sobre o que fazer. A reverenda Diana se levantou rapidamente e fez uma prece, segurando o medalhão de prata, símbolo de seu Deus:
- Oh Cavaleiro Valente – iniciou, mas Valdor aproveitou o momento e a atacou, entretanto ela se defendeu com o braço armadurado e continuou sua reza a Paladine – proteja sua filha que não quer ferir o colega. Faça com que ele também não possa fazer mal a mim, pois meu corpo é seu santuário.
Uma aura branca começou a emanar do corpo da sacerdotisa e sua luz, embora não tivesse o alcance da tocha de chama eterna, era muitas vezes mais forte e gloriosa. Qualquer um que a visse naquele momento realmente acreditaria que ela fora abençoada por sua Divindade.
Assim o heraldo não conseguia mais agredir a companheira de forma alguma, por mais que tentasse, a simples visão daquela mulher em todo o seu esplendor o fazia desistir inexoravelmente. A clériga agora, sem ter que se preocupar com Valdor, podia se focar em ajudar a amiga e descobrir o que estava acontecendo naquelas masmorras.
Ela agora pôde ver o pequeno gnomo caído, próximo à margem, aparentemente desacordado. Pensou em ir até ele, mas aqueles malignos tentáculos se bateram contra ela a fim de aprisioná-la como fez com Orvalho da Aurora, mas Diana por sua vez não tinha sido pega de surpresa.
Novamente evocando o nome de seu Deus patrono ela golpeou um daqueles delgados e sinuosos braços da criatura com sua maça-estrela e esmagou um dos tentáculos devido a sua fé.
Um brado de dor e fúria ecoou por toda a caverna, mas mesmo assim os outros tentáculos conseguiram segurá-la. A sacerdotisa foi erguida pela perna esquerda e assim ficando de cabeça para baixo. No entanto, sua vontade era inabalável e a reverenda continuou atacando com sua destruidora maça até que a oculta besta a largou.
Diana se estatelou no chão, estava seriamente ferida, mas mesmo assim ela continuou de pé, pronta para lutar. O monstro percebeu isso e finalmente emergiu do lado a fim de amedrontar a clériga com sua aparência.
Era uma criatura realmente apavorante! O monstro aquático devia ter o comprimento de quatro homens. Tinha vários tentáculos e nadadeiras em um corpo cheio de protuberâncias ósseas de cabeça bulbosa com três olhos vermelhos e horripilantes. As águas se tornaram escuras e viscosas em sua volta e um cheiro desagradável de gordura estragada empestou o ar das masmorras. A reverenda de Paladine se manteve firme, mas sua fé falhou quando viu Orvalho da Aurora morta entre aqueles tentáculos banhados de sangue.
Aquele ser repugnante podia farejar o medo crescendo em sua formidável adversária, assim resolveu agarrar Valdor, mesmo esse a servindo fascinado por seu poder, e o ergueu à frente de Diana. Ela não pôde fazer nada enquanto os ossos do companheiro eram triturados pela criatura.
A sacerdotisa fraquejou com aquilo, sua costumeira serenidade e prudência foram abandonadas. Ela simplesmente avançou como pôde pelas águas do lago e atacou a criatura com fúria, sem se preocupar com a defesa, sem se importar que uma de suas magias pudesse ser mais eficaz naquele momento. A besta aproveitou isso e a segurou novamente pela perna esquerda e fez o corpo de Diana se chocar contra a parede. Assim a jovem largou tanto sua arma como a tocha de chama contínua que carregava em cada mão. A escuridão voltou a dominar as masmorras de Vingaard.
A reverenda que, uma vez órfã, tinha devotado toda sua vida para seu Deus, pensou pela primeira vez que tinha sido abandonada por seu patrono; no entanto, esta falta de fé logo não mais permeava sua mente. A vontade de Diana era inabalável e mesmo se fosse morrer ali a sacerdotisa não desistiria de seu amor à sua Divindade, sempre reverenciaria seu verdadeiro pai Paladine, o Cavaleiro Valente e soberano dos Deuses do Bem.
No exato momento que sua crença se fortaleceu, Diana ouviu uma voz familiar ecoando naquele lugar maldito e soube exatamente de quem era. Mesmo estando totalmente no escuro.
- Não faria isso se fosse você! – disse calmamente, mas enfaticamente Thorvalen ao observar, com sua visão no escuro, que o monstro estava prestes a matar sua companheira. – Não quer que eu vá aí e lhe ensine boas maneiras não? Sua criaturinha desprezível!
O anfíbio atroz encarou o anão das colinas com seus três olhos que brilhavam em meio a todas aquelas trevas. Thorvalen parou por um momento, sorriu e logo voltou a falar:
- Bah! Não acha que vai dominar minha vontade, acha? A única coisa que vai ganhar com isso é um novo sorriso nessa sua cara de peixe!
A aberração se irritou ainda mais com a bravata e guinchou alto doendo os ouvidos dos dois aventureiros. Um dos tentáculos se colocou para trás, como um felino em um bote, e partiu para cima do agora frágil corpo da sacerdotisa; mas antes de atingir seu alvo, o anão neidar correu e deu um salto, passando por cima das águas, até atingir a criatura, decepando de uma vez só o tentáculo com sua famosa arma, o machado Lâmina Glacial.
Thorvalen caiu sobre o corpo da besta que o recebeu com seus outros tentáculos tentando agarrar o anão. Quando percebeu que não conseguiria, usou suas nadadeiras para cortar a carne do oponente, que não esboçou nenhuma reação de dor, ao invés disso ele bradou novamente:
- Acha que isso são cortes? Vou lhe mostrar o que é talhar de verdade!
Mesmo sangrando pelas perfurações que a criatura tinha provocado em todo o seu corpo compacto, o anão desceu o machado sobre a cabeça bulbosa do monstro, cegando dois de seus olhos. Mais um guinchado foi ecoado pelas cavernas, mas antes de terminar, Thorvalen já tinha cegado seu outro olho.
Aquele último golpe tinha sido profundo e o experiente mercenário usou a ponta de seu machado como um anzol para içar a protuberância óssea que protegia os olhos da criatura a fim de abrir seu crânio. Entretanto os tentáculos finalmente agarraram seus poderosos braços e ele foi arremessado para longe, perdendo seu machado ainda cravado no monstro.
O anão da colina caiu quebrando o braço esquerdo e partindo seu velho escudo em dois. Levantou-se murmurando alguma maldição de seu povo e se colocou novamente a combater seu oponente atroz. Retirou um de seus pequenos machados de arremesso e lançou a arma para chamar a atenção da criatura novamente para si. O anfíbio mordeu a isca, deixando Diana para trás e investindo cegamente contra Thorvalen, que não se surpreendeu em ver que seu oponente também conseguia se mover em terra firme, graças aos poucos tentáculos que lhe sobraram inteiros e não esmagados ou decepados.
O monstro se pôs encima do mercenário para esmagá-lo, mas este retirou sua segunda e última machadinha e cravou na barriga da criatura. A besta soltava um urro medonho enquanto Thorvalen abria seu estômago, retirando suas entranhas para fora daquele corpo escamoso e ósseo. Mesmo com o braço quebrado ele saiu de baixo do anfíbio atroz para buscar sua Lâmina Glacial e terminar por abrir o crânio da aberração. Não havia mais vida naquela criatura, mas o anão queria ter certeza de que o monstro estava morto.
Diana recobrou a consciência e viu que estava na margem do lago, que agora era negro como piche, não mais cristalino e refrescante. A primeira coisa que viu foi Thorvalen sentado em cima do enorme peixe bestial fumando um cachimbo que nunca tinha visto antes. Ela ignorou a pose de vitória do anão da colina e foi à procura dos demais aventureiros. Os encontrou todos enfileirados na margem logo ao seu lado, estavam enfaixados com bandagens improvisadas, mas eficazes.
- Um mercenário realmente experiente – elogiou Diana. – Esses curativos servem bem até eu acordar e poder curá-los com minha fé!
- Tu ou a Orvalho da Aurora – respondeu o neidar – quis dizer!
- Orvalho da Aurora?
Foi apenas agora que a sacerdotisa notou que a amiga élfica estava entre os companheiros feridos. Ela achava que a kagonesti tinha morrido pelos tentáculos da aberração, estava gravemente ferida, mas ainda viva. Estava ainda ao alcance de suas capacidades curativas.
- Que Paladine se apieda de ti, minha colega! – rezou Diana curando a elfa selvagem e novamente voltou a falar com Thorvalen. – Achei que aquela besta a havia matado!
- Quem? O Abolete? – perguntou o mercenário ainda fumando com um largo sorriso sob a barba. – Balela! Ele apenas mostrou o que queria para tu!
- Abolete? – indagou Orvalho da Aurora já recobrando a conciência. – O que é isso afinal?
- O monstro que nos ataco. – respondeu o anão enquanto Diana e a própria druidisa curavam os outros heróis. – Já tinha visto um desses antes! Sempre quando tem muitos skuns acabamos encontrando um Abolete. Eles são os criadores dos homens-peixe. O Abolete pega uma pessoa e absorve totalmente seu conhecimento com seu poder profano e então decide se vai comê-la ou usá-la como escravo transformando-as em skuns.
- Então nós atacamos pessoas inocentes lá em cima?– interrompeu a sacerdotisa. – Por isso os refugiados estavam presos ainda, para virar um desses tais skuns?
- Não e sim! Não, depois que se vira um skun não tem mais volta e é melhor que a pessoa morra do que viver escrava desta criatura atroz! E sim, aqueles druidas da Floresta Guardiã estavam vivos apenas para virarem meros escravos do Abolete.
- Que coisa mais horrível!
- E eu perdi tudo isso! – disse Dális. – Carambolas, alguém podia ter me acordado! Sempre perco essas coisas, mas se vocês virem algum vulcão por aqui vão me contar, né? Essa é minha missão de vida, não sei se eu falei isso para vocês... Todo gnomo tem uma...
- Esse aí já acordou com a corda toda! – disse o Thorvalen. – Melhor sairmos daqui logo, se estiver bom para todos!
Os cinco companheiros saíram da caverna do lago e continuaram por uma passagem, guiados pelo anão neidar para mais fundo nas masmorras. Apenas para logo depois desabarem em um descanso merecido e profundo, mas não antes de Diana guardar o local de descanso com suas divinas magias de proteção.
No dia seguinte, os heróis ainda precisaram dos poderes curativos da reverenda de Paladine e da druidisa Orvalho da Aurora. Muitos eram os ferimentos por terem confrontado o Abolete e seus skuns.
Encontraram naquele mesmo dia a saída oeste das Montanhas de Vingaard e puderam ver novamente a luz do sol. Entretanto ainda chovia muito na superfície de Solamnia e todos tiveram que se cobrir com suas capas e sobretudos para descerem a cordilheira.
Estavam bem no alto e puderam ver as ruínas da antiga Casa de Inverno que estava inundada desde tempos imemoriais. Um forte odor de maresia estava no ar mesmo com toda aquela chuva e mal podendo ver o Mar de Sirrion que banhava as terras da costa. Também viram o Pântano Guardião e imaginaram o que poderia ter acontecido ali para expulsar todo um círculo de druidas de seu antigo e sagrado lar.
Mesmo na primavera, sempre havia um pouco de neve na parte meridional daquelas montanhas. Logo a chuva era de granizo ali e isso tornou a travessia muito perigosa e escorregadia. A maioria da travessia era formada de desfiladeiros sinuosos e traiçoeiros e toda a atenção era pouca, assim tinha-se que ter os olhos bem abertos, como diria Thorvalen. O próprio Dális chegou a cair de um penhasco apenas para ser salvo por Orvalho da Aurora, que usou seus poderes druídicos para se transformar em uma enorme harpia e trazer o gnomo são e salvo para as cordilheiras novamente.
Chegaram somente à noite no sopé das montanhas e decidiram acampar, com barracas improvisadas de gravetos e folhas feitas pela elfa selvagem, para mais uma noite de descanso e recarregar usas energias para o dia seguinte. Foi uma noite fria e muito chuvosa, sendo iluminada pelos relâmpagos esporádicos que ribombavam nos céus ao oeste de Solamnia.
Partiram logo ao alvorecer do dia e agora estavam mais animados por estarem ao ar livre novamente. Havia chuva ainda, mas mesmo esta não passava de uma suave garoa, tornando aquela manhã fresca e agradável. Foi uma longa, mas tranqüila caminhada, tanto eles que chegaram à outrora Floresta Guardiã apenas próximo ao meio-dia.
Então toda a alegria conquistada naquela manhã fugiu de suas mentes quando os cinco companheiros puderam ver com os próprios olhos o que estava acontecendo naquele local. Aquele pântano fétido podia ter sido um santuário antes, mas agora não passava de um lugar decadente e sinistro. Podia até ter vida antes naquelas bandas, mas agora estava totalmente desolado. Os antigos bosques verdejantes não passavam agora de charnecas alagadas.
Era agora um brejo imundo cheio de árvores lúgubres e vegetação podre que estava espalhada pelas poças estagnadas e turvas. Iluminado apenas pelos poucos feixes que o sol conseguia penetrar naquela neblina densa e certamente venenosa. Quanto mais os heróis caminhavam, a cada passo que davam, percebiam cada vez mais a total devastação em que se encontrava o agora chamado Pântano Guardião.
Já bem dentro daqueles baixios de poças lodosas e gélidas, eles viram vários amontoados próximos a um outeiro coberto por cipós secos e lôbregos. Os aventureiros foram chegando mais perto e perceberam que se tratava de várias armações de peles expostas ao sol para secar, como fazem os caçadores, mas as carnes que estavam sendo curtidas não eram de bois ou porcos.
Era carne humana.
Corpos dos malfadados membros do círculo de druidas que não conseguiram fugir da extrema maldade e vilania que se abatera sobre sua comunidade. Estavam expostos como carne de caça. Aquela visão gerou náuseas e vertigem em alguns dos companheiros, mas foi apenas quando viram que havia também inocentes crianças entre os mortos estirados, que a reverenda Diana começou a vomitar.
- Isso querida – disse Valdor, mesmo desolado – ponha tudo para fora!
- Que tipo de monstro pode ter feito isso?
A pergunta de Orvalho da Aurora logo teve sua resposta e a elfa quase se arrependeu de ter feito tal indagação.
Algo se ergueu com uma indolente letargia daquelas águas pantanosas e fétidas. Foi como se toda a podridão do lugar se manifestasse em uma única criatura, negra como a noite e tenebrosa como o mais íntimo dos medos. Aquilo se pôs de pé e abriu suas vastas asas fazendo a escuridão mesmo em pleno meio-dia. Amedrontado, Valdor relembrou o que o velho refugiado dissera nas masmorras de Vingaard e reproduziu aquela sentença de morte:
- Por que uma noite tenebrosa caiu sobre as florestas transformando tudo aquilo em um charco ácido.
Sim, bem ali na frente deles estava a criatura mais temida e medonha de todo o continente de Ansalon. Tema de lendas e baladas de tragédia, era o mais avassalador e colossal dos inimigos que um aventureiro poderia ousar debilmente enfrentar. O esplendor sombrio que representava o mais incomensurável poder de devastação. Terrivelmente majestoso, uma criatura que personificava a soma de todos os medos que habita o canto mais escuro em nossos corações.
Ali os cinco companheiros deixaram toda a esperança para trás e se entregaram ao total desespero, pois estavam diante de um dragão negro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Capítulo IX - Nas Profundezas da Escuridão

Os sete companheiros entraram no íngreme túnel que serpenteava pelo interior das antigas minas de bronze da cidadela de Relgoth. Era uma senda natural de rochas sólidas e pontiagudas, de difícil travessia, embora as escadarias feitas há muito tempo ainda estivessem boas para serem usadas. Sua própria escuridão os teria derrubado se não fosse a luz que se propagava da ponta do cajado de Fizban, mas o cheiro fétido que vinha das entranhas das Montanhas de Vingaard quase os levou à vertigem. Durante um milênio aquela passagem não era usada e a natureza há muito já tinha retomado seu domínio sob as cavernas. Se não fosse pelo lance de escadas na garganta da caverna ninguém poderia dizer que havia a mão de algum homem naquele lugar amaldiçoado, ninguém poderia dizer que em algum tempo longínquo aquilo já fora uma mina de anões da colina.
- Bah! – exclamou o mercenário proscrito. – Não é exatamente uma mina do meu povo, mas sem dúvida, anões ajudaram a construir este local, pois se assim não fosse, as escadarias nem existiriam mais. Construímos lugares para durarem milênios! Nossas moradas desafiam o rio do tempo.
- Sim, meu caro Thorvalen! – comentou Valdor. – Mas se estou bem me lembrando, havia uma mina do seu estimado povo por essas bandas, não? Chamava-se Helgardin e acredito ter sido exatamente neste lugar em que nos encontramos! Estou certo?
- Helgardin? Pode até ser, pois na minha língua isso significa morada do bronze e havia muitas de nossas minas pela Cordilheira de Vingaard!
- Bronze novamente? – perguntou Orvalho da Aurora. – Esse metal é de muito valor para os humanos?
- Sim e não! – respondeu Sir Hector. – Há milênios atrás não tínhamos conhecimento do aço e o bronze era uma das melhores peças para se fazer armamento e mesmo um tempo depois ficou como um metal nobre para ser usado em esculturas e outras peças de arte, mas hoje já se tornou um pouco comum, eu acredito. Isso pode ter agravado a situação da Cidadela dos Leões no tempo da ruína de meu ancestral, Dinadan.
- Não apenas isso, meu bom cavaleiro! – falou o gnomo Dális. – Bronze é uma mistura de estanho e cobre, feita para aumentar a resistência estrutural do metal e isso realmente ocorre, pois o bronze agüenta bem a corrosão atmosférica! No entanto e, entretanto, o metal é fácil de fundir e por isso podemos ver tantas peças de escultura feitas deste metal na Cidadela também. Ótimo pra construir nossas ferramentas e o meu povo o usa para fazer parafusos, molas e as mais diversas engrenagens! Tem um tipo de energia que nós tiramos dos relâmpagos e o bronze a conduz muito bem! Ah, claro! Esta é para meu bom Valdor... Muitos instrumentos musicais podem ser feitos de bronze! Tanto os de percussão como os de sopro...
- Os sinos da Catedral do Pai de Platina são feitos de bronze – interrompeu gentilmente Diana, pois sabia que ninguém mais entendia bem o que o pequeno estava falando exatamente. – Quando foi que essas minas foram abandonadas? Há uns mil anos atrás não?
- Foi em 1027 pré-Cataclismo! – esclareceu o Heraldo. – Durante a Terceira Guerra dos Dragões! Lembro que até Sir Dinadan chegou a lutar ao lado de Huma Destruidor de Dragões, mas acho que isso não passa de uma lenda!
- Não! – discordou o cavaleiro. – Ele realmente encontrou Huma! Estavam sob o comando de Lorde Oswal no vilarejo de Seridan ao noroeste de Kyre. O lendário Destruidor de Dragões era um mero escudeiro na época.
Os heróis prosseguiram com diligência pelas longas escadarias da garganta da mina que os levava cada vez mais para as profundezas das masmorras de Vingaard.
Puderam ver um grande saguão escavado na pedra onde não podiam observar completamente seu fundo, já que era maior que o alcance da luz arcana do cajado luzente do velho mago. Havia tanto estalactites quanto estalagmites em um local úmido e empesteado de ratos e morcegos que fugiram pela simples presença dos estranhos intrusos. Entre as sombras das formações naturais quase não podiam ver os carroções de mineiros que ainda estavam lá, junto a caixas extremamente deterioradas e vários corpos putrefatos que não passavam de esqueletos agora. O cheiro dos séculos era nauseante, mas o mais perturbador era o silêncio que se estabeleceu com a saída dos animais peçonhentos. Nem a elfa era capaz de escutar algo e aquilo começou a ser mais assustador que a enorme escuridão profunda que se alastrava pelos túneis.
- Hum, há muito esse lugar não é incomodado realmente! – informou o mago fazendo alguns companheiros se assustarem por ter falado de repente. – Estamos a uns cem metros abaixo da entrada.
- Balela! – resmungou o anão da colina olhando atentamente para as paredes e tocando o chão. – Estamos precisamente a sessenta e três metros abaixo da Cidadela Fantasma e aqui ainda é um pouco íngreme e escorregadio se querem saber. Fiquem de olhos abertos!
- Desculpe! – disse Fizban. – Acho que meus sentidos de anão não são tão bons como os seus, eu presumo! – e ninguém entendeu o que aquele velho queria dizer com isso, já que de fato não era um anão. – Foi àquela subida lá atrás sabe? Antes de chegarmos à Cidadela Fantasma. Não costumo a subir muito, apenas a descer, mas é bom saber que estamos indo mais a baixo!
- Orvalho de Aurora! – chamou Sir Hector. – O que seus olhos podem ver ao fundo deste local?
- Não muito, pois a luz do mago é fraca! – respondeu. – Mas acho que tem uma fenda trespassada por uma ponte não muito ao longe!
- Ora! – falou indignado o velho. – Se não gosta da minha luz faça uma você mesma! Não precisa a magoar assim! Saiba que o pai dela já iluminava locais como este bem antes de você vir ao mundo, sua kagonesti insolente!
- Cha! – exclamou assustada. – Não quis lhe ofender, Fizban! Suas habilidades mágicas sempre nos ajudaram, só disse que se a luz fosse maior eu veria mais! Desculpe! O senhor não me entendeu...
- A senhorita que não entendeu! Eu não me ofendi, foi a luz que se ofendeu! Coitadinha, ela ainda é uma criança e não sabe iluminar muito!
- No Monte Deixapralá estamos tentando fazer com que aquela energia dos relâmpagos sirva pra pôr em lampiões! Seria uma criação meio complexa, mas máquinas pequenas e simples são criadas por mentes pequenas e simples. Enfim, assim acreditamos que será de duração bem mais longa, embora a luz do gás que sai das profundezas do Monte já nos ajuda um bocado, mas é meio complicado extrair sabe? Muito inflamável aquilo e já causou certos acidentes explosivos! Uma vez, eu estava...
- Bah! – se irritou Thorvalen. – Não vamos ficar aqui discutindo com um mendigo louco e uma maritaca! Temos que continuar, pois as pessoas de Relgoth contam conosco! Vamos logo e fiquem todos de olhos bem abertos!
Continuaram pelo salão escuro até poderem examinar melhor os carroções dos mineiros. Eram feitos de metal que já estava, há muito, enferrujado pelos milênios de existência. Tinham estranhas rodas e de fato havia um estranho caminho feito de duas linhas de metal transpassadas por passarelas de madeira desgastada, mas ainda em suas posições originais.
- Olhem! – disse a elfa selvagem. – O que seria isso?
- São trilhos! – respondeu Sir Hector. – Eles levam os carroções de forma mais rápida pelas minas já que seria impensável pôr um cavalo aqui! Foram feitos pelos anões, mas com a supervisão dos gnomos eu acho!
Naquele momento todos olharam para Dális esperando alguma explicação de como funcionaria aquele estanho veículo.
- Ah, sim! – respondeu o pequeno gnomo. – Isso é criação da Guilda dos Transportes e seria impossível viver no Monte Deixapralá se não fosse por trilhos como este. Claro que também tem os elevadores, mas está invenção nunca deu muito certo, o que é ótimo! Sabe, sempre acabam saindo uma em três pessoas machucadas por usar os elevadores. Entretanto e, no entanto, estes trilhos são ótimos, muito seguros de fato! Se bem que temos muitos lá no Monte e acaba um batendo no outro às vezes e quando estão em alta velocidade, e acreditem quando digo que é muita velocidade, eles batem e causam um estrago danado! Claro que é uma ótima oportunidade para fazer reparos e aperfeiçoar algumas coisas, apertar os parafusos, como dizemos, mas a última vez que isso aconteceu... Nem queiram saber, sabe?
- E não queremos saber mesmo! – esbravejou o anão. – Bah! Alguém cale a boca dessa matraca antes que eu mesmo o faça!
- Calma! – disse Sir Hector. – Vamos continuar.
O grupo seguiu pelo salão, mas sem o silêncio desejado por Thorvalen, pois Dális se animou a falar sobre todas as invenções da Guilda dos Transportes e seus veículos malucos que ninguém compreendia.
Orvalho da Aurora tentou examinar o local, mas percebeu que sua modesta habilidade de rastreio era inútil no subterrâneo. O anão da colina tinha realmente mais jeito com aquele lugar e ela percebeu que seu amigo finalmente parecia estar em casa, já que as profundezas da terra eram tanto o lar do povo de Thorvalen quanto as florestas eram para ela. Ficou de certa forma feliz com aquilo, mas sua atenção se desviou, pois percebeu uma movimentação estranha em um dos carroções enferrujados.
A elfa foi se aproximando, com seu arco longo retesado, tendo o máximo de cautela com a qual fora treinada e espiou dentro do transporte. Escutou um som e teve que se empertigar para ver devido à altura do estranho veículo. Súbito o carroção se desequilibrou com o peso e virou para o lado de Orvalho da Aurora, que agilmente se esquivou para trás. Entretanto um corpo esquelético caiu sobre ela, agarrando-a de modo que ela não pudesse atirar com sua arma. A jovem druidisa então berrou pelos companheiros:
- Tanderesth! – gritou ela pedindo por socorro. – Quen Talas Uvenelei!
Todos se prontificaram a atender ao pedido de socorro da amiga, mesmo aqueles que não entendiam a língua élfica. Mas foi apenas um deles que chegou realmente rápido retirando o esqueleto de cima da jovem.
- Estais bem? – perguntou Sir Hector. – Se machucou de alguma forma?
- Não, mas ele me atacou! O morto me atacou! Um lugar amaldiçoado realmente!
- Balela! – disse Thorvalen. – Apenas virou o carroção e um corpo caiu sobre ti! Elfa maluca! Teu grito deve ter acordado realmente os mortos agora!
A kagosnesti se sentiu envergonhada pelo ocorrido e encolheu o corpo com tristeza nos olhos. O Cavaleiro de Solamnia percebeu isso e a abraçou com carinho. Primeiro ela tentou lutar contra o gesto amigo, mas desistiu pela força e vontade do homem que arriscou algumas palavras na linguagem dela:
- Sinpah-thalui – disse. – Calma! Está tudo bem!
O neidar proscrito se apiedou dela e pensou se não teria dito palavras duras demais sem motivo. Refletiu em pedir desculpas ou ao menos mostrar que estava arrependido, mas Thorvalen era um anão no fim das contas e não fez nada disso, apenas juntou suas coisas e instigou todos a continuarem...
Finalmente chegaram à ponte e perceberam que ela era feita apenas pelos estranhos trilhos dos mineiros. Assim era uma ponte estreita e vazada. A distância de cada madeira paralela à outra era de um passo largo. Todos concluíram que poderiam passar, mas seria uma tarefa trabalhosa, sem levar em conta que com o tempo que aquilo fora construído, qualquer uma das madeiras poderia ceder com o peso de um deles.
- Será uma grande queda! – disse Valdor olhando para Orvalho da Aurora. – Não vejo o fundo da fenda!
- Também não posso ver! – afirmou ela. – Mas escuto uma queda d’água!
- Bom, esqueças as tábuas! – informou o anão. – Andem pelo trilho de metal que é mais seguro. Bah, se ao menos tivéssemos um corrimão...
- Isso pode ser feito! – Falou a elfa com alegria. – Quanto é a distância até o outro lado Thorvalen?
- Acho que uns dez metros! Por quê?
- Ótimo!
A jovem retirou uma flecha da aljava de Silvannos que tinha a ponta bifurcada e laminada. Amarrou sua corda na outra extremidade da seta e disparou com seu arco longo atingindo o outro lado do abismo.
- Alguém mais tem outra? – perguntou testando a corda para ver se estava bem firme. – Assim teremos um ótimo corrimão!
- Eu tenho! – respondeu Valdor. – E esta é feita pelos elfos também, assim será bem leve, embora muito resistente!
Orvalho de Aurora retesou seu arco novamente e mais uma vez atingiu o outro lado da fenda. Seus disparos foram perfeitos e, amarando as outras extremidades das cordas perto de onde estavam. Um forte corrimão se formou junto à ponte. Assim a travessia não foi muito laboriosa e todos passaram com certa facilidade. Apenas o gnomo Dális teve certa dificuldade, mas foi prontamente ajudado pela sacerdotisa Diana a atravessar. Quando todos se lembraram do velho mago, e pensaram em ajudá-lo; descobriram que de alguma forma ele já tinha atravessado e os esperava impaciente para continuar com a demanda. Estavam um pouco cansados, mas resolveram continuar mais um pouco.
Encontraram três corredores ao fundo, dois indo para sua direita e apenas um dando à sua esquerda. O trilho seguia pelo corredor do meio, ou o primeiro da direita, e seria o caminho mais óbvio pela conclusão deles. Thorvalen pediu a todos para esperarem e analisou atentamente aquelas passagens.
- Todos os túneis aqui descem, menos o da direita sem trilho! – informou o mercenário. – Apenas sinto vento pela passagem do trilho e esta, junto às outras, tem a terra mais fofa e úmida; logo, acredito que estamos perto de algum tipo de lençol freático ou mananciais. A passagem mais à direita é curta e é o único caminho que não recomendo a ir.
- Por quê? – perguntou o mago Fizban. – Se é o mais curto, então poderemos chegar mais rápido, oras! Que tipo de anão é você?
- Quero dizer que é um beco sem saída, seu velho louco!
A discussão foi interrompida pelo disparo repentino do arco composto de Orvalho da Aurora. Todos estranharam, pois ela disparou ao escuro da passagem à esquerda e armou novamente sua arma para mais um tiro. Assim ela resolveu esclarecer sua atitude e avisar aos outros:
- Hai-sin! Thanth udovein mallah! Estamos sendo observados! Não sei o que ele é, mas o acertei! Essa maldita luz sempre me atrapalha!
- Ah, se é assim sinto muito! – desculpou-se Fizban erguendo seu cajado. – Vou apagá-la então! Dumak!
- Não velho! – disse Valdor. – Não vamos enxergar assim!
As trevas atingiram inexoravelmente a todos os companheiros! A situação, que já era desesperadora, agora, sem a luz do mago, tinha ficado ainda pior. Mesmo para o anão neidar e a elfa kagonesti que enxergavam no escuro, pois demoraria ao menos um tempo para sua visão noturna se adaptar à repentina falta da iluminação. Um tempo suficiente para o que quer que os estivesse atacando poder feri-los de surpresa. Assim logo puderam ouvir um som forte como o zumbido de um grande besouro que se propagou pelos túneis, mas foi abafado totalmente pelo berro de desespero e dor que o heraldo Valdor proferiu ao cair pesadamente no chão. Sir Hector bradou pelo amigo, mas em vão, pois não podia ver nada naquelas profundas e obscuras minas.
Orvalho de Aurora sabia daquilo. Tinha que encontrar um meio de fazer com que todos enxergassem, mesmo sacrificando a vantagem que ela e seu amigo Thorvalen tinham. Sabia que aquelas criaturas tinham acertado seu companheiro no escuro, logo elas também possuíam visão noturna. Precisava encontrar um meio de dar vantagem aos amigos e causar desvantagem ao inimigo. Precisava dar um jeito de virar o jogo! Então, refletindo rapidamente, ela sabia exatamente o que fazer.
- Mãe Natureza venha a mim – iniciou uma prece. – Mostre que está em todos os locais incluindo nestas malditas masmorras! Revele meus inimigos que estão sob o manto protetor da escuridão. Permita que meus companheiros os vejam tão claro como vêem a luz dos vaga-lumes mesmo na mais profunda das noites.
Assim uma fraca, mas perceptível luz começou a emanar dos próprios corpos daqueles agressores e estes não podiam mais se esconder nas sombras das masmorras de Vingaard. Eles brilhavam como brilham as fadas e todos podiam vê-los agora.
Criaturas horrendas. Não eram homens, não eram peixes, mas tinham um pouco de ambos. Seres encurvados de calda delgada e olhos bulbosos que vinham do túnel à esquerda, alguns sem armas e outros portando azagaias.
Sir Hector e Thorvalen investiram com seus respectivos escudos ao mesmo tempo, mas apenas o oponente do anão foi arremessado para trás, se estatelando na parede e caindo morto. O cavaleiro ainda precisou sacar a espada e realizar mais um golpe contra a dura coxa de seu oponente, decepando-a.
A clériga se pôs a encontrar Valdor para poder cuidar de seus machucados. Conseguiu achar o heraldo facilmente devido aos seus gritos horrendos e pode enfim tocar em seu ferimento, pungido por uma das pequenas lanças daquelas vis criaturas.
- Cavaleiro Valente ajude-o – rezou Diana. – Se for de tua vontade cure esses machucados para que ele possa levar o bem a esta total desolação.
O velho tocou o ombro da sacerdotisa e lhe deu um sorriso que não pôde ser visto na escuridão. Entretanto a clériga se sentiu confortada tanto pelo toque do mago como pela reação de Valdor que se levantou rapidamente depois de estar curado completamente.
- Eu tenho uma magia ótima pra essas ocasiões, mas sempre me esqueço do nome dela! – disse Fizban à mulher. – O pior é que esta é minha magia preferida!
- Procure em seu livro homem! – falou Diana retirando uma tocha de sua mochila – Precisamos de sua ajuda agora mais do que antes!
Instintivamente a sacerdotisa retirou um dos saquinhos que levava na cintura e delicadamente derramou seu conteúdo na ponta da tocha.
- Paladine, O Senhor dos Dragões! – exaltou ela, voltando a suas preces. – Aquele que comanda os Deuses do Bem, a fonte luzente da Cúpula da Criação! Rogo a ti, meu pai, que traga sua luz a nós e expulse a escuridão!
A ponta da tocha teve um fogo branco ateado que iluminou boa parte do local oferecendo mais ajuda ao mago e seu grimório de magias do que os dois companheiros que estavam em combate com as criaturas.
- Pronto! – disse a sacerdotisa. – Essa chama não se apagará nunca! Agora, por favor, procure a magia que falou em seu livro, meu querido Fizban!
Os dois homens de armas continuavam à frente, alheios à luz eterna de Diana, confrontando e chamando a atenção dos inimigos para eles mesmos, dando tempo para Valdor se recuperar.
Thorvalen talhou com seu machado mágico dois daqueles monstros e prosseguiu sua caminhada da morte. Sir Hector golpeou com sua espada um oponente que não caiu, mas seu segundo ataque, um corte de giro, acabou dividindo seu inimigo ao meio.
- Skum! – bradou o anão. – São skuns estes malditos!
- O quê? – perguntou gritando o Cavaleiro de Solamnia enquanto atacava mais uma criatura. – Eles são o quê?
- Homens anfíbios que vivem em cavernas! Meu povo vive tendo que tirar esta peste dos subterrâneos! Esperemos não encontrar nada pior...
A elfa selvagem pensou em pegar seu arco e atirar contra aquele bando de criaturas hostis, mas contemporizou melhor sobre aquilo. Ela poderia acertar seus novos companheiros na confusão daquela contenda. Julgou que seria mesmo melhor fazer outra coisa.
- A Natureza ainda está aqui! – disse Orvalho de Aurora. – Então que ela se erga! Levante e retome este lugar maldito! Que tua fúria prenda aqueles que abusam de ti, oh grande mãe de todos!
Ervas daninhas começaram a brotar do chão de dentro das frestas e rachaduras que havia em todo lugar. Trepadeiras cresceram e se enrolavam sobre os corpos dos anfíbios skuns prendendo seus movimentos e esmagando os ossos de alguns. Sir Hector e Thorvalen quase foram pegos junto às folhas.
- Que sortilégio novo é esse! – resmungou o anão. – Pare com isso já que eu ainda tenho que apresentar minha Lâmina Glacial a muitos deles!
Entretanto, apesar da bravata, o experiente mercenário não viu quando uma das criaturas, que escapou da magia élfica, pulou por cima das plantas e foi ao encontro dele. Caiu sobre seu corpo e mordeu Thorvalen no pescoço, arrancando um pedaço de sua pele e fazendo jorrar uma quantidade enorme de sangue. Sir Hector ergueu sua espada para ajudar o amigo, mas o skum caiu morto vitima da adaga afiada de Dális que foi arremessada contra ele pelo próprio gnomo.
- Veja! – disse Diana. – Eles ainda precisam de nossa ajuda, meu bom senhor! Vamos, mago! Use com presteza tuas palavras arcanas!
- Ah, é essa mesmo! – exclamou Fizban que, retirando algo mal-cheiroso de sua bolsa, e se pôs a fazer gestos estranhos, mas muito precisos e ritualizados. – Muito obrigado minha filha! Ast kiranan kair-soth aran.
- Pela Canção da Vida, não! – gritou Valdor para os guerreiros. – Saiam logo daí vocês dois!
Uma esfera flamejante irrompeu o ar a partir da mão do mago enquanto Sir Hector e Thorvalen fugiam na direção oposta. A bola de fogo acertou uma das criaturas e explodiu violentamente no túnel. Ateou chamas em todos os skuns daquele bando maligno e o choque fez com que as pedras das paredes e do teto desmoronassem e se algum daqueles monstros sobreviveu à poderosa magia de Fizban, eles com certeza deviam ter morrido no desabamento da caverna.
Diana aproveitou para ver se Valdor estava realmente bem, mas o heraldo já estava recuperado devido à magia de cura da Reverenda de Paladine. Assim foi até Thorvalen para ver seu ferimento...
- Balela! – exclamou ele. – Não preciso de sua ajuda!
Mesmo sem o consentimento do mercenário a sacerdotisa invocou novamente seu Deus e o curou. Tão logo sanado da mordida do monstro o anão da colina foi até os escombros provocados pelas palavras de poder do mago e analisando o local voltou a resmungar:
- Bah, magia! Agora não podemos tomar este caminho! Vamos ter que seguir os trilhos mesmo!
- Temos ainda o outro caminho da direita! – disse Fizban. – Por que você não gosta dele? Ele fez algo a você, mestre anão?
- Pelas barbas de Reorx! Este velho é pior que o gnomo! Vejam bem, melhor decidirmos isso logo, pois aquilo são skuns e se forem liderados pelo que eu estou pensando, a coisa vai ficar pior!
- Como assim? – perguntou Dális. – Quem os lidera? Seria um homem peixe gigante? Um anfíbio sedento por sangue? Uma criatura cheia de tentáculos? Talvez um Dragão! Espero que não seja um, pois essas criaturas são implacáveis sabe? Ouvimos muitas histórias no Monte Deixapralá contadas pelos senhores dos cavalos...
- Escutem! – interrompeu Orvalho de Aurora. – Estão escutando isso?
Ninguém respondeu a elfa kagonesti que se colocou rapidamente a entrar na passagem da esquerda e foi assim seguida pelos demais. O velho mago ainda deu um sorriso vitorioso para Thorvalen que resmungou algo baixo, mas parou quando finalmente tinha escutado o que sua companheira ouviu lá atrás.
Agora todos podiam ouvir os horrendos sons vindos do fim daquele túnel, aquilo que tinha consternado tanto sua amiga. Os sete companheiros instintivamente se colocaram a correr a fim de ajudá-la.
Não era uma longa passagem como o anão neidar já tinha revelado e sem demora chegaram a um corredor para ver uma das coisas mais tristes que tinham visto em vida.
- Uma masmorra realmente! – afirmou Fizban, O Fabuloso. – A Masmorra de Vingaard!

domingo, 10 de outubro de 2010

Capítulo VIII - A Cidadela Fantasma

Os capangas estavam dentro do casarão, escondidos da pesada chuva de fim do mês juventerde, que lavava a Cidadela dos Leões de Bronze. Não era a profissão que eles almejavam, oras, não era o ofício desejado por ninguém, mas ao menos trabalhar para o Chifre Quebrado lhes rendia comida no prato. Os tempos eram difíceis, como se dizia, e eles não tinham nada do que reclamar. Essa era a frágil e desesperada justificativa para o banditismo.
Apenas dois homens guardavam a entrada da fortaleza secreta daqueles escravocratas e era mais do que suficiente. Wunibald e Horst, um meio-elfo, eram homens experientes naquele negócio e, afinal de contas, poucas pessoas sabiam da existência daquela perversa guilda e um número ainda menor sabiam onde se instalava a sede da infame organização maligna.
Um casarão antigo e aparentemente mal-cuidado. Entretanto é apenas um disfarce para um local cheio de passagens secretas e cujos níveis baixos levam a uma cadeia complexa de túneis. Mesmo em uma invasão seria difícil prender e confiscar todos os bens daqueles marginais. Tudo dava a eles a vantagem sobre a guarda da cidade, que mesmo se descobrisse o local, teria uma dificuldade imensa de vasculhar todas as salas escondidas.
Assim não era muito laborioso para os capatazes ou era pelo menos o que aqueles vis criminosos pensavam. Estavam sentados confortavelmente em cadeiras de mogno sob a luz de lampiões na sala de entrada onde faziam o de sempre: jogavam Rei e Rainha, um jogo de cartas famoso entre os mercenários e as tavernas sem classe. Foi quando Horst, sem o menor aviso, levantou-se parecendo ter pressentindo algo. Wunibald, que conhecia muito bem aquela expressão do amigo, olhou com cautela exagerada e perguntou ao colega:
- O que foi? – disse. – Consegue escutar algo com essa chuva?
- O Cântico do Dragão – respondeu o meio-elfo. – Não acredito nisso!
- O quê?
Tão logo disse isso o descendente dos elfos e, abrindo a porta da entrada principal, saiu para a Rua dos Pedreiros. Mesmo vendo a origem do som o capanga não podia acreditar naquilo. Havia no meio da rua um homem loiro que tocava um modesto alaúde. Um heraldo cantando em meio àquela chuva!

“Paladine, o Grande Deus do Bem, resplandeceu ao lado de Huma,
fortalecendo a lança que ele carregava em seu braço direito,
e Huma, radiante como mil luas, baniu a Rainha das Trevas,
baniu as hostes de convidados barulhentos dela
e os mandou de volta para o reino insensível da morte,
onde suas maldições foram lançadas sobre o vazio absoluto
muito distantes da terra iluminada.”

Sem entenderem o que estava acontecendo os dois bandidos se entreolharam e foi o meio-elfo que perguntou:
- Será que ele está bêbado?
- Provavelmente Horst! – respondeu Wunibald. – Mas deve ter algum dinheiro com ele ainda. Vamos pegar!
- Ótimo!
Então os inescrupulosos marginais saíram de sua guarda e foram à rua para se aproveitarem do embriagado bardo sem saber que não estavam sozinhos na verdade. Eles não ouviram as flechas certeiras como a morte atingi-los, bem como nenhum outro membro da criminosa guilda percebeu seus dois porteiros se estatelarem pesadamente e sem vida no chão.
Enquanto isso, um homem entrou rápido como um relâmpago pela porta entreaberta da sede do Chifre Quebrado e sem a menor cerimônia passou pela sala de entrada e abriu a próxima e única porta que havia naquele local. Como seu movimento foi natural, os criminosos que lá estavam demoraram a perceber que não era um dos seus que estava entrando na secreta fortaleza, mas com toda a certeza não era um deles mesmo!
Era um humano no auge de seus quase dois metros de altura e possuidor de um corpo incrivelmente forte. A armadura de aço que o protegia tornava-o ainda mais ameaçador, entretanto foi o emblema em seu escudo que assustou os bandidos. Estava desenhado um martim-pescador com escudo no peito, uma coroa na cabeça e pisando em uma espada emaranhada de rosas. O símbolo da cavalaria, assim aquele indivíduo se tratava de um Cavaleiro de Solamnia.
Aqueles tratantes mal podiam reagir à celeridade do poderoso guerreiro que golpeou com seu escudo dois deles antes dos outros se colocarem em pé para combatê-lo adequadamente.
Um bandido golpeou o homem armadurado que sacou sua própria arma e se defendeu. O choque das duas espadas fez a lâmina chanfrada do criminoso quebrar dando ao homem de armas tempo suficiente para golpear a perna de seu oponente o deixando fora de combate.
Outros investiram contra o invasor e somente um deles foi mais rápido apenas para ser atravessado pela espada do nobre cavaleiro, mas aquilo era uma finta, uma elaborada distração. Enquanto os bandidos confrontavam o homem, um capataz tentava fugir a fim de avisar o resto da guilda sobre aquela súbita invasão. Entretanto um machado de guerra ganhou o ar passando rente à cabeça do solâmnico. A arma silvou pelo corredor e acertou o marginal em cheio, silenciando-o eternamente na escuridão da morte.
Os poucos que ali sobraram foram postos a dormir pelas palavras vacilantes, mas poderosas do velho arcano. Um homem de mantos desgastados que há muito não dava mais para identificar sua cor encardida pelo tempo. Muitos o tomariam apenas por um mendigo louco.
Um anão das colinas retirou sua lâmina gélida do homem que acabara de morrer e, junto ao membro da cavalaria solâmnica, continuaram a seguir com velocidade, não dando chance a avisos e alertas. Ambos eram ajudados pela espada sagaz do jovem heraldo, pelas flechas certeiras da elfa kagonesti e pelos conselhos do excêntrico mago que os acompanhava diligentemente.
O fim do corredor revelava mais uma porta e atrás delas mais capatazes da guilda do Chifre Quebrado vieram se bater contra os heróis. O cavaleiro não gostava de usar a sua ornamentada espada longa, mas eles eram muitos e crianças inocentes dependiam dele; muito dependia dele. Aquele vil ofício tinha que acabar, aquela era uma parte esquecida da cidade, uma cidadela fantasma, mas ele ainda se lembrava.
Os cinco companheiros foram descendo os níveis, por vezes secretos, da sede da organização. Muito deviam ao velho por saber o local e exatamente por onde continuar, mas foi o heraldo que desarmou a maioria das armadilhas que protegiam os segredos da sede daquela maligna guilda. Isso tornou tudo mais rápido, como eles queriam, como precisavam e os poucos bandidos que ousaram impedir aquela empreitada foram rechaçados implacavelmente como uma onda inexorável.
Logo chegaram às masmorras e encontraram aquilo que estavam procurando. As crianças que seriam vendidas como escravas ainda estavam ali, bem como o pequeno e intrépido gnomo...
- Ah, mas vocês são muito bem-vindos – disse Dális. – Pensei que já tinhas se esquecido de mim. Talvez tenham se lembrado, mas de memórias ruins e decidido me largar aqui para ser vendido. No entanto e, entretanto, talvez meu aclamado destino tivesse, de certa forma, sido uma jornada deveras interessante, pois nunca tinham tentado me vender antes! Receio que se não fosse pelos maus tratos eu lhes diria que preferiria ter ficado, já que fiz tantos bons amiguinhos aqui! Sim! Entretanto e, no entanto, vale lembrar que faço bons amigos em qualquer lugar, pois sou um gnomo muito agradável de se conversar. Sempre pronto a escutar sabe?
A criaturinha foi interrompida pelo velho que simplesmente a jogou para o lado da cela. Os outros companheiros estranharam a atitude vinda de alguém tão debilmente inofensivo, mas logo entenderam seu motivo. O arcano se ajoelhou em frente a uma das crianças e a segurou nos braços com todo o carinho. O garoto estava doente e o cavaleiro rapidamente o pegou nos braços.
- Essa é a criança que devemos salvar primeiro! – disse Sir Hector. – As outras que puderem andar venham comigo!
- Cha! – exclamou a elfa Orvalho da Aurora. – Essa deve ser a doença que tanto falaram da hospedaria! Deixe-me ajudar o pobre menino!
A kagonesti então tocou no enfermo que estava aos braços do nobre solâmnico e fez uma prece a sua Deusa Chislev. Entretanto ela assustou quando percebeu que nada acontecia, mesmo com o poder da natureza fluindo de seu caloroso toque.
- Kith’pah goray! – disse a druidisa. – Que os espíritos nos protejam, pois eu não consigo sanar o mal que aflige essa criança!
- Exatamente como ouvimos na taverna! – falou o Thorvalen. – Nem as clérigas curam essa doença! É como as antigas pragas anãs! Reorx guie essa alma a sua forja ardente!
- Muito próximo a isso mestre anão! – respondeu o heraldo. – Já tivemos uma praga assim antes, que não há forma alguma de sanar seus efeitos. Não há nada a fazer...
- Não? Meu caro Valdor! – respondeu Fizban, o velho mago. – Mesmo agora ainda há esperança!



Ela arqueou as costas para trás até o limite de sua espinha em um prazer febril e de pleno êxtase. Jogou-se sedutoramente dengosa sobre o corpanzil de seu amante que perguntava a si mesmo se sua vida poderia ser melhor do que era naquele exato momento. O homem acariciava o corpo cálido dela deslizando seus dedos na pele macia e de brilho bronzeado, que o fazia lembrar-se de sua terra. Entretanto ele estava bem longe de sua cidadela e ficou contente por essa virada em sua vida.
Sim, Marhaus Launwaine tinha saído de uma malfadada batalha como comandante de uma singela brigada solâmnica para cair nas graças da maior marechal dos Exércitos Dracônicos. Ela mesma tinha o tornado um dos seus Senhores dos Dragões e agora ele tinha uma jovem, mas mortal, Dragoa Azul sob seu comando. Sua Relgoth não podia lhe dar algo assim, nem se ele fosse respeitado como deveria. Viveu tanto tempo na sombra de seu irmão e agora estava em uma posição que Sir Hector nunca alcançaria.
- Em que está pensando? – disse Kitiara. – Ainda pensa em seu pai?
- Não! – Marhaus respondeu acariciando os curtos cabelos da mulher e percebeu apenas agora o quanto gostava de agradá-la. – Penso ainda em minha terra, mas agora é uma lembrança distante. No entanto, receio que logo receberemos notícias deles, pois eles virão à procura de seu filho desgarrado.
Havia um pesar profundo nas palavras do forte homem de armas e a Dama Azul percebeu isso nitidamente. Ela acariciou o peito daquele homem lhe dando seu sedutor sorriso torto que sabia: o solâmnico adorava.
- Não se desgaste com isso Marhaus, meu querido! Que venham os exércitos auriverdes, pois você repelirá a todos e protegerá a cidade que eu lhe concedi com tanto mérito!
Mérito! Isso era verdade? Pensou ele. Qual foi a honra naquilo, se ele ganhou a cidade por trair sua terra, seus ideais e sua família. Não, aquilo era uma vergonha e ele fazia parte daquilo, mas esses pensamentos logo saíram de sua cabeça sob as delicadas mãos de Kitiara que cofiava o bigode de Marhaus.
- Acho melhor fazer a barba – disse ela sendo acariciada intimamente por seu amante. – Hum, estamos fogosos hoje...



O Salão dos Escudos no Palácio de Vivianne estava mais uma vez lotado pelos Cavaleiros de Solamnia, preocupados com suas deliberações. Tinham que levar luz à escuridão que tomou conta da Cidadela dos Leões de Bronze trazendo novamente a esperança ao seu povo. Aquela perversa doença tinha que ser vencida, mas nenhum dos cavaleiros parecia ter a menor idéia de como sanar algo que nem as hospitalárias de Mishakal sabiam curar. Eram tempos ruins aqueles que assolavam Relgoth, pragas que se tornavam arauto de guerras.
- Não apenas essa praga que temos de resolver – pronunciou o Barão Baldwin. – Temos de abrir as cortinas sombrias que cobrem o destino que o Batalhão de Marhaus teve em tão distantes terras.
- Concordo Milorde! – disse Sir Hector. – Entretanto as questões de nossa gente ainda permeiam minha mente, ao menos. Eu tive uma criança com aquela maldição em minhas mãos e sei dos horrores da praga. Nossa amada cidade irá sucumbir se não fizermos nada! Aqui será uma cidadela fantasma...
- Pela minha espada! – exclamou Sir Raymond. – Como faremos isso se nem com a ajuda dos Deuses podemos contar!
- Isso não é um fato! – afirmou Sir Caleddin. – Vemos o plano geral dos eventos ou sabemos os desejos dos Deuses com isso?
- Sabemos bem! – respondeu Sir Dervel. – Fomos amaldiçoados pelo vento negro, isso sim! A Torre de Morgion está na Cidadela de Bronze!
Os cavaleiros ficaram apreensivos com as palavras agourentas de Guardiãorreal e um tumulto se iniciou em todo o salão. Foi quando o único de fé inabalável, o líder dos cavaleiros da espada Sir Borns, esclareceu:
- A esperança ainda não nos abandonou! Existe, como deveriam saber, um lugar místico ao leste das Cordilheiras de Vingaard chamado Fontes da Cura muito próximo ao Monte Cendar. Sabemos desse local sagrado, pois foi de onde vieram as águas da antiga Senhora do Lago! Uma vez foram trazidas essas bênçãos e podem ser buscadas novamente.
- Não passam de lendas do Palácio de Nimue que está em ruínas. – contrapôs Dervel. – Aquele local amaldiçoado há muito sucumbiu pela ganância das minas de bronze. O lugar agora não passa de sombra e pó.
- Entretanto as fontes podem existir ainda – argumentou Caleddin. – Poderíamos mandar alguém para averiguar isso, milorde!
- Sim! – afirmou o Barão de Relgoth. – Mas com tão poucos homens, quem poderíamos mandar?
- Eu vou! – respondeu Sir Hector. – E não levarei mais nenhum dos nobres cavaleiros comigo, esta é uma missão para um pequeno grupo!
- Que assim seja! – voltou a falar o velho Launwaine. – No entanto, temo pelo povo, pois será um longo caminho contornar as montanhas de Vingaard.
- Não irei contornar! – esclareceu seu filho. – Tomarei a antiga via para a Casa de Inverno! Irei por dentro das montanhas do antigo Palácio de Nimue.
- Então irá pela Cidadela Fantasma! – exclamou o pai. – Filho, aquela é a perdição de Dinadan! As minas não passam de ruínas malditas...
- Sim! – afirmou Sir Borns Brochvael. – Entretanto Sir Hector, filho da Cidadela de Bronze, não irá sozinho! Pedirei à minha amada esposa lhe indicar uma sacerdotisa pessoalmente para acompanhá-lo naquela senda lúgubre.



O Palácio de Khalaran Shirak era, diziam alguns, um refugio mágico do maior mago de todos os tempos. Segundo a lenda Magius teria deixado ali um de seus grimórios de viagem e talvez, neste livro arcano, teria a mais poderosa magia já criada por um humano, a Luz Verdadeira de Magius, ou na língua dos magos, Magius Khalaran Shirak.
Entretanto os atuais habitantes do ancestral palácio, centro da cidade que hoje chamamos de Olmeiro, não têm a mínima idéia de onde estaria aquele tão procurado Grimório de Magius. Outro livro; não mais antigo, mas bem mais perverso, estava ocupando a mente daqueles que lá se encontravam.
A soberana da cidade Lady Herra fazia as honras aos visitantes naquela tarde chuvosa da última semana do mês juventerde. Ali estavam o Arquimago de Mantos Negros chamado Velthorm e sua discípula Selanthara. Juntos esperavam a chegada do Senhor dos Dragões Marhaus Launwaine. Entretanto a chegada de seu comandante não demoraria muito...
- Ah, finalmente temos o ar da sua graça, meu senhor! – disse com tom de chiste o Mago Negro. – Parece que finalmente Kitiara uth Matar o deixou se levantar de tua cama!
- Mais um comentário desses, Velthorm, e quem não levantará mais é você! – respondeu nervosamente o solâmnico. – Não é para brincadeiras que estamos aqui, não?
- Não meu senhor, me desculpe!
- Então... O livro já está contigo?
- Sim! Pude finalmente decifrar o livro que Harkiel me entregou e agora posso não apenas indicar onde está a Última Torre como saber que perigos podemos encontrar e como despertar o Antigo!
Isso era uma boa notícia sem dúvida. Marhaus sabia do desejo da Dama Azul em trazer de volta sua amada Rainha das Trevas, mas não sabia como atender esse desejo. Assim ele traria outra criatura para ajudá-la na sua guerra! Não sabia exatamente a extensão dos poderes do Antigo, mas se os sagrados heróis do Rei-sacerdote não puderam destruí-lo, então suas habilidades deveriam ser no mínimo extraordinárias.
- A Lorde Suprema dos Exércitos Dracônicos já partiu, mas me deu uma permissão para entrar em Noturna – falou Marhaus. – Teremos que tomar cuidado extra nesse lugar, pois um mal terrivelmente medonho habita aquelas terras.
- Será a Noite do Olho no último dia deste mês – revelou o arquimago. – Devemos chegar lá nesta data!
- Então temos três dias!
- Sim, Selanthara! Ficará novamente com o controle total de Olmeiro e não falhe comigo! Confio essa cidade à discípula de Velthorm!
- Confiança que não será em vão, meu senhor! – respondeu ela com uma mesura. – Comando as tribos goblins unidas e não o decepcionarei!
Assim o Senhor dos Dragões Marhaus e o Arquimago de Mantos Negros Velthorm partiram para sua maligna missão voando nas costas da Dragoa Azul Tempestade do Deserto levando consigo inocentes crianças. Mal sabiam eles o perigo e o desespero que seria despertar aquele que deveria ser esquecido.



Os sete heróis subiram as escadarias que levam à antiga cidade alta, ou como chamam agora Cidadela Fantasma. Fora os anéis murados de Relgoth, ali ficava o Palácio de Nimue e como tal representava o poder dos soberanos da família Launwaine antes do Palácio de Vivianne. O lugar tinha sido construído em frente às grandes minas de bronze que hoje não passavam de ruínas. Estavam todos com pesadas mochilas, pois sabiam que a viagem seria longa...
Sir Hector Launwaine, o Cavaleiro da Coroa, era burgomestre e filho do Barão da Cidadela dos Leões de Bronze. Um alto e forte homem de armas membro da ordem solâmnica há muito pouco tempo, mas o que lhe faltava em experiência ele tinha em vontade. Tinha apenas sua espada como forma de ataque e sua armadura e escudo como defesa.
Valdor, o heraldo vinha ao lado de Sir Hector e, de fato, era seu mais antigo e fiel escudeiro. Um camponês que teve a sorte de ter a amizade da família governante da Cidadela, um expoente a bardo treinado na maior escola de menestréis de Ansalon; o Colégio de Bardos Ergothiano. Discípulo do Deus Branchala, a canção da vida e tão habilidoso com seu alaúde como é com seu fino, mas ágil sabre.
Fizban, o Fabuloso vinha logo atrás com seus passos vacilantes e sua aparência descompromissada. Entretanto até mesmo seus companheiros já tinham percebido que por trás daquelas roupas de mendigo se escondia um poderoso mago que devia ter lutado em alguma guerra no passado. Tinha uma longa barba branca e um ridículo chapéu pontiagudo que sempre caía e nunca ficava direito em sua cabeça.
Diana, a Reverenda de Paladine, ajudava o pobre velho a subir aquelas longas escadarias com sua preciosa compaixão. Tinha sido indicada pela Bispa Ladwys a pedido de Sir Borns. Trajada com uma leve armadura de metal coberta pela batina branca com detalhes em dourado de sua ordem a sacerdotisa ainda portava uma maça-estrela e funda como armas. Era uma mulher formosa de pele negra e cabelos cacheados. Os olhos castanhos claros lhe davam um ancestral incomum que desconhecia por ser órfã, mas em nenhum momento lamentava isso.
Thorvalen, o proscrito, vinha logo atrás sempre carregando a Lâmina Glacial, seu machado, com seu braço direito e seu escudo de aço presos ao seu braço esquerdo. Vestia uma armadura de couro batido e ainda trazia uma pesada besta como arma. Um forte e experiente anão das colinas que tinha uma longa e grisalha barba, mas sempre muito bem cuidada. Sua pele escura como madeira lhe dava uma aparência ainda mais ameaçadora.
Orvalho da Aurora, a elfa kagonesti, estava sempre ao lado do amigo mercenário e percebia agora que tinha criado uma forte ligação a aquele rabugento e taciturno anão. Era pequena e tinha a aparência frágil, mas para olhos bem treinados a druidisa tinha a postura firme e os braços fortes como os de um excepcional arqueiro. Tinha longos cabelos lisos e castanhos que escondiam, em uma franja, seus lindos olhos cor de mel.
Dális, o gnomo, vinha por último, mas não menos animado que os outros com sua missão. Tinha menos de um metro de altura, o que o fazia praticamente sumir entre os sete companheiros. Entretanto suas roupas extravagantes e sua personalidade sempre alegre o faziam se destacar entre os heróis. Tinha apenas sua sagacidade e uma adaga como armas. O punhal era muito bem trabalhado e cravejado de jóias e entalhes dignos do ofício de um ferreiro anão.
Chegaram ao final da escadaria e puderam ver toda a cidade alta. Estava o Palácio à sua direita enfrente ao lago que ficava bem no centro do antigo jardim, que agora não passava de um lôbrego bosque com árvores secas e plantas mortas. Na esquerda ficavam a Cordilheira de Vingaard e as ruínas das minas de bronze, onde estava o destino dos sete companheiros.
- Esse é o antigo palácio construído pelo próprio Sir Heward Launwaine – disse Valdor. – Uma homenagem à sua esposa, a Senhora do Lago!
- Sim! – concordou o cavaleiro com feições sombrias. – O corpo de Nimue está enterrado dentro do lago. Esse lugar sempre foi um mausoléu!
- No entanto, houve gloria no passado, não? – perguntou Fizban. – Havia um tempo em que o lago era abençoado com a luz da vida!
- Sim! – respondeu Diana. – As águas curativas das fontes que iremos buscar também existiam neste lago e suas águas também sanavam os males da pestilência do vento negro. Mas como o bronze sempre foi o símbolo do Deus Morgion, essa terra também foi amaldiçoada.
- A Ruína de Dinadan! – esclareceu Sir Hector. – A praga e fome assolaram aquele tempo e em desespero o meu ancestral explorou as minas de tal forma que seus homens morriam da forma mais miserável. Assim este lugar foi chamado de Masmorras de Vingaard, pois Dinadan não permitia mais que os mineiros voltassem sem o precioso bronze. Por fim, o Lorde da Cidadela ainda quis cobrar pelas curas do lago, com medo de secar a água abençoada, e esse foi o fim do palácio que fora invadido pelos mineiros amaldiçoados e camponeses revoltados. Assim diz a lenda!
- Que horrível! – exclamou Orvalho da Aurora. – Você me diz que apenas o corpo da Senhora está no lago, mas eu consigo ver dois túmulos!
- Tens bons olhos! – elogiou Valdor. – O túmulo de Sir Dinadan também está ali! Foi enterrado pelos cavaleiros antes de abandonarem a Cidade Alta.
- Cha! – disse a elfa. – Eu vi muitos túmulos nas cidades dos homens e percebi que vocês cultuam a morte de seus entes queridos, mas este é o primeiro túmulo de um cavaleiro que eu vejo!
- Sim! – respondeu Sir Hector. – É um costume solâmnico não enterrar os cavaleiros, pois eles devem ser levados à Cúpula da Criação pelas chamas ardentes da honra. Entretanto não foi permitido isso a Dinadan e ele foi enterrado com sua espada, a mesma arma de seus ancestrais, pela vergonha que causou aos Cavaleiros de Solamnia.
Enquanto conversavam os companheiros caminhavam pelo pátio em ruínas e se dirigiam à entrada das minas. Todo o lugar era medonho e o próprio ar parecia mais pesado naquele amaldiçoado local. A própria entrada tinha duas fileiras de restos mortais de pessoas que foram empaladas e agora estavam ali, como que um aviso a quem quer que fosse para não entrar...
- Há algo escrito aqui, mas não reconheço as runas! – disse Thorvalen. – Parece um idioma dos dragões, mas não sei ler isto!
- Sim, mestre anão! – afirmou Sir Hector. – No entanto, não é um idioma dracônico realmente, mas o antigo idioma de Ergoth. Era muito usado antigamente e tem origem no dialeto dos dragões como bem percebeste! Aqui diz que estas são as Masmorras de Vingaard, pois todo aquele que entrar ficará preso por toda a eternidade!
- Um aviso dos mortos! – disse Valdor. – Esse lugar está amaldiçoado e talvez não devêssemos entrar!
- Eu não temo os mortos! – inspirou Diana. – Fiquem junto a mim e posso protegê-los dos flagelos de Chemosh!
- E seria uma proteção de grande valor sem dúvida! – exaltou Fizban que já estava às portas da entrada das minas. – Entretanto receio que nossos caminhos nem sempre serão juntos à sua confortante presença, minha filha! Mas me permita levar a luz onde as trevas dominaram por séculos! Shirak!
Assim a ponta do cajado do mago começou a emanar uma intensa luz pelo poder se suas palavras e gestos precisos. Logo todos podiam enxergar por dentro do túnel que levaria ao interior das montanhas. O velho foi o primeiro a entrar, mas um sentimento ruim atingiu os heróis quando um vento gélido e fétido veio de dentro das minas. Era como se a própria vontade do lugar lutasse contra eles, mas foi a coragem de Diana e Sir Hector em acompanhar Fizban que levaram os outros a seguir em frente, rumo ao que poderia ser a salvação de Relgoth. A busca pela cura de uma praga obscura que afetava seu povo.
- São cinco dias de caminhada! – disse Fizban. – E esperemos não acordar os mortos dessas fúnebres minas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Capítulo VII - Cerimônia de Investidura

Semanas já haviam se passado desde a partida do comandante Marhaus. O filho mais novo do Barão recebeu como prometido uma brigada, que era formada por cerca de cinco mil soldados solâmnicos treinados para pôr a salvo a pequena cidade de Olmeiro. Os relgothianos já os chamavam de Brigada de Resgate, mas na verdade tratava-se da terceira brigada de Relgoth.
A cidadela de bronze tinha o corpo de seu exército formado apenas por uma divisão, pois não tinha número de milicianos suficientes para compor uma armada inteira. Assim, um terço de toda sua guarda da cidade foi enviada para confrontar os goblins reunidos na Floresta Enegrecida.
Ainda não se tinha notícia do quão frutífera tinha sido aquela campanha, mas todos já sabiam, pelo tempo estimado, que a hoste de Marhaus já deve ter chegado a aquela cidade. Não se esperava que fosse uma tarefa árdua, por isso os homens foram direto, sem paradas nas cidades pelo caminho. Todos tinham plena certeza que tudo iria correr bem.
Durante esse tempo a Cerimônia de Investidura de Sir Hector Launwaine foi meticulosamente preparada. Não era uma solenidade complexa, mas os rituais deviam ser seguidos à risca de acordo com o que estava escrito na Medida. Era a mais antiga tradição de Solamnia; inspirada no Comitatus, uma instituição dos povos que viviam nessas terras antes do próprio Vinnas Solamnus e que deu origem às relações de suserania e vassalagem dos cavaleiros.
- Senhores dos Cavalos, - iniciou Sir Baldwin – devemos agora, pela graça do santo Triunvirato, a Cerimônia de Investidura.
O Salão dos Escudos estava preparado e a Assembléia de Cavalaria estava totalmente reunida para a ocasião. Nenhum dos cavaleiros das quinze famílias que compunham o Circulo Interno de Relgoth tinham faltado.
- Sir Hector Launwaine, - disse o Barão – aproxime-se diante de meu trono! Mostre tua lealdade para comigo!
- Est Perunde oth Sudarus! – exclamou Sir Hector – Minha lealdade é meu valor!
Foram trazidos, pelos outros nobres; uma nova espada, uma armadura de batalha completa, um escudo e as esporas; que foram colocadas próximo ao filho do Barão que estava à frente do trono ajoelhado.
- Que seja do conhecimento de todos os senhores que eu, Sir Baldwin, estou pronto para recebe-lo como reconhecimento de seu valor!
- Est Sudarus oth Mikkas! – exclamou Sir Hector – Meu valor é minha verdade!
O jovem Launwaine se levantou e começou a vestir todo o seu equipamento com a ajuda dos outros cavaleiros. Quando ele terminou ficou ajoelhado novamente aos pés de seu pai, que se levantou.
- O senhor jura receber a mim, O Barão de Relgoth, como seu suserano em total e sincera verdade?
- Est Mikkas oth Reghnen! – exclamou Sir Hector – Minha verdade é minha palavra!
Ainda prostrado, o Cavaleiro da Coroa segurou sua espada, ainda embainhada, erguendo-a de forma a entrega-la ao Barão. O velho Launwaine caminhou solenemente até seu filho.
- Promete, como escrito na Medida, ser honesto em servir e nunca agir de forma dissimulada?
- Est Reghnen oth Sularus! – exclamou Sir Hector – Minha palavra é minha honra!
O Soberano da Cidadela segurou firme o cabo da espada de seu novo vassalo e a desembainhou com uma mensura. Levou a lâmina para seu ombro esquerdo e depois o direito e voltou a falar:
- Compromete-se a atender o seu chamado quando requisitado e defenderá seu senhor mesmo que isso lhe custe a vida?
- Est Sularus oth Mithas! – exclamou Sir Hector – Minha honra é minha vida!
- E eu, de minha parte, prometo defender e honrar teu juramento consagrando seus votos! Levante-se cavaleiro!

Todos no Salão dos Escudos, incluindo Sir Hector, se levantaram e bateram em seus escudos em congratulações. Os cavaleiros se cumprimentavam e repetiam as frases dos votos da cavalaria solâmnica.

“Est Perunde oth Sudarus!
Est Sudarus oth Mikkas!
Est Mikkas oth Reghnen!
Est Reghnen oth Sularus!
Est Sularus oth Mithas!”

Era como em um cântico que ecoava por todo o Salão, mas não era o único coro uníssono que podia ser ouvido em Relgoth naquele dia. Aquela não era a Cerimônia de Investidura que tornou Sir Hector um cavaleiro, mas era a que o tornava vassalo do Barão, vassalo de seu pai.



Embora as celas de Relgoth fossem limpas, uma cadeia era uma cadeia e como todas as prisões aquela também era desconfortável. As paredes úmidas tornavam os dias gélidos e doentes, o chão duro fazia doer o corpo e a comida era obviamente a pior da cidadela. Assim, mesmo passando apenas alguns dias, ficar preso ali era uma experiência deplorável.
- Abra os olhos, elfa! – disse Thorvalen – Um preso sempre é perigoso, mesmo que seja um mendigo velho!
- Cha! – exclamou Orvalho da Aurora – Ele pode estar doente! Que tipo de lugar é esse onde se prendem velhinhos?
- Bah! Só digo uma palavra... Humanos!
Ambos, o Neidar e a Kagonesti, estavam presos há alguns dias pela briga na taberna, mas estavam mais preocupados com um mendigo velho que apareceu preso durante a noite passada. Ele parecia um idoso tão frágil e inocente que até o anão teve piedade dele. Será que estava bem?
- Hum! – O velho sussurrou ainda dormindo – Sei que minha irmã é bonitinha, mas me dá um trabalho! Acho que toda caçula é assim...
- Velho acorde! – a druidisa falou – Está sonhando!
- Hã? Eu? Que? Onde?
O velho acordou assustado e caiu de sua cama de palha se estatelando no chão fazendo um escândalo enorme. Os dois companheiros o ajudaram a se levantar e notaram que seu odor não era tão ruim assim como parecia. Na verdade o cheiro do mendigo os lembrou da infância, quando ainda eram apenas crianças inocentes.
- Ah puxa! – o homem disse se espreguiçando – Acho que dormi muito dessa vez! Obrigado por me ter trazido pra casa de vocês, embora seja...
- Senhor – iniciou o proscrito – Não estamos em casa, estamos em uma cadeia!
- O quê? Isso é um absurdo!
- Achamos que o senhor nos diria o porquê foi preso.
- Nunca fui tão insultado na minha vida e olha que ela é longa!
Indignado, o idoso foi até as grades e gritou para os guardas, bateu nas barras de ferro e esperneou o máximo que pode, mas ninguém apareceu.
- Vou por essa cadeiazinha miserável no chão!
- Calma! – a elfa selvagem tentou tranqüiliza-lo – Logo eles nos soltam! – ela o puxou para se sentar – Qual é seu nome?
- Meu nome? Eu... Não lembro!
- Como assim, não lembra?
- Sei lá! Acho que é Fazban, ou talvez Fezban... Sei que tem algo de fabuloso nele!
- O velho é louco! – disse o mercenário na língua dos elfos para que apenas a Orvalho entendesse – Está com a doença do dobrador!
- Eu entendi isso seu anão obtuso!
- Bah, eu... Fala élfico?
- Falo sua linguagem gutural também!
- Balela! Ninguém fala meu idioma se não for da minha raça!
- Kai throntar gon-raxanum!
Foi então que Thorvalen levou um susto tão grande que seu rosto ficou inteiramente branco como se seu sangue estivesse fugido rapidamente. Ele olhou para o velho sem entender como ele podia saber sua secreta língua e aquilo foi tão irreal que sua mente se recusou a acreditar. Assim a experimentado guerreiro amoleceu suas pernas e desmaiou.



A primeiro pensamento que veio em sua mente foi: “Como o mármore é frio!”. Claro que nada se comparava a sua majestosa beleza, mas andar descalça sobre o chão de pedra calcária engenhosamente trabalhada sempre gelava os pés. No entanto, ela nada podia fazer, pois era assim que mandava o ritual de iniciação dos clérigos de Paladine.
Diana era uma moça alta e formosa, na casa dos vinte anos. Seus cabelos eram cacheados e caídos até o meio das costas. Tinha grandes olhos eram castanhos claros que contrastavam com sua pele negra como a madeira da Senhora-dos-Prados. Ela possuía lábios carnudos que lhe dava uma aparência de seriedade.
Aquela mulher era o que os membros da Ordem das Estrelas chamavam de Suplicante. Uma jovem sacerdotisa do Cavaleiro Valente que ainda não tinha sido consagrada pelos clérigos dos Deuses da Luz, mas já possuía dons sagrados que podiam realizar pequenos milagres.
A Ordem estava sendo restaurada desde o final da Guerra da Lança, pois antes disso, acreditava-se que os Deuses tinham abandonado o mundo depois do Cataclismo. Agora cada vez mais fiéis surgiam e um grande número de clérigos eram investidos nas novas igrejas dos verdadeiros Deuses.
Muitos templos foram construídos nos últimos anos e a Catedral do Pai de Platina era um deles. Feita quase que totalmente de mármore, a igreja ficava na diocese de Relgoth no distrito norte da cidadela e teve a presença do próprio Sumo Pontífice Elistan em sua inauguração, uma cerimônia chamada de Icolo.
Agora Diana, entre outras aspirantes, andavam pela nave do santuário e, vestidas apenas com um roupão, se dirigiam ao exuberante jardim que ficava no interior da catedral. Chamado de Bosque do Cervo Branco o local era na verdade um termas arborizado com uma grande piscina em seu centro.
O ritual de iniciação, chamado de Fascledon, era uma cerimônia de investidura que marcava a passagem do grau de Suplicante para se sagrar verdadeiramente um clérigo. Os sacerdotes do Cavaleiro Valente chamavam essa nova posição da hierarquia canônica de Reverendo Filho de Paladine.
Assim a jovem solenemente retirou suas vestes e entrou na água se dirigindo a sua superiora chamada Ladwys. Uma Bispa da nobre família dos Guardacaminho, que fundou a Catedral da Lâmina Celeste e esposa do Cavaleiro da Espada Sir Borns Brochvael. Assim, Lady Ladwys era uma mulher que já tinha enfrentado mais de sessenta invernos, com os cabelos já brancos que lhe davam uma postura majestosa.
A Bispa estendeu as mãos para Diana e a olhou com uma ternura que apenas uma mãe teria. A jovem não era sua filha, mas fora abandonada ainda pequena nas ruas de Relgoth e quase viraria uma bandoleira se não fosse pelo encontro que as duas tiveram há doze anos atrás. Ambas como sacerdotisas não consideravam aquilo uma coincidência, mas claro uma evidente prova de que os Deuses verdadeiros nunca as tinham abandonado.
A órfã tinha sido criada praticamente sozinha até então e por isso possuía uma personalidade auto-suficiente que encantou Lady Ladwys. Sob seus cuidados Diana se tornou uma linda jovem calma, prudente e solidária. Tinha a sabedoria que o cargo de Reverenda exigia e isso a enchia de orgulho.
A noviça foi mergulhada na água pela Bispa que fazia uma oração abençoando sua filha adotiva. Diana também pediu, em uma prece silenciosa, que Cavaleiro Valente a guiasse para enfrentar os perigos que o sacerdócio poderia trazer, mas principalmente que tivesse a sabedoria para ser uma serva útil para levar sua luz a escuridão do mundo.
A recém investida Reverenda Filha de Paladine saiu na água e se enxugou na toalha trazida pelas diaconisas, que também trouxeram suas novas vestes. Era uma batina branca com detalhes em dourado e seria sua roupa até o fim de sua vida. No entanto, o mais importante era o Medalhão da Fé. Feito de platina, esse colar possuía o triangulo; símbolo sagrado de seu Deus e necessário para invocar os milagres que futuramente realizaria.



Thorvalen abriu os olhos e demorou a recobrar a consciência. Pode ouvir os murmúrios de Orvalho da Aurora rezando por ele e sua visão foi se focando lentamente. Lembrou que ainda estava preso e lembrou do Velho que o estava encarando e então resolveu falar:
- Não sei como aprendeu minha língua seu louco, mas...
- Se me chamar de louco de novo eu faço sua barba cair! – disse o mendigo – Seu proscrito!
- Cha! Que os espíritos nos protejam! – exclamou a elfa selvagem – Calma para vocês dois ou eu que vou fazer a barba horrível de ambos!
O idoso e o neidar olharam para ela refletindo no absurdo que era a sua afirmação. Todos os anões se orgulhavam de sua barba e de fato nunca as cortavam, pois assim eles se sentiriam eunucos. No entanto, aquilo nada significaria para um velho mendigo humano, então os dois se olharam e riram da druidisa fazendo-a rir também.
- Bom, - falou o homem - irei tirar nós três daqui!
- Como? – falou o mercenário – Só se fosse um mago!
- Ah, bem lembrado meu amigo! Tenho uma magia maravilhosa para esses momentos! Sempre a uso para sair de prisões!
- Mas, - observou a mulher élfica – você disse que nunca foi preso...
- Deixe me ver! Como era mesmo? Ah, sim! Lembrei!
Então o mendigo se levantou e gesticulou enfaticamente com os braços e começou a falar algo no antigo idioma dos magos.
- Ast Kiranann...
Repentinamente ouviram um barulho de estalo tão alto que atrapalhou a magia do velho. Então sons de pequenas peças de metal batendo uma nas outras ressoaram pela cadeia e por um momento só podiam ouvir passos se aproximando rapidamente.
Então puderam ver os carcereiros abrindo a cela e saindo para que três homens entrassem. Os companheiros reconheceram rapidamente Leodegan e Sir Hector, mas não conheciam o outro cavaleiro, embora perceberam sua semelhança com o taverneiro.
O agora investido vassalo do Barão de Relgoth prontamente se ajoelhou aos amigos e com uma mensura disse:
- Sinto por terem ficado tanto tempo presos! Com tanta coisa acontecendo foi difícil para Leodegan e seu filho Sir Caleddin me contatarem, mas isso não é desculpa. Eu humildemente peço perdão!
Orvalho da Aurora e Thorvalen estavam ressentidos com o amigo solâmnico, pois sabiam que era filho do soberano da cidadela e podia ter tirado os dois rapidamente. Entretanto as palavras do Cavaleiro da Coroa tocaram seus corações e não podiam fazer nada diferente de perdoa-lo.
- Astanti, tharkas! – a elfa selvagem falou afagando o companheiro – Estamos bem, eu digo!
- Bah, garoto! – exclamou o anão da colina – Não se preocupe com essa besteira, está aqui agora não?
- Sim, agora estou! – respondeu Sir Hector apontando para o outro cavaleiro – Este é Sir Caleddin uth Leodegan, Cavaleiro da Rosa e meu tio por parte de mãe.
- Tsarthai, deghnyah! – cumprimentou o nobre – É sempre um prazer conhecer os amigos de meu sobrinho!
Todos no lugar fizeram uma mensura e o Velho foi tão exagerado que chamou a atenção dos cavaleiros. O mendigo sorriu contente e saindo da cela todo apressado desviando dos guardas e gesticulando freneticamente como um louco ele começou a dizer:
- Bom, antes tarde do que nunca! Vamos logo que temos muito a fazer.
- Pode liberta-lo também? – a kagonesti perguntou – Ele é apenas um velho mendigo!
- Qual é o seu nome meu senhor?
- Fizban, o Fabuloso!
- Bah, agora lembrou é? – perguntou o mercenário – Tem certeza desse nome, pode ser Fuzban!
- Não diga absurdos! Claro que lembro meu nome! Vamos logo que temos que salvar o Dális!
- O quê?
Todos ficaram pasmos! Ninguém tinha visto mais o gnomo desde a confusão na taverna Dragão de Bronze, mas como aquele louco conhecia Dális e mais ainda, salvá-lo de quê?



O comandante Marhaus estava prostrado de joelhos nos Campos de Galen, próximos a Floresta Enegrecida, nas portas da cidade de Olmeiro. Sua perna esquerda doía vertiginosamente pelo golpe que recebera do capitão hobgoblin que prontamente o capturou. Tinha feito um talho que sangrava inexoravelmente tingindo sua bota surrada de vermelho e não permitindo que se levantasse.
O capitão Crod Rachacrânios, o goblinóide, estava contente, pois tinha trazido o comandante solâmnico para o acampamento colocando-o aos pés de sua líder a Alta Maga Negra Selanthara. O hobgoblin tinha uma inteligência rara para sua raça e isso sempre lhe dava cada vez mais premiações e destaque no exército. Ele esperava ser redimido do fiasco que foi mandar o bugbear Thurk atrás do Grimório de Magius.
Marhaus pouco se importava com o capitão em sua entranha armadura, ele estava consternado pela derrota deplorável que acabara de sofrer. Pensou em como seu pai, o Barão de Relgoth, receberia a notícia e viu seu desejo de ser investido cavaleiro esvair-se. Teria vencido, se não fosse o Dragão.
Estava com a batalha ganha, mas foi então que surgiu um Dragão Azul virando a maré contra os soldados relgothianos. A criatura simplesmente planou por cima das fileiras da Brigada de Resgate e foi como se o próprio céu tivesse caído sobre suas cabeças. A maior parte do exercito debandou apavorada de medo e os poucos bravos que resistiram foram massacrados pela hoste maligna. Tudo estava perdido, sua única oportunidade de cair nas graças de seu pai tinha falhado. Não que Marhaus gostasse da oportunidade que Sir Hector lhe tinha dado. O comandante solâmnico via aquilo como um ato de misericórdia, e ele não precisava da pena de seu irmão. Queria alcançar a cavalaria pelas próprias mãos, mas agora não haveria para ele uma cerimônia de investidura.
Selanthara viu a desolação estampada na face de seu oponente derrotado e um sentimento de lástima inundou seu coração. A Irda lutou contra aquela emoção, mas ordenou que cuidassem de seus ferimentos.
Marhaus a observou atentamente e ficou admirado ao ver como a arcana negra era linda, mesmo naquela situação a beleza sobrenatural dela saltava-lhe os olhos. Uma alta mulher ruiva de pele branca como a neve em contraste ao negro profundo de seus mantos. Os olhos verde-esmeralda da Alta Maga fitaram os dele com curiosidade, mas foram rapidamente desviados pela chegada do Senhor dos Dragões.
Era uma imponente figura que vestia uma armadura azul, da forma que parecesse com escamas de dragão, com detalhes em dourado. Tinha uma capa de um tom ciano escuro como as nuvens de uma tempestade. Possuía como armas apenas uma espada curta do lado direito e uma adaga do lado esquerdo de seu cinturão. Retirando sua hedionda máscara falou:
- Sou o Alto Lorde dos Dragões Kitiara uth Matar, também chamada de Dama Azul e comandante suprema dos Exércitos Dracônicos da Rainha das Trevas.
Kitiara olhou para Marhaus com um sorriso torto e sedutor imaginando se ele tinha ficado impressionado pelo fato dela ser uma mulher. Ela passou a mão displicentemente pelos seus cabelos negros e rentes sacudindo-os sem desarrumar a bandana vermelha que protegia seus olhos do suor.
O comandante solâmnico já tinha percebido que o Alto Lorde dos Dragões não era um homem, pois a graciosidade de seu andar e sua bela armadura cintilante ajustada de forma que enfatizasse as curvas de suas longas pernas, já a tinha entregado. Sua beleza sensual e sua postura imperiosa eclipsavam até mesmo a lindíssima Selanthara.
- Como pode ver meu caro, - a Dama Azul voltou a dizer – os mais altos postos do nosso exército são alcançados por mérito, sem serem barrados por tradições antiquadas ou títulos de nobreza. Aqui sabemos que tudo o que importa realmente é o poder!
- O que quer de mim? – perguntou o filho do Barão de Relgoth – Por que ainda estou vivo?
- Ora, tanto você comandante quanto os seus soldados serão presos e muito bem tratados, como manda as leis da ética de guerra.
Ela fez uma pausa e caminhou em volta de seu ilustre prisioneiro. Queria estuda-lo da mesma forma que queria ser admirada por ele. Era uma antiga tática sua para converter os inimigos a sua causa. Kitiara colocou retirou suas luvas pretas e colocou as mãos no rosto desolado de Marhaus e o encarou com seus lindos olhos castanhos envoltos em longos cílios negros e continuou:
- Mas não precisa ser assim. Eu reconheço seu valor em combate e tenha certeza que há lugar tanto para o senhor como para seus soldados. Tenho certeza que alcançará um alto posto na hierarquia da armada!
- Acha realmente que pode me quebrar tão facilmente? – ralhou o solâmnico – Não desistirei de minha honra!
- Claro que não! No entanto, seria idiotice e não honra lutar contra a rainha das Trevas, como pode ver, nada nos derrotará agora!
Foi quanto todo o campo ficou escuro como se a noite tivesse caído implacavelmente sobre eles. Marhaus tinha imaginado que era o Dragão Azul voltando em seu vôo mortal, mas estava totalmente enganado. Então toda a esperança o abandonou quando ele viu a Cidadela Voadora.