Ascensão do Inimigo

A Guerra da Lança tinha chegado ao seu fim, grandes cavaleiros se sacrificaram para manter a paz, mas o exército maligno não tinha sido derrotado totalmente. Em sua poderosa fortaleza a Dama Azul ainda planejava um último ataque de sua Armada Dracônica aos Reinos de Solamnia. No entanto, um mal muito mais antigo foi despertado sem o conhecimento de nenhum dos lados. Um inimigo incrivelmente poderoso que usa sutilmente sua influência sombria para alcançar seus objetivos. Cabe a um grupo de bravos heróis confrontar esse perigo avassalador que a todos domina. O Sussurro das Trevas é um épico de fantasia dividido em três partes que narrará uma saga no mundo de Dragonlance.

Poema dos Seis Heróis

“A palavra será a redenção dos pecadores
Apenas o mais misericordioso a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O escudo será a proteção dos desamparados
Apenas o mais honrado o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A espada será a justiça dos oprimidos
Apenas o mais temerário a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O cajado será a lei dos desesperados
Apenas o mais prudente o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A flecha será o equilíbrio dos soberbos
Apenas o mais sábio a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O machado será a vingança dos esquecidos
Apenas o mais audacioso o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”

domingo, 5 de setembro de 2010

Capítulo VI - Os Amores de Anne

Era uma tarde do mês de Larebrum no Jardim da Despedida quando flores estavam fechadas ainda, guardando seu perfume delicioso para as noites de verão. Elaine estava em um dos maravilhosos piqueniques que costumava fazer naqueles jardins apenas com a sua família, sem a presença de outros nobres, sem a presença dos cavaleiros. Ela olhava feliz para as Jasmins-da-noite e perguntou a si mesma se Vivianne tinha sentido toda essa alegria assim como a que vivia naquele momento.
Estava grávida novamente e sentia que nada podia estragar sua felicidade agora. Já tinha dado dois filhos ao marido e queria uma filha agora, para ser sua companhia quando os homens fossem a guerra. Sabia que haveria guerra, mesmo que as rebeliões contra os cavaleiros nunca tenham atingido Relgoth, sabia que a paz duraria pouco; a paz sempre durava pouco, mas não se importava, pois estava eufórica.
Elaine tinha feito um bom casamento, era a Senhora da Cidadela e seu pai estava orgulhoso, pois era a filha mais velha e seu irmão era muito pequeno, assim um bom casamento era tudo o que se desejava nesses casos. O nome não se perpetuaria por ela, mas a renda da família estava garantida e Elaine, mais uma vez, estava grávida.
Então a senhora imaginou novamente se Vivianne tinha ficado assim quando esperava por seu filho. Olhou em volta e imaginou como deveria ser grandioso o amor de Sir Pellimore Launwaine, para que ele construísse o Palácio de Vivianne que, sua senhora, retribuiu criando o maravilhoso Jardim da Despedida. Claro que o jardim recebeu esse nome apenas quando Sir Pellimore foi para os campos de Dergoth, onde foi deflagrada a Guerra dos Portões dos Anões e não mais voltou para a sua Vivianne, não mais voltou para o seu amor materializado nesse Palácio.
Entretanto ela esperou seu cavaleiro voltar, plantando Jasmins-da-noite, naqueles jardins toda noite e ele nunca voltou, assim logo morreu de tristeza deixando seu herdeiro, Sir Cadwallon, aos cuidados do regente de Relgoth que decidiu fazer do Palácio de Vivianne a nova sede do governo, depois da queda das minas e da cidade alta. Foi depois desses eventos que todos os relgothianos também chamavam aquelas flores de Senhora-da-noite, cujas cores púrpuras se tornaram à cor de luto da cidade, como já eram dos elfos.
Elaine gostava dos contos de Vivianne, pois ambas tinham o apelido de Anne, que em élfico significava orvalho. No caso da esposa de Sir Pellimore isso não era um acaso, já que ela era uma realmente uma elfa, uma druidisa do povo dos Qualinesti que tinha se apaixonado por um humano. Seu povo não aceitava aquela união, então Vivianne largou tudo, até sua pátria, para viver seu amor, para viver com seu cavaleiro. Nada poderia ser mais trágico, pensou Elaine, esperava não ter um fim assim.
- Está tudo bem, Anne? – perguntou seu marido. – Parece meio distante...
- Estava pensando em meu filho. Onde será que ele está?
- Deve estar brincando com aquele amiguinho camponês dele!
- Não fale assim, meu amor! Marhaus meu querido, ache Heitor, sim?
O garoto que acompanhava o casal saiu à procura do filho da senhora e entrou nas partes mais escuras dos jardins. Não foi muito difícil de achá-los, pois sabia bem onde gostavam de brincar. No entanto, ficou muito assustado com o que viu.
Heitor estava usando seu amigo de cavalinho, estava montado encima dele e com golpes de vareta ele montava em suas costas. Seria uma brincadeira inocente se Heitor não fosse um nobre e o pobre amigo um servo. Assim o pequeno Marhaus ficou indignado e gritou:
- Não faça isso com o pobre coitado! Não vê que o está humilhando?
- Por quê? Ele disse que não tinha problema?
- Claro seu idiota, – o garoto respondeu tirando Heitor de cima do camponês. – do contrário, seu pai dará uma surra nele! Como a surra que vou te dar agora!
Os dois garotos se atracaram como dois pequenos leões, rolaram pelos jardins se esmurrando e dando pontapés. Eles não ouviram quando o pequeno campônio saiu correndo e chorando, assim como não ouviram quando seus pais chegaram, mas ouviram quando a ordem foi proferida:
- Parem! – disse Sir Baldwin. – Pelos antigos Deuses, vocês dois são irmãos!
- Pai – respondeu Marhaus. – ele estava judiando do pobre do Valdor, usava o coitado de cavalo, eu...
- Não perguntei, quero que suba para seus aposentos para refletir o que fez e só quero vê-lo novamente quando eu o chamar!
- Estou muito decepcionada, Marhaus! – disse Elaine. – Não deve deixar a violência tomar conta de você!
- Sim, sua mãe está certa! – voltou a dizer o pai. – Um Cavaleiro de Solamnia deverá sempre agir com serenidade, uma espada só sairá de sua bainha para se defender, nunca para ameaçar, como está escrito na Medida!
O garoto saiu soluçando pelo choro contido, pois sentia que os pais amavam mais seu irmão mais velho do que a ele. Era pequeno demais para entender o por que estava errado em sua atitude, apenas via que era castigado enquanto seu irmão, mesmo estando errado, não. Pensou que não havia justiça naquilo, mas um dia provaria seu valor.
Entretanto isso não era verdade, o Barão apenas não castigava seu filho na frente do mais novo, pois não queria que Marhaus desrespeitasse o irmão.
- Heitor! – disse Sir Baldwin. – Logo vai abandonar esse nome de criança que sua mãe te chama e vai se tornar Hector, um homem, um cavaleiro! Não poderá tratar os outros dessa maneira.
- Não entendo...
- Escute-me e escute bem! Não pode fazer das pessoas o que quer, tem que entender que seu amigo é um camponês e é claro que vai fazer tudo que pedir, mas tem que respeitá-lo! É a família dele que nos alimenta e é nosso dever protegê-los e não usá-los como cavalo, não usá-los para nossos caprichos, entendeu?
- Acho que sim pai, desculpe!
- Um Cavaleiro de Solamnia deverá, tendo prometido proteger um inocente, nunca lhe aplicar maus tratos, guardando-o de todo perigo ou afronta.



Leodegan limpava o balcão diligentemente como sempre fazia entre um pedido e outro. O Dragão de Bronze era a maior estalagem em Relgoth e uma das maiores de toda Solamnia. Estava dividida em uma Taberna com palco no primeiro andar, onde também ficavam a cozinha e o estábulo do lado de fora; o empório no segundo andar que também tinha o quarto do dono e camarotes para o teatro; e finalmente, o terceiro andar com vários quartos para hóspedes e viajantes.
Era comum dizer que a Estalagem Dragão de Bronze tinha tudo para os aventureiros que estavam de passagem e isso, claramente, não estava longe da verdade. Todos os funcionários se esforçavam ao máximo para manter o lugar sempre cheio de suprimentos e tinha um ótimo atendimento. O lugar era limpo e tinha poucas brigas, pois poucos queriam encrenca em um lugar que tinha um antigo Cavaleiro de Solamnia como dono. Logo, a hospedaria estava sempre lotada.
Entretanto, mesmo assim, Leodegan percebeu a entrada de um estranho trio em sua taberna. Eram um anão da colina, uma elfa selvagem e um pequenino gnomo, que rapidamente foram atendidos por uma de suas atendentes que os levou a uma mesa ao fundo e perto de uma enorme janela. Aquele era um dos melhores lugares e sempre estava reservado a clientes especiais fazendo o taberneiro pensar o porquê sua jovem funcionaria os colocou ali, mas ela logo veio até o balcão e explicou:
- Patrão, aqueles ali querem lhe falar!
- Os colocou em uma mesa reservada. Bertha. Quero saber o porquê.
- Disseram que eram amigos do filho do Barão, Sir Hector!
- Acreditou neles?
- Ora, não sei! Não me parecem mentirosos.
- Está certo! Vou ver o que querem.
O dono da hospedaria pegou uma caneca para limpar e com um sorriso foi até os estranhos aventureiros. Ele era um homem de estatura média, mas muito forte. Logo se percebia que já foi um homem de armas e, contudo, seu ar nobre podia indicar que tenha sido um cavaleiro, embora não tivesse bigode. Tinha a pele negra, mas seus olhos eram verdes indicando ancestrais brancos, talvez solâmnicos, e mantinha os cabelos brancos bem curtos.
- Meu nome é Leodegan – disse aos companheiros. – Sou o dono do Dragão de Bronze.
- Sou Thorvalen e esses são Orvalho da Aurora e o pequeno chama-se Dális.
- Prazer, em que posso ser útil?
- Sir Hector disse que não nos cobraria a estadia. Somos conhecidos dele!
- Muitos dizem que são...
- Está dizendo que estou mentindo?
O taberneiro se viu em uma situação delicada, pois conhecia bem a fama dos anões se irritarem com uma dúvida sobre sua palavra. Eram piores que os cavaleiros, já que uma vez bravos, tornava-se quase impossível acalmá-los. Por outro lado, também não sabia se estavam dizendo a verdade. Era fato que o jovem cavaleiro era dado a amigos incomuns, mas ele estava longe da cidadela, ou pelo menos pensava assim.
- Não ouso duvidar de suas palavras, mestre anão! – disse finalmente Leodegan. – No entanto, entenda que Sir Hector está longe daqui!
- Está errado! – afirmou o proscrito. – Ele chegou conosco e foi para o Palácio de Vivianne.
- Ajuda se dissermos que a mãe dele o chamava de Heitor? – perguntou a kagonesti. – Acho que apenas os amigos saberiam disso, não?
- Sim, Anne o chamava assim – respondeu o taberneiro com um ar sombrio. – Agora acredito em vocês e peço sinceras desculpas se os ofendi de alguma forma.
- Certo! – exclamou o neidar. – Está acostumado a lidar com humanos!
Leodegan não deu atenção para o insulto, na verdade estava acostumado a lidar com várias raças e podia dar conta da situação tranqüilamente. Como a atendente que os acomodou estava ocupada, ele mandou outra funcionária para atendê-los. Agnes era mais experiente com outros povos e se sentiu tranqüilo com a mudança. Logo se esqueceu dos três e pensou sobre a volta de Sir Hector e somente naquele momento percebeu o quanto estava com saudade.
Orvalho da Aurora acompanhou com os olhos o taberneiro e percebeu o quanto ele tinha ficado consternado com toda aquela conversa. Lembrou-se da conversa com o Cavaleiro de Solamnia no Bosque da Caça. O filho do Barão tinha dito que apenas a família de sua mãe a chamava de Anne. Assim concluiu que o dono da Estalagem Dragão de Bronze só poderia ser parente de Elaine, a antiga Senhora da Cidadela. Seus pensamentos foram interrompidos pela aproximação da atendente.
- O que vão querer? – perguntou Agnes. – O pato assado está ótimo!
- Tem carne de porco? – perguntou Thorvalen .– Bem salgada?
- Claro! Para os três?
- Pode trazer pra mim também! – respondeu Dális. – Estou louco por uma cerveja também. Prefiro a preta, mas se não tiver pode ser a dos anões, mas se não tiver também eu...
- Temos cerveja preta!
- Gostaria de Quith-pa se tiver! –disse a kagonesti. – Hidromel para beber.
- Frutas secas? Claro!
A funcionária da taverna se retirou com os pedidos e foi atender outra mesa. Sem qualquer explicação o pequeno gnomo saiu correndo pelo lugar ignorando os protestos do mercenário, que olhou para a druidisa. Ela respondeu com um modesto sorriso e olhou estranhamente para o lado mexendo suas orelhas.
- O que foi elfa? – perguntou o neidar proscrito, – Algum problema?
- Aqueles homens ali estão falando de uma doença que matou suas esposas.
- Bah! O que tem demais?
- Não é a primeira vez que escuto isso nessa cidade!
- Hum, é uma praga, e?
- Estão dizendo que nem os clérigos de Mishakal conseguem sanar a doença!
- Pelas barbas de Reorx!
- Já houve nessas terras algo assim, foi há uns trinta anos. A Praga da Medusa!
- Acha que está acontecendo novamente?
- Não sei, mas meu povo sempre diz que um grande mal sempre tem como arauto uma praga assim. Algo muito ruim está prestes a acontecer!



O Salão dos Escudos tinha esse nome porque era o único lugar em um castelo onde ficavam as cotas de armas que representavam cada família de cavaleiros que protegiam a cidadela. Eram escudos grandes de aço, postos lado a lado e no centro um escudo de corpo representando o lorde do castelo. Assim, no Palácio de Vivianne não era diferente.
Estavam mais de dez escudos; entre eles quatro famílias de Ergoth, Donner, Guardiãorreal, uth Galadoun e uth Kaer-dun; duas de Sancrist, Altocastelo e Markenin; cinco tradicionais de Solamnia, Brochvael, di Hamilton, Tarinius, Olhodáguia e uth Helmar; e três refugiadas, Delancis, di Kardigan e Guardacaminho. Claro, sem mencionar o escudo central dos Launwaine que comandavam a cidadela desde 1772PC.
No entanto, todos os escudos foram retirados de seus lugares e foram colocados dois da família dos Launwaine para o Duelo da Honra. Os combatentes eram dois irmãos, Sir Hector e Marhaus. Então apenas suas cotas de armas estavam nas paredes do Salão dos Escudos, era assim que deveria ser, como escrito na Medida. Estavam apenas com espadas de madeira de forma que a contenda não matasse nenhum deles.
O heraldo Valdor estava explicando as poucas regras aos dois duelistas e seu nervosismo era aparente. Temia por seu amigo, mas sabia que ele tinha que estar ali e deveria obedecer a seu pai, como estava escrito na Medida. Então um dos desafiantes, Marhaus, perguntou:
- Como pode ainda ser amigo dele?
- Deixe o em paz! – exclamou o irmão mais velho. – Sua briga é comigo.
- Eu posso falar! – disse Valdor. – Seu irmão já cometeu erros no passado como todos nós, meu senhor! No entanto, aquela pessoa não existe mais, Heitor se tornou Hector!
- Acredita mesmo nisso?
- Sim!
Somente os Cavaleiros de Solamnia ficaram no Salão, pois apenas os nobres podiam assistir a um Duelo de Honra, assim estava escrito na Medida e eles formaram um círculo para dar espaço aos combatentes. Sir Baldwin, o Barão, ordenou que se iniciasse a contenda.
Os dois irmãos ficaram parados por um momento, um em frente do outro, apenas estudando seu oponente. Marhaus empunhava a espada acima da cabeça com as duas mãos, uma guarda alta, uma postura agressiva de ataque. Sir Hector segurava a espada relaxada para baixo e a mantinha atrás de seu corpo, com o ombro esquerdo à frente, uma guarda natural, uma postura de tranqüilidade.
Foi o irmão mais novo que iniciou o ataque girando sua arma em um semicírculo pela direita tentando acertar seu adversário na perna que, este, simplesmente esquivou e golpeou de baixo para cima e quase acertou o agressor na altura da cabeça.
O irmão mais velho voltou à postura natural, mas segurava sua espada com as duas mãos dessa vez. Marhaus, depois de recuperado do susto, investiu com um pequeno salto e um ataque de estocada deixando sua arma totalmente na horizontal, o golpe da honra, pois além de parecer com um golpe de justa, para desferi-lo precisava-se negligenciar qualquer defesa.
Sir Hector conhecia bem o golpe e, desviando para o lado, deixou que seu oponente passasse. Ele poderia facilmente golpeá-lo, mas preferiu não fazer.
Ambos ficaram em guarda mediana, com as espadas encostando uma na outra, à frente deles. O jovem girou rapidamente o corpo fazendo o irmão mais velho sair da guarda e o golpeou lateralmente atingindo de forma impiedosa o tronco de seu oponente.
O cavaleiro caiu de joelhos e precisou rolar evasivamente para não ser acertado por mais um golpe de Marhaus. Foi quando notou que sua costela tinha se partido e já sentia gosto de sangue na boca. Sua visão estava embaçada e sua cabeça latejava. Já estava na hora de terminar com aquilo.
Mesmo assim, Sir Hector se levantou e com uma mão sobre o baço e a outra ainda apontando ao seu adversário. Não se entregaria, pois tinha a Medida em mente. Sendo um Cavaleiro de Solamnia deveria ter total bravura para com o inimigo, mesmo em fuga ele nunca demonstraria descontrole ou medo.
Julgando que seu oponente estava derrotado, o jovem irmão se lançou com fúria em um ataque lateral e sem técnica, apenas força. O irmão mais velho retribuiu o golpe desta vez atacando, sem se preocupar com a defesa.
Então todos no Salão dos Escudos ouviram o som de algo se partindo...



Dális, o gnomo, voltava para a mesa dos companheiros com uma enorme caneca de cerveja e mal notava qualquer um na taverna. Seus olhos estavam vidrados naquela espuma escura, pois fazia tempo que não degustava aquela bebida.
Repentinamente ouve um choque que o derrubou. O pequenino teve dificuldade de entender o que houve. Gritos de protesto foram ouvidos antes que pudesse levantar seu rosto e olhar para o imenso hobgoblin que estava na sua frente com a calça molhada de cerveja preta.
Logo foi agarrado e erguido pelas pernas ficando de cabeça para baixo. Ele começou a espernear e gritar com sua voz estridente. Queria chamar pelo amigo Thorvalen, pedindo sua ajuda. Não percebeu que o monstro tinha parado, mas notou quando foi largado no ar e se estatelando quando caiu ruidosamente no chão.
Meio tonto Dális se levantou para ver o goblin gigante caído com a Lâmina Glacial cravada em suas costas. Viu aturdido o anão proscrito se aproximar e retirar seu machado resmungando:
- Bah! Tinha que arrumar confusão não é sua matraca?
- O que eu fiz?
Haviam outros hobgoblins na Estalagem Dragão de Bronze que rapidamente se levantaram e se dirigiram para os companheiros. O confronto era inevitável e o neidar ficou chateado por ter que lutar em uma taverna tão bonita, mas sabia que não tinha como convencer os goblinóides de que aquilo era apenas um mal-entendido, que o ingênuo gnomo não tinha intenção de derrubar a cerveja em um deles. Esperava que não destruíssem tudo.



Sir Hector estava sentado no chão, sua costela doía muito e sua cabeça latejava de dor. Olhou para sua espada quebrada, mais uma vez quebrada, e seguiu com os olhos até seu irmão, vendo que ele já estava se recuperando.
O Duelo da Honra tinha terminado dando a vitória ao irmão mais velho, mas o cavaleiro não comemorou. Agora o destino de Marhaus estava em suas mãos, já que tinha vencido a contenda e, como escrito na Medida, deveria expulsar o desafiante derrotado por ter duvidado da honra de seu pai.
O ostracismo era o que todos os cavaleiros esperavam que fosse declarado ao filho mais novo de Barão, Sir Hector sabia disso, mas aquele era seu irmão e ele não queria abandoná-lo dessa forma. Mesmo sabendo que foi Marhaus que buscara aquilo, o cavaleiro o amava e tinha que resolver a situação de forma que não quebrasse o código e nem ferisse os sentimentos do irmão.
- O Duelo da Honra acabou e a glória está com meu filho! – pronunciou Sir Baldwin que claramente rejeitava o filho mais novo. – Agora o destino do derrotado está nas mãos do vencedor, mas isso será decidido depois, pois todos estamos cansados.
- Não! – disse Sir Hector levantando-se. – Meus compromissos e deveres não serão adiados. Já tenho minha resposta.
- Que assim seja, meu filho!
- Estou ciente que a cidade de Olmeiro está com problemas, pois goblins de várias tribos cercaram o local.
Todos os cavaleiros ficaram aturdidos com a notícia, mas nenhum deles compreendeu o porquê dessa revelação agora. Então o filho mais velho do Barão continuou:
- Uma brigada será entregue a meu irmão e ele irá liderá-la e por aquela cidade a salvo protegendo seu povo.
Sir Baldwin olhou para o filho com orgulho, pois agora tinha entendido suas intenções. Marhaus sairia de Relgoth como manda a Medida, mas estava dando a oportunidade dele se destacar salvando uma cidade e assim, iria não só com dignidade, mas se salvasse Olmeiro ele seria reconhecido novamente e poderia pedir o treinamento para se tornar um Cavaleiro de Solamnia. Os anos tinham trazido sabedoria a Sir Hector e seu pai se orgulhava disso.
- Que assim seja! – afirmou o Barão.



Leodegan não demorou muito para arrumar toda aquela bagunça. Os hobgoblins não deram muito trabalho para o anão e sua amiga elfa, mas mesmo assim várias cadeiras foram quebradas e os clientes derrubaram as mesas quando fugiram e precisou que o taverneiro e suas três atendentes arrumassem tudo para abrir a estalagem novamente.
- Agnes, onde estão os forasteiros? – perguntou o dono da hospedaria. – Onde estão Thorvalen e a Orvalho da Aurora?
- Foram presos! – respondeu. – A guarda os levou!
- Não! – Leodegan pensou e voltou a falar. – Emma, traga Theodore para cuidar do balcão. Bertha, eu quero que entregue uma mensagem para mim.
- Vai sair? – perguntou Bertha. – Para onde vai?
- Vou tirá-los da cadeia!
- Por quê?
- Porque eles são amigos do meu neto!
Foi dizendo isso que Leodegan uth Galadoun, pai de Elaine e sogro do Barão, saiu apressado de seu estabelecimento, a Estalagem Dragão de Bronze, para libertar os companheiros de Sir Hector, o amado de sua Anne.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Capítulo V - Os Leões de Bronze

Sir Hector Launwaine caiu de joelhos no chão. Sua mente estava atormentada com o que Handar lhe mostrou em Vingaard. Ele viu o que nenhum outro homem jamais viu em toda a história de Krynn, mas o Forte estava longe agora, junto com a Ventania e seu mestre.
O Cavaleiro da Coroa tentou contemporizar o porquê do arquimago ter lhe mostrado aquilo, mas nada o consolava e agora imaginou se não tinha finalmente perdido toda a sua sanidade.
Todos os grandes Cavaleiros de Solamnia passaram por provações. Vinnas Solamnus chorou por seus oponentes mortos; Huma Destruidor de Dragões quase desistiu de sua missão por amor; Sturm Montante Luzente foi aceito na ordem em meio a dúvidas sobre seu caráter.
Entretanto, os três viram o Cervo Branco, os três viram o arauto dos Deuses do Bem. Souberam naquele momento que estavam sendo convocados pelo sagrado Triunvirato. Estaria ele, como os lendários heróis, sendo guiado também para uma missão divina?
Não! Não eram sinais dos Deuses, não podiam ser. Estava tendo delírios com toda certeza. Sir Hector não era religioso como Vinnas, não era honrado como Huma, não era um herói como Sturm. Era apenas um homem comum como qualquer outro, não haveria canções sobre ele.
Tudo aquilo era demais para o nobre solâmnico e quando achou que finalmente iria desmaiar, o cavaleiro escutou sons de batalha ao longe e viu a fumaça de caravanas sendo queimadas. Era um ataque de goblins.
- Posso não ser uma lenda, – disse a si mesmo, juntando forças. – mas ainda há bravura em mim! Eu ainda me lembro dos meus votos.
O homem se levantou e todos os seus temores o abandonaram. Havia apenas a vida dos inocentes em sua mente. Como um cavaleiro ele deveria proteger a vida acima de tudo, como estava escrito na Medida.
Sem pensar duas vezes Launwaine entrou no conflito...



Orvalho da Aurora estava quase perdendo a consciência quando caiu. A esperança a tinha abandonado e se encolheu tremendo para receber o golpe de misericórdia que nunca veio. Fechou os olhos devido à tontura e quando os abriu, viu que estava nos braços de um homem de aço.
Era um Cavaleiro da Coroa, que estava abraçando-a gentilmente com o mesmo braço que segurava um escudo, de forma que podia defendê-la também. Portava uma espada longa em sua outra mão que estava apontada em direção do bugbear e, este, estava com um corte no braço devido ao golpe do homem que acabara de salvá-la.
Furioso, Thurk pegou sua maça que estava caída no chão e avançou com toda a força que tinha sobre os dois. O cavaleiro teve o reflexo, devido a anos de treinamento, de se proteger com o escudo, mas como protegia a elfa, ele tentou aparar o golpe com o seu braço livre. Conseguiu, mas seu membro foi esmigalhado pela força monstruosa da criatura, mesmo que protegido pela armadura completa.
O honrado solâmnico caiu de dor, mas protegeu a kagonesti a colocando embaixo de seu próprio corpo. Lembrou-se novamente da Medida. Lembrou que deveria proteger a vida acima de tudo, fosse a sua, a de seus companheiros ou a de inocentes.
- Vou mantê-lo ocupado! – disse. – Terá tempo para fugir e se proteger!
- Qual é o seu nome?
- Hector!
- Não esquecerei seu sacrifício, nobre cavaleiro!
O homem sorriu. A Medida mais uma vez veio à sua mente. Um Cavaleiro de Solamnia deverá sacrificar sua vida por um bom ideal ou por pessoas de bem, mas sua vida é muito importante para ser perdida sem razão.
Seria honrado morrer para protegê-la, mas Launwaine não entregaria sua vida sem luta. Empertigou o corpo e segurou firme seu escudo. Ele seria sua proteção e sua única arma, pois não podia usar mais seu braço direito. Não havia medo nele e o goblinóide vacilou por um momento, mas ainda sim atacou...



Thorvalen tinha ouvido gritos de Dális, que pedia socorro pela elfa selvagem. Então retirou uma adaga de lâmina larga escondida em sua bota e fincou no pescoço do worg, que uivou de dor, mas silenciou quando o neidar abriu sua garganta.
Levantou e arremessou o punhal no goblin que montava o animal e, recuperando Lâmina Glacial, se pôs a correr atrás da kagonesti, abrindo um caminho pelos duendes a machadadas! Um a um, o proscrito derrubava com apenas um golpe cada monstrinho que impedia seu avanço. Satisfeito com o impacto que as mortes dos porta-estandartes tinha causado nos inimigos, iniciou uma antiga canção de batalha dos anões da colina:

“Um goblin agora vai, outro já vai já!
Assim sorrindo, me ponho a cantar!
Um goblin agora vai, outro já vai já!
Assim sorrindo, me ponho a talhar!
Um goblin agora vai, outro já vai já!
Assim sorrindo, me ponho a matar!”

O mercenário e a cantoria pararam apenas quando ele viu o cavaleiro lutando armado com apenas seu escudo contra o imenso bugbear, era uma situação desesperadora. Não pensou duas vezes e saltou contra o monstr, cravando sua arma nas costas da criatura. Thurk tentou reagir, mas o guerreiro se segurou e acertou mais um golpe, abrindo um buraco entre o pescoço e o ombro direito, abatendo seu oponente.
Então, vendo que sua protegida não mais corria riscos, Sir Hector desabou, atordoado com o próprio ferimento.
Orvalho da Aurora viu o sofrimento do homem e se prostrou a rezar pedindo que Chislev, a Deusa da Natureza, intercedesse por seu salvador. Uma luz verde clara emanou das mãos da jovem restaurando os ossos quebrados do Cavaleiro de Solamnia, que teve sua força renovada.
Os dois guerreiros olharam admirados para ela, que se encolheu envergonhada. Sabiam agora que se tratava de uma sacerdotisa da natureza.
Assim o nobre solâmnico se curvou, agradecendo pela ajuda, e disse:
- Está bem, minha dama?
- Estou sim, obrigada! Quem é o senhor?
- Sou Sir Hector Launwaine, primeiro filho de três; Cavaleiro da Ordem da Coroa e vassalo de meu pai Sir Baldwin Launwaine, o Barão de Relgoth. Sou muito grato pela ajuda dos dois!
- Nós somos gratos! Meu nome é Orvalho da Aurora e sou uma druidisa do círculo da Floresta Enegrecida. Serva do Senhor da Floresta.
- E eu sou Thorvalen, vamos logo que isso não é um encontro social! Agora onde está aquela matraca falante?
O anão da colina procurou pelo gnomo e viu que os poucos goblins que tinham sobrevivido estavam fugindo, mas muitos dos mercadores morreram. Imaginou que teria problema com seu pagamento.
Foi quando todos viram uma das carroças ser arremessada. Quando todos viram o enorme ogro atacando. Aquelas criaturinhas covardes não estavam fugindo, apenas estavam se escondendo para que esse monstro fizesse o trabalho para eles. Aquilo iria destruir toda a caravana.
Os três se prontificaram corajosamente a enfrentar o gigante. O anão com seu machado em mãos, a elfa colocando uma flecha em seu arco e o cavaleiro erguendo seu escudo.
- Terá que usar sua espada! – disse o neidar. – Aquilo não é um duende!
- O Bugbear acabou quebrando minha espada! – respondeu o homem. – Aquele oponente é perigoso demais para nós. Temos que agir em equipe!
- Fale por você! Minha raça está acostumada e enfrentar essa besta, mas concordo que temos que agir juntos. Ponha-se na frente dele e deixe o resto comigo.
- Também quero ajudar! – reclamou a kagonesti. – Vou ficar de longe e atirar.
- Bah, elfos!
Sir Hector sorriu. Conhecia as diferenças entre o povo das colinas e o povo das matas e sua inimizade natural. No entanto, se sentiu seguro com Thorvalen e Orvalho da Aurora ao seu lado. Por algum motivo achou que eram bons guerreiros, mas não gostava muito de enfrentar um oponente recebendo ajuda. Conformou-se olhando para o Ogro e avaliando que era realmente perigoso demais.
Era um ser monstruoso com quase três metros de altura, de gordura e músculos. Tinha a pele de um amarelado encardido cheio de cicatrizes, verrugas e pêlos escuros. Sua cabeça era grande e débil, com dentes inferiores grandes o suficiente para aparecerem mesmo com a boca fechada. Vestia uma roupa de peles que protegia seu corpo, embora seu próprio couro fosse quase tão duro como o de um crocodilo. Usava uma clava rústica e um escudo feito com os ossos do crânio de algum animal muito grande.
- Afinal essa coisa burra não vai dar muito trabalho, não é mesmo? – disse o mercenário. – Não dá para esperar muito disso!
- Não bom tirar sarro de Baloth! – disse o ogro. – Baloth fica bravo e esmaga homenzinho.
- Baloth vai é morrer pela Lâmina Glacial!
Dito isso, o anão correu por entre as pernas do gigante e acertou uma machadada na coxa do monstro que urrou e golpeou o guerreiro em um movimento circular.
Launwaine se adiantou, empurrando o companheiro, e ficou com escudo aposto recebendo o ataque. A pancada foi mais forte do que ele previu e o cavaleiro foi arremessado longe.
A druidisa atirou uma flecha certeira no ombro da criatura, que a ignorou completamente. Ela disparou mais uma seta, mas esta parou nas espessas peles que o protegiam.
O neidar se recuperou e acertou-o mais uma vez com sua arma, atraindo a ira da besta, que se virou, e com as duas mãos, desceu a clava com toda a força sobre Thorvalen.
O Cavaleiro de Solamnia lançou seu escudo com força suficiente para desviar o braço do ogro e salvar novamente seu parceiro, que aproveitou para correr e ficar nas costas da criatura.
A kagonesti entendeu o plano e atirou uma Flecha Cantante. Era uma seta que os elfos usavam para sinalizar em meio a um combate. Tinha na ponta um pequeno orifício por onde passava o ar quando era disparada, produzindo um som agudo. Ela mirou perto da cabeça de Baloth, que ficou atordoado pelo barulho.
Sir Hector, que também entendeu o plano, procurou por alguma arma no chão e achou somente as cruéis espadas goblin. Pegou uma e correu para, novamente, se bater contra o monstro.
O anão da colina saltou e cravou a Lâmina Glacial nas costas do monstro, que ficou furioso e, largando a clava e o escudo, tentou alcançar seu oponente com as mãos. O mercenário se esquivou e começou a escalar o gigante a machadadas! Golpeava e subia até atingir a altura da cabeça.
Durante os ataques do guerreiro proscrito, a elfa disparava inexoravelmente suas flechas atingindo o peito da besta que estava começando a ficar desesperada.
O nobre solâmnico finalmente chegou em uma poderosa carga:
- Praethor di Sularus! – proferia um velho brado de guerra dos cavaleiros e desferiu um golpe com a espada decepando a perna da criatura, que caiu ruidosamente no chão.
O ogro, que ainda estava vivo, tentou se levantar, mas foi impedido pelos golpes de machado na sua cabeça que Thorvalen desferia.
As flechas continuavam a ser atiradas sem piedade e o honrado membro da Ordem da Coroa não se sentiu à vontade para continuar. Sabia que logo o embate terminaria bem para seus companheiros e ele se viu mais útil indo ajudar os sobreviventes daquele vil ataque.



Demorou todo o resto da tarde para que a caravana se colocasse em movimento novamente. Muitos haviam morrido no ataque e a viagem ficou com um ar lúgubre com o silêncio tomando conta de todos. Esse sentimento mudou rapidamente quando puderam ver as flores argênteas, embora rosadas pela luz avermelhada de Lunitari, das árvores Bordo-do-Norte no Bosque da Caça.
O Bosque era um local onde os nobres de Relgoth se divertiam praticando a caça. Era um costume antigo e quase não era praticado naqueles dias. A floresta abrigava em seu interior uma bifurcação do rio Vingaard que seguia para o norte, mas seu afluente vinha dos rios duplos do campo da cidade.
O Sol já estava em declínio quando chegaram e pelos conselhos do Cavaleiro da Coroa a caravana parou para descansar e continuar no dia seguinte.
- Pelo caminho que estamos tomando – disse o cavaleiro. – chegaremos na cidadela amanhã à tarde!
- Mais rápido que imaginei – comentou Asmar, o líder da caravana. – Teremos mais tempo para nos recuperarmos.
- Meu pai irá ajudá-lo a compensar a perda, com certeza!
O mercador tinha ficado menos abatido, pois sabia da honra dos Cavaleiros de Solamnia e realmente esperava que o Barão, pai de Sir Hector e o governante da cidadela, ajudasse a ele pela palavra do filho. Sim, talvez a situação não tivesse ficado tão desesperadora assim.
Thorvalen estava agora sempre junto com Orvalho da Aurora para ter certeza de sua recuperação. O anão proscrito tinha ficado feliz por Dális ter encontrado no nobre solâmnico outro alvo para sua tagarelice, mas não adiantou muito já que a druidisa estava sempre perto do humano.
Inicialmente o neidar tinha imaginado que a kagonesti, fútil como todos os elfos, tinha ficado apaixonada pelo cavaleiro, mas logo percebeu que seu interesse não era por algo assim tão simples.
Queria perguntar a ela sobre isso, mas como todos de sua raça ele era taciturno e todos sabiam que os elfos selvagens também eram reservados, então ambos ficavam juntos silenciosamente em volta da fogueira...
- Talvez eu tenha algum ancestral da cavalaria, quem sabe? – o gnomo falou cofiando seu bigode. – Moramos na mesma ilha em Sancrist e os homens de lá têm relações duradouras com meu povo!
- Talvez, – respondeu Sir Hector, desistindo de escrever em seu diário. – mas duvido que tenha chegado a tanto!
- Receio que sim, meu nobre! As gnomas são atraentes. Não são magrinhas como as suas fêmeas, apenas perdem para as anãs. Aquelas sim têm o que apertar!
- Balela! – resmungou Thorvalen sem perceber que a elfa ficou ruborizada com aquilo. – Duvido que já tenha deitado os olhos em uma anã na sua vida, sua matraca mentirosa!
- Ora, não seja absurdo! Claro que já vi, pude até espiar suas semelhanças com os machos!
- Como assim? – perguntou a druidisa. – Quais semelhanças?
- Bom, – o pequenino se aproximou dela e sussurrou no seu ouvido. – é que elas também têm barba!
- Barba? – a kagonesti exclamou alto e todos do acampamento puderam ouvir caindo na gargalhada. – Ops!
- Pelas barbas de Reorx! – bradou o mercenário. – Vai retirar isso ou eu vou esmagar sua cabecinha com minhas próprias mãos!
O intrépido Dális se pôs a correr e o anão da colina foi atrás; a visão dos dois pequenos correndo foi, de alguma forma, mais hilária para os mercadores, que rachavam de rir. Alguns chegaram a cair no chão de tanto gargalhar e nem parecia que no dia anterior estavam se defendendo de goblins, worgs e ogros.
Sem que percebessem, o Cavaleiro de Solamnia se levantou e, com um olhar sombrio, afastou-se da roda, entrando no bosque. Orvalho da Aurora o seguiu e parou ao seu lado preocupada com ele, mas o respeitou, não perguntando o que tinha, assim disse puxando assunto:
- O que estava fazendo na estrada? – o homem fez uma expressão tão triste que ela quase se arrependeu de ter feito a pergunta. Respirou e continuou: – Digo, como foi parar aqui?
- Estava voltando de uma longa e cansativa viagem! – respondeu austero o solâmnico. – Estava vindo do norte.
- Mas não cansado o suficiente para deixar de me salvar! – a elfa tentou algo mais afável. – Norte? O que o levou para o sul de sua cidade?
A garota selvagem tinha razão. O caminho do norte para Relgoth não o faria chegar tão ao sul e o membro da Ordem da Coroa se encolheu melancólico com a pergunta. Pensou em responder, mas imaginou que até uma druidisa o acharia louco, então desistiu.
- Orvalho da Aurora? – perguntou o cavaleiro mudando de assunto. – Seu nome em élfico é Aulhanne?
- Aulheanne!
- Minha mãe tinha o nome de Elaine, mas sua família a chamava de Anne.
- Que nome lindo!
- Sim, ela também me chamava por outro nome. Heitor, como é meu nome na terra dela!
- Qual era a terra dela?
Ambos se assustaram com um repentino barulho e se voltaram para observar a mata. Viram um majestoso cervo andando entre os arbustos que parou para olhá-los com curiosidade. Cervos eram comuns em Solamnia e aquele era um nobre Cervo Real, que possuía a maior galhada entre sua espécie. O animal os julgou inofensivos e inclinou tranqüilamente a cabeça para comer.
- Ela se parecia um pouco com você – Sir Hector sorriu. – Ela era bem pequena!
- Ah! Claro!
- Sua família era de Ergoth, então ela era morena, mas tinha olhos verdes como as folhas dentadas dessas árvores.
- É mesmo filho do Barão?
- Sou sim, de uma linhagem que comanda a cidadela há mais de dois milênios!
- Eu não sei o porquê, - a elfa disse vacilante. – mas eu confio em você!
- Pode confiar! Qual é o problema?
- Eu vou dizer.
A kagonesti contou tudo que sabia. Contou que o ataque à caravana não fora apenas um ataque de saqueadores, mas para encontrá-la; que ela e seus companheiros tinham a missão de proteger o Grimório de Magius e que fugia de Olmeiro, uma vila que agora estava sitiada por um exército de diversas tribos goblins unificadas.
O Cavaleiro de Solamnia viu-a estremecer com a própria história, imaginou que a jovem devia estar se condenando pelo que ocorreu com os mercadores. Então, Sir Hector acariciou o rosto dela que, envergonhada, apenas por não estar acostumada com aquele tipo de contato, abaixou a cabeça. Ele levantou seu rosto pelo seu delicado queixo e pôde ver seus olhos amendoados e com feixes rubros provocados pela Lua Vermelha.
- Tudo ficará bem! – disse e a abraçou.



Chegaram a Relgoth no fim da tarde do dia seguinte e todos se admiraram com o extenso campo que rodeava a cidadela. Eram banhados pela bifurcação do rio que formava um fosso natural com a cordilheira de Vingaard atrás.
Passaram, vindos do sul, por uma ponte com vigas de treliça feita de bronze e dava para a Aléia d’Ouro. Era uma linda alameda de Bordo-do-Norte que fora trazido do bosque e, como explicou Sir Hector, a ponte norte dava para a Aléia Campestre, que tinha Senhora-dos-Brados, trazido por Sir Dinadan Launwaine da Floresta Enegrecida antes da Terceira Guerra dos Dragões.
Os olhos dos viajantes ficaram maravilhados pelos deslumbrantes Campos Dourados que formavam toda a área entre rios, fora à própria cidadela. Plantava-se, sobretudo, aveia, que os solâmnicos há muito tempo descobriram ser importante na alimentação de seus nobres cavalos.
Chegaram finalmente às muralhas de Relgoth. Pareciam dois grandes círculos que se ligavam de forma que faziam uma intersecção onde ficava o Palácio de Vivianne; a atual sede do governo. Eram poderosas barreiras com passarelas em sua ameia por onde arqueiros vigiavam através dos merlões enfeitados com flâmulas auriverdes que eram símbolo dessa cidadela.
Podiam ver os intransponíveis portões de bronze entalhados da forma que faziam os lendários artesões do Império de Ergoth, lembrando os companheiros que a cidade era mais antiga que a cavalaria. Estavam abertos e eram guardados apenas por dois leões estatuários, um de cada lado.
Até mesmo Thorvalen parou pasmo com a riqueza de detalhes dos Leões de Bronze. Subiu na base para alisar a estátua e pôde sentir a musculatura felina esculpida que lhe deu a aterradora impressão de que estariam vivos! Ele gargalhou alto e disse:
- Essa obra só pode ter sido feita por mãos anãs!
- E foi! – elucidou o cavaleiro apontando para uma alta construção nas montanhas. – Feita no auge das minas de bronze antes mesmo dessa terra se chamar Solamnia.
- Por que leões? – perguntou Orvalho da Aurora.
- Eram os amimais que viviam aqui bem antes dos homens chegarem e expulsá-los. Viraram o símbolo da cidade e, séculos mais tarde o escudo da minha família, quando o próprio Vinnas Solamnus tornou meu ancestral Heward um cavaleiro.
- Bom, – disse o neidar. – vamos para uma hospedaria descansar. Acho que não nos veremos mais, então tenha um bom dia meu senhor!
- Tenha um bom dia também, mestre anão! – respondeu o solâmnico, concluindo que o mercenário não receberia o pagamento da caravana. – Se for de seu desejo procure uma taverna chamada Dragão de Bronze e diga que eu os mandei, Leodegan não irá cobrar a estadia de vocês!
- Não será preciso!
- Ora, permita-me agradecer a ajuda de tão nobres companheiros!
Um pouco contrariado, o guerreiro proscrito resolveu concordar. O nobre viu os três partirem e sentiu que não seria a última vez que os veria, ou pelo menos, no fundo de seu coração, ele assim esperava.
Estava feliz por voltar à sua terra de origem, mas receava que partiria logo. As informações que a elfa selvagem lhe tinha revelado eram perturbadoras e imaginava que seu pai o mandaria para Olmeiro a fim de saber o que estava acontecendo para as tribos goblins se reunirem, para que caçassem tão implacavelmente aquela caravana.
Sir Hector se dirigiu ao Palácio com a mente cheia dessas dúvidas e preocupações. Quase não percebeu os guardas de indumentária auriverde que o cumprimentavam, por ser um cavaleiro, quando passava. Quase não percebeu o quanto sua cidade mudara e que ninguém o reconhecia.
Entretanto isso mudou quando chegou ao Jardim da Despedida que compunha o pátio do enorme Palácio. Ali estavam outros Cavaleiros de Solamnia que rapidamente o reconheceram e saudaram felizes a sua volta.
Passou pelas lindas Jasmins-da-Noite que eram de cor cândida durante o dia, mas quando se abriam à noite, mostravam suas pétalas púrpuras e exalavam um cheiro forte, que o fez lembrar de sua infância, quando ele e seu irmão ainda podiam brincar vigiados pela sua mãe.
Entrou no Palácio de Vivianne e rapidamente foi levado ao Salão dos Escudos, onde os nobres se reuniam para sua Assembléia de Cavalaria. Seus membros não eram apenas da nobreza, mas faziam parte do chamado Círculo Interno, ou apenas Concílio, formado apenas por cavaleiros. Seria apenas ali onde um lorde estaria, sentado em um trono de madeira, junto aos seus vassalos.
- Bons olhos o vejam! – disse Sir Dervel, o primeiro a vê-lo. – Que seu retorno seja longo!
- Tragam meu filho a mim! – pronunciou o Barão. – Quero ver que homem se tornou!
O jovem Launwaine se ajoelhou, como escrito na Medida, em frente ao pai e entregou seu diário a Sir Raymond, o mais graduado Cavaleiro da Coroa da cidadela. Ele colocou, para espanto de todos, sua bainha vazia à sua frente, entre ele e seu suserano, e se desculpou:
- Perdão Meu Soberano! – disse. – Minha espada foi quebrada!
- Terá muito tempo para explicar isso!
Sir Baldwin Launwaine, o Barão de Relgoth, se levantou com certa dificuldade. Era um homem alto, de olhos azuis e cabelos loiros, mas já tinha mechas brancas devido à idade. Tinha uma longa barba, o que era raro na cavalaria, mas seu bigode era bem cuidado. Estava com a armadura dos Cavaleiros da Rosa bem polida, a qual lhe dava um aspecto de grande guerreiro.
Quebrando todas as formas de decoro e etiqueta, o Barão abraçou o jovem com o carinho que apenas um pai pode dar. Ele olhou admirado para seu filho que já estava com olhos marejados pela saudade e segurando seu rosto o saudou:
- Saudações, cavaleiro!
- Estou muito... – começou Sir Hector, mas foi interrompido.
- Quero que todos vejam que meu filho voltou e finalmente é um Cavaleiro de Solamnia!
Todos aplaudiram e Sir Baldwin continuou:
- Homenageio meu filho como burgo-mestre de minha cidadela em minha ausência!
- Como? – perguntou uma voz atrás dos cavaleiros que ainda não tinha se pronunciado. – Esse não é meu cargo?
- Sim, mas até seu irmão voltar!
- Mas o que sabe meu irmão dos assuntos de Relgoth? – a voz se aproximou e todos puderam vê-lo. – Eu ocupei o cargo durante anos, que direito...
- O direito que tenho como Barão!
- Mas, ele nem trouxe suas armas, como está escrito na Medida!
- Afaste-se! – ordenou o velho Launwaine. – Você não é um cavaleiro ainda, não pode entrar no Salão dos Escudos!
- Claro que posso! Sou seu filho e se não posso por direito de mérito, eu posso por direito de sangue!
O jovem socou uma mesa que estava próxima assustando a todos que estavam no Salão. Os cavaleiros já tinham se adiantado para levá-lo dali, mas pararam quando ele voltou a falar apontando para Sir Hector:
- Que assim seja, meu irmão! Eu digo que não é capaz de administrar a cidadela e por meu direito eu dou minha palavra!
Todos entenderam o que o irmão caçula acabara de fazer. Ele desafiara seu irmão mais velho. Era um Duelo da Honra. Quando um nobre solâmnico coloca sua palavra para afirmar seu ponto de vista ele se torna a verdade. Ninguém tem o direito de contestá-la, a não ser que um outro nobre o faça. Se um nobre levanta dúvidas sobre a palavra de outro, então os dois devem duelar e a verdade estará com quem vencer por combate, como está escrito na Medida.
- Que assim seja, meu irmão! – respondeu rápido Sir Hector. – Eu não levanto dúvidas sobre sua palavra!
- Mas eu sim! – pronunciou o Barão, colocando a mão em seu filho mais velho. – Eu aceito o desafio e convoco meu vassalo para resolver o embate!
- Não, pai! – protestaram os dois filhos.
- Que assim seja! – voltou a dizer o pai.
Quando o nobre que desafia, ou é desafiado, é um lorde, este pode escolher um de seus vassalos para representá-lo em um duelo, como está escrito na Medida. O desafiado escolhe as armas e se esse for representado por outro, será o lutador que escolherá a arma.
- Então – disse tristemente Sir Hector. – eu escolho espadas de madeira!
A escolha de um duelo de espadas de madeiras determina que um nobre não quer matar o outro. No entanto, lutavam sem armaduras e ambos poderiam sair machucados do combate.
As espadas foram trazidas enquanto os irmãos tiravam suas armaduras. Ambos ficaram apenas de calça e botas e se colocaram no meio do Salão, que foi montado de forma improvisada para o duelo, pois não havia tido um desde antes do Cataclismo.
Ficaram um de frente para o outro ouvindo as poucas regras da disputa enquanto os pajens colocavam um escudo da família Launwaine de cada lado, representando os dois irmãos. Eram escudos verdes com um leão amarelado no centro. Um para cada irmão. Os Leões de Bronze.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Capítulo IV - Orvalho da Aurora

O inverno era particularmente severo nas terras dos cavaleiros. A neve caía constantemente no mês de Profundeiro e a corrente gelada que sopra do Mar de Sirrion traz tempestades glaciais implacáveis.
A impressão que se tinha quando se deparava com as Planícies de Solamnia nessa época do ano é que se estava vendo uma tundra.
As estradas e vias ficavam obstruídas, tornando o percurso laborioso para os audaciosos, senão imprudentes, viajantes que desafiavam aquela paisagem gélida. Assim todo o comércio ficava estagnado e nenhum produto saía de uma cidade para outra. Todos tinham que viver do que fora estocado o ano inteiro.
O inverno em Solamnia era inexorável e qualquer erro podia ser fatal.
Mesmo toda aquela desolação mudava bruscamente no primeiro mês da primavera, o Riaverde. Chamado de “Alvorecer da Primavera” pelos elfos e de “Degelo Montanha” pelos bárbaros, esse era o período mais lindo do ano, todas as flores desabrocham acolhendo hospitaleiramente a estação vindoura.
Logo o comércio era reaberto velozmente, “temos que recuperar o tempo perdido”, como diziam os burgueses. Várias caravanas prontamente voltavam a cruzar as rotas que ligavam os mais importantes centros daquelas terras. O contato entre Palanthas, Solanthus, Lemish, Relgoth, Hargoth, Kalaman, Gaarlus, Thelgaard, Caergoth, Granada e o Porto do Chamado estava revigorado e a sobrevivência dessas cidades garantidas.
Viajavam com as caravanas madeira, ervas, alimento, gemas, minério, para o mercado interno, mas vinham de outros reinos também cereais, cerâmicas e couro curtido de Abanassínia; ferro e aço de Ergoth Setentrional; sal, peixes exóticos e navios das Ilhas do Mar de Sangue; diamantes, especiarias e seda de Khur e alimentos de cabra e lã de Ortiva.
Solamnia prosperava dessa forma, mesmo sendo uma terra de cavaleiros, e por isso atado ao sistema feudal. Os mercadores cresciam de uma forma desenfreada, ficando cada vez mais poderosos. A economia era movida pelo forte comércio das estradas, por isso os solâmnicos mantinham suas rotas livres e bem cuidadas, mas muitos perigos podiam se abater aos viajantes.
Percorrer as estradas no início da primavera também era perigoso, pois muitos goblins, saqueadores e, naqueles dias estranhos, até os bárbaros das planícies atacavam os viajantes buscando debelar os males causados pelo recente inverno. Logo não poderia haver apenas comerciantes e burgueses em uma caravana.
Muitos eram os aventureiros que ganhavam a vida ao se juntavam aos mercadores em suas perigosas viagens. Guardiões, guerreiros e combatentes que, por um bom preço, protegiam os mercadores de ataques de saqueadores tornando o negócio um pouco mais seguro, mas nunca totalmente estável. Sempre haveria imprevistos, sempre haveria a necessidade de mercenários.
Assim essa era uma profissão muito lucrativa, pois um homem de armas era sempre bem-vindo em uma caravana e se tinha alguém que entendia bem disso, se tinha alguém que sabia ganhar moedas sendo um protetor de mercadores, esse era Thorvalen, o proscrito.
Expulso do clã neidar, dos anões das colinas, por algum motivo que se recusava a revelar, o anão tinha conquistado fama como mercenário e nunca tinha falhado em uma missão. Mesmo com seu jeito rabugento e teimoso, os viajantes achavam muito bom ter o seu machado por perto ou, como o ele próprio dizia, “machado por prata!”.
Como todos de sua raça ele era baixo, mas menos do que se esperava. Tinha um metro e meio de altura e era bem mais largo que um humano. Seus braços pareciam toras de madeira e sua pele escura comprovava essa impressão. Vestia uma armadura de couro muito resistente que se escondia debaixo de sua longa barba grisalha. Estava com um grande machado de guerra preso às costas e uma besta pesada feita pelo seu povo na cintura, junto a sua aljava cheia de quadrelos com pontas de aço.
Estava agora em uma caravana, saindo de Kyre, indo em direção a Solanthus, para depois Palanthas. Levavam com eles todo tipo de mercadoria em dez carroções, sob o comando das mãos, cheia de dedos nodosos, de Asmar, um mercador de Thelgaard que enriqueceu pelo próprio trabalho.
Além do guerreiro também viajava, na segunda carruagem, um pequeno e intrépido gnomo que, para desalento do neidar, não parava de matraquear desde que se encontraram, como era o costume de todo o povo daquela diminuta raça. Assim o mercenário era o alvo de todo o seu enfadonho falatório.
- ...então eu disse! – falou o pequenino. – Vai ter que pôr mais uma válvula aí meu caro! Não tem como criar uma máquina que faz gelo apenas com quatro e, já que estamos falando nisso, pode pôr umas três roldanas também! Ora, como quer que abram a porta disso? Com as mãos?
Tudo aquilo era tão irritante para o rabugento Thorvalen se imaginava esmagando a cabeça daquela criaturinha e, olhando para suas enormes mãos, pensou que não seria lá muito difícil.
Os gnomos eram pequenos, mesmo para um anão e aquele, em especial, parecia ser o menor e mais frágil deles. Tinha bem menos de um metro de altura e não pesava muito mais de vinte quilos. Sua pele era rosada e os cabelos loiros e crespos. Sempre cofiando um enorme bigode loiro, que lhe dava a impressão de ser um Cavaleiro de Solamnia em miniatura, apesar do enorme e desproporcional nariz que tinha.
O pequenino continuava a falar, sem se importar com o olhar fulminante que o neidar proscrito dirigia a ele.
- Sabe o que ele me falou? Que alguém da Guilda dos Vulcanólogos não entenderia nada disso, acredita? Aquilo me deixou bravo, meu; não sei como eles não explodiram o Monte Deixapralá ainda! Não! Definitivamente, não dava mais para aturar aquilo, então resolvi sair de lá e estudar os vulcões em Solamnia, claro que na época eu não sabia que não tinha vulcões aqui, mas sem problemas, tudo bem! De qualquer forma eles falavam muito sabe? Não sabiam a hora de ficar calados! Eu não! Eu sei muito bem, aliás, muito bem mesmo; quando não sou desejado, não fico por aí tagarelando como um kender, eu sou Dális, o gnomo!
Os outros viajantes, ao ouvirem isso, se permitiram dar generosas gargalhadas. Todos achavam extremamente divertido o fato de que o pequeno tivesse ficado amigo do anão, justo do anão! Thorvalen era quieto como uma porta e quase não falava com ninguém, sempre solitário, sempre taciturno. Dális era seu oposto, o outro lado da moeda. O pequenino, simplesmente, não parava de falar.
Os mercadores já tinham feito apostas, entre eles, de até quando o Proscrito agüentaria aquilo, imaginando se não seria aquele o dia em que finalmente o gnomo teria sua cabecinha esmagada pelas poderosas mãos do anão da colina, ou ao menos, que seu corpo fosse arremessado para bem longe.
A criaturinha realmente estava inspirada naquele dia.
- Ah, isso me lembrou de uma coisa! – Dális olhou para Thorvalen. – Vai gostar, tem elfos nessa história! – alisou o bigode vasto e continuou. – Um dia estava na Floresta Enegrecida, ou seria Mata Escura? Ih, eu sei lá! Bom, estava no bosque e caminhava tranqüilamente com meus botões quando de repente, não mais que de repente...
Repentino foi o pulo que o neidar deu. Ficou de pé, encima da carroça, em um instante. O gnomo se curvou achando que a paciência do novo amigo tinha terminado, que receberia um tabefe ou coisa pior, mas o golpe não veio. Ele olhou para o companheiro em pé e viu que outra coisa era o causador de sua súbita reação, algo no meio da estrada.
Sem o menor aviso, o anão proscrito saltou da diligência, que ainda estava em movimento, e caiu pesadamente, mas de pé, na estrada. Correu para frente, ultrapassando as carruagens, e se colocou no meio da estrada e à frente, com seu machado em punho, assustando a todos que viram seu inconcebível ato.
- Oh, espere por mim! – disse Dális. – Não quero que se meta em encrenca, meu amigo barbudo!
O pequenino esticou seus braços e foi prontamente atrás do parceiro, mas acabou tropeçando e tombou desajeitado na estrada gerando ainda mais risadas nos mercadores.
Entretanto aquela balbúrdia sequer tinha chamado a atenção do experiente mercenário. Ele avistara algo estranho na estrada e agora, tão perto, podia ver o que era. Isso o deixou mais agitado.
Havia sinais de luta, não precisava ser um guardião para perceber isso. O local estava todo revirado e tinha três corpos caídos na estrada. O anão da colina se aproximou e viu que se tratava de elfos, ou ele julgou ser. Eram guerreiros, pois viu várias das suas armas em volta, junto a várias chamas que estavam, estranhamente, por todo o lado.
O neidar também viu que duas estátuas de draconianos estavam ali, com flechas fincadas em seus pétreos corpos. Sabia que os baaz viravam pedra quando sucumbiam prendendo a arma que o matou, para desespero de seu oponente. No entanto, logo depois os corpos petrificados se reduzem a pó e como isso ainda não ocorrera, ele imaginou que o combate fora há pouco tempo.
A caravana parou e muitos foram ver o que tinha chamado a atenção de Thorvalen. Logo todos ficaram assustados, com medo de que tivesse sido um ataque de saqueadores e assim, eles seriam as próximas vítimas. O medo se alastrou rápido e Asmar, o líder, quase não conteve os ânimos.
O Proscrito chamou o único rastreador que tinham e pediu:
- Grimur! Olhe! Diga-me o que houve, exatamente, aqui!
- Claro! – respondeu o guardião.
O mateiro começou a observar o chão quando, atônito, percebeu o que ninguém tinha visto. Um dos elfos estava vivo ainda! Aproximando-se, viu que era uma elfa, uma kagonesti. Entretanto, o mais importante, é que ela estava viva, mas a morte a estava espiando. Então, logo que Grimur a viu, ele a pegou nos braços e, com toda a delicadeza que a situação permitia, levou para dentro de uma das carroças.
Todos correram para auxiliá-la, menos o anão e o gnomo. Ambos ouviram os murmúrios delirantes que a coitada proferira, e como os dois eram os únicos fluentes no belo idioma dos elfos, eles entenderam o que ela tentava dizer. Ela pedia por um livro que possuía, como se sua vida dependesse disso. Assim, os pequenos e improváveis companheiros se prestaram à busca.
Dális saiu da estrada imaginando se o livro poderia ter caído longe. Já o neidar continuou no caminho e viu que algo queimava em um ponto. Bom na verdade aquilo não estava queimando, havia fogo em sua volta, mas o objeto não queimava e foi isso que chamou sua atenção. Thorvalen pegou seu machado e jogou sobre o fogo, extinguindo-o.
Claro que um machado normal não faria aquilo, mas o experimentado mercenário tinha uma arma mágica. Semelhante às ceifadoras gélidas, feitas na Fronteira Glacial no sul, a lâmina de seu machado era feita de gelo a uma temperatura extrema, que nunca derretia e tinha o corte de uma navalha.
A arma que Thorvalen tinha era ainda mais perigosa, pois fora feita por um anão da colina, do clã dos klar, com a ajuda do Povo do Gelo. Ambas as técnicas unidas criaram a Lâmina Glacial, um machado de guerra que além de nunca derreter, continha e apagava qualquer chama ou foco incandescente.
Assim, o machado mágico eliminou o fogo e revelou o livro que estava em seu interior. O guerreiro pegou o livro com cuidado, mas este não estava sequer quente e o examinou.
Era um livro antigo com capa de couro e de um metal que nem ele, um mestre ferreiro, soube identificar. Também não soube dizer o que estava escrito, pois nunca vira antes aquela escrita, mas mesmo assim, achava muito semelhante a um livro dos magos, um grimório. O mercenário fez uma careta e guardou o livro, sem que ninguém o observasse.
Como todo anão ele não gostava de magia. Era fato que brandia a Lâmina Glacial, mas era, em sua visão, muito diferente da mágica dos arcanos. O poder do machado vinha de seu Deus Reorx, invocado pelos ferreiros que a fizeram, mas foi o poder dos magos que corromperam uma parte de seu povo eras atrás e foi um arquimago que os levou à Guerra sob os Portões dos Anões.
Thorvalen olhou em volta e pegou as armas que acreditava pertencer aos elfos e assim chamou por seu diminuto parceiro:
- Venha logo sua matraca! Vamos ver como ela está!
- Já tô indo – respondeu Dális.
O neidar não percebeu que o gnomo estava em um estranho silêncio, aturdido com a imagem que estava contemplando. Ele via o corpo de uma elfa morta, mas não outra elfa e sim a mesma que acabaram de levar para as carroças. Ainda tentando entender aquilo ele se virou e seguiu o anão proscrito, que nada tinha percebido.
Foi um Grimur abatido que viram na carruagem, pois estava tentando estancar as terríveis lesões da kagonesti, mas a esperança já o tinha abandonado. Os ferimentos eram sérios demais e não se podia fazer nada ali.
O guardião murmurou uma reza a Habakkuk, seu Deus. Foi então que viu, entre os pertences da vítima um saquinho típico para se carregar bandagens. Ele pegou a bolsa e viu que estava cheia de uma planta que ele conhecia bem.
- Uma Orvalho-da-aurora! – disse com alegria. – Essa erva tem propriedades curativas, vai ajudar muito!
O alívio foi sentido por todos e com aquelas ervas a elfa foi curada.



Dois dias se passaram para que a kagonesti abrisse os olhos, mesmo que por pouco tempo, pois ainda estava abatida com a saúde febril. Estava nas casas de cura de Solanthus sob os cuidados dos Crentes na Restauração, um grupo de sacerdotes pagãos que não acreditavam nos Deuses da Ordem das Estrelas.
Entretanto ela não teria sobrevivido até ali se não fosse o uso de suas próprias ervas. Ninguém se espantou ao saber que o nome da elfa selvagem era juntamente Orvalho da Aurora!
Os hospitalários cuidaram dela o melhor que puderam, mas seus ferimentos eram cruéis, pois tinham sido causados pelas lâminas peçonhentas dos draconianos e nenhuma cura, mesmo mágica, era capaz de sanar aquele mal tão rapidamente.
Temiam que aqueles ferimentos se agravassem com a viagem, mas não puderam persuadir Thorvalen a deixá-la, nem com a ajuda de Dális, que tinha se aquietado com tristeza pelo estado da jovem.
Aquela tristeza era sentida por todos, ninguém gostava de ver uma moça tão pequena e delicada estar sofrendo assim. Não era a mulher mais bonita que já tinham visto, mas possuía a beleza selvagem de uma flor do campo. Forte e ao mesmo tempo delicada, de expressões meigas, mas com espírito guerreiro.
Orvalho da Aurora tinha a pele morena que podia ser percebida nas sumárias roupas feitas de pele de cervo. Marcas de lutas cobriam seu corpo musculoso, mas tinha uma beleza que apenas uma jovem do povo élfico podia ter. Seus olhos cor-de-mel tinham uma luz indomável em contraste com as franjas de seus lisos cabelos castanhos que tinham feixes de loiro, indicando algum ancestral incomum.



A caravana seguiu viagem e Orvalho da Aurora os acompanhou sob os cuidados de Thorvalen que cuidava diligentemente dela. Seus ferimentos eram tão sérios que demorou mais uma semana para que a jovem pudesse recobrar plenamente sua consciência.
- Estamos no quarto Mishan do mês de Riaverde, pelos nomes dessa terra – informou Thorvalen. – Já atravessamos o rio Vingaard e estamos em um local chamado Lar do Cervo, um campo que fica entre o rio e as montanhas. Devemos chegar em Relgoth apenas um dia, mas está vindo uma chuva daquelas, se quer saber.
A elfa kagonesti podia ver o anão da colina sentado do outro lado da carruagem. Ele estava com seu machado e besta encostados na parede ao lado e fumava um cachimbo de algum tabaco com um cheiro muito forte.
Ela se sentou, pois estava nas cadeiras da carroça adaptadas na forma de uma desconfortável cama, e deu uma boa olhada pela janela.
- Não irá chover até chegarmos lá – explicou a kagonesti, com um tom ríspido; – E vejo que a caravana continua mesmo eu estando machucada!
- Bah, humanos! – respondeu o mercenário. – Ainda do pior tipo, mercadores!
- Humanos e um anão! Espero que não tenham me roubado nada!
As palavras rudes da elfa tinham um motivo. Seu povo era selvagem e por isso sempre foram maltratados e expulsos de suas terras, mesmo pelos outros elfos. Por isso eram sempre tão desconfiados e ferozes. No entanto, o neidar não a compreendeu e ficou furioso. Levantou-se e disse:
- Aqui está seu livro – fez uma pausa para entregá-la. – Pelo jeito está melhor, então meu assunto aqui acabou. Não precisa agradecer por ter salvado a tua vida!
- Espere! Onde estão meus companheiros?
- Mortos! – a resposta rude assustou o próprio mercenário. – Enterramos como se faz nessas terras.
- Oh! Obrigada! – gaguejou a kagonesti com os olhos já marejados. – Desculpe meus modos, sei que lhe devo muito!
Thorvalen fez uma careta e saiu, mesmo com a carroça em movimento. Pulou com o machado nas costas e não queria mais saber daquela garota mal-agradecida. “Como todos aqueles fúteis elfos”, ele pensou, já devia ter imaginado que seria assim. Então por que estava tão irritado?
Orvalho da Aurora se prostrou dentro da diligência em que estava e iniciou um canto especial, um réquiem élfico, pelos amigos que perderam a vida. Pelo descanso de Hurian e Thandro em sua malfadada missão. Ela olhou para o livro e teve um certo conforto ao saber que suas mortes não foram em vão. Devia muito ao anão realmente.
Envolta em seus pensamentos ela quase não percebeu os sons de batalha do lado fora e só notou que algo estava estranho quando a carruagem parou. Olhou pela janela e viu o ataque, assim pegou a enorme lança e o arco que eram de seus parceiros, mas viu que estava ali também a Aljava de Silvanos.
Era um estojo de flechas que parecia simples, mas era encantado com a magia dos elfos. O coldre podia levar muito mais flechas que aparentava e não apenas isso, mas lanças e azagaias também. Bastava apenas que seu portador focasse seu pensamento em um item que estava na aljava que surgia magicamente. A kagonesti colocou a lança dentro e saiu preparando o arco.
A caravana estava sendo atacada por alguma tribo goblin, pois ela podia sentir seu mau cheiro antes mesmo de vê-los. Subiu na carruagem, com dificuldade, para ter uma melhor visão, e não estava tão errada.
Uma vez lá em cima, pôde observar o estandarte dos Cães Sedentos, uma estirpe que vivia nas terras ao sul de Solamnia, por isso ela estranhou ao vê-los tão longe. Algo estava muito errado!
As hordas de goblins vinham em dois grupos: um grupo de infantaria, chamados de farejadores, pois eram todos rastreadores, e o outro grupo de cavalaria, chamados de montadores, pois campeavam em seus worgs; os lobos gigantes que tinham domado há tempos atrás.
A elfa tirou uma flecha da Aljava de Silvanos e retesou seu arco o melhor que pôde, pois ainda estava muito fraca e seus músculos não se enrijeceram totalmente. Ela mirou em um inimigo com muita dificuldade dizendo:
- Morre cachorro maldito!
A seta atingiu uma das criaturinhas que estava portando a bandeira de guerra, que caiu imediatamente morta. Orvalho da Aurora virou rápido para o outro porta-estandarte, mas sua visão ficou bruxuleante e teve que parar para não cair. Estava tonta devido aos seus ferimentos e ficou brava por se sentir inútil.
Recuperada, ela ouviu a voz de Thorvalen ao longe:
- Não vai vir aqui conhecer Lâmina Glacial? Ótimo, duende, ela vai até tu!
O anão da colina alvejou, com seu machado, o último goblin que ainda tinha a bandeira de sua tribo e o arremessou longe, fazendo o monstrinho cair nos braços da morte. Ele então tentou pegar sua besta, mas percebeu que a tinha deixado, em meio à sua raiva, na carruagem da jovem selvagem. Xingou a si mesmo e quase não viu quando o worg se aproximou e o derrubou no chão.



A elfa ficou desesperada, pegou mais uma flecha e se aprontou para atirar, mas não conseguiu mirar, pois a carruagem meneava devido à forte pancada que a quase tombou. Olhou para baixo e ficou totalmente pasma.
- O Bugbear!
O bugbear e não um bugbear. A kagonesti reconheceu seu algoz, era uma das criaturas que a tinha atacado, um dos malditos que mataram Thandro e Hurian. Tinha voltado por ela, como todos de sua raça asquerosa, o monstro odiava os elfos e podia caçar tranqüilamente com seu faro de urso, o que tornava seu povo ótimos rastreadores. Aquele parecia o maior dos goblinóides, refletiu a jovem, e estava vigorosamente empurrando a carroça para derrubá-la.
Dális, que via a tudo escondido de baixo de uma diligência, tomou coragem e saiu correndo em meio aos cães goblins. Olhou para todos os lados procurando pelo seu companheiro anão e finalmente o achou e gritou por ele na esperança que ainda tivesse tempo para salvar sua nova amiga.
Entretanto a tática do bugbear deu certo e Orvalho da Aurora se estatelou no chão. Alguns de seus ferimentos abriram novamente causando uma dor nauseante. Ela vomitou sangue e, com a visão turva, mal percebeu o algoz se aproximar.
Ele a ergueu pelos cabelos e colocou seu focinho próximo ao rosto dela. Começou a falar algo em língua comum com um forte sotaque, que a kagonesti não entendeu devido à tontura. No entanto, ela sentiu bem a fedentina que exalava de sua boca cheia de dentes podres. Seus olhos lacrimejaram e finalmente estava entendendo o que a besta queria.
- Onde o livro tá, elfa vadia? – disse toscamente o homem urso. – Vamô; fala logo! Thurk moer ocê, Thurk ter levá livro pro Crod, Thurk moer ocê!
A criatura agarrou a cabeça da elfa com as duas mãos e começou a esmagar. Aquilo dava um prazer inenarrável para o bugbear, que pôde sentir os primeiros ossos estalando. Ele era um monstro perto dela, tinha mais de dois metros de puros músculos e pêlos; ela, embora forte como toda kagonesti, era pequena e de aparência frágil, perto dele.
Estava quase perdendo a consciência quando caiu...

sábado, 22 de maio de 2010

Capítulo III - Ela era uma Maga Agora

Selanthara caminhava indolentemente pelas casas de madeira envernizada quase não contendo sua própria felicidade, quase não demonstrando seu típico estoicismo. Tinha realizado um grande feito desta vez e com certeza saíra vitoriosa no Teste dos Magos de Alta Magia, a provação que todo aspirante a mago, todo neófito, deveria passar ou seria inexoravelmente caçado pela Ordem como um renegado. Seu mestre deveria estar muito orgulhoso naquele momento, ele não se arrependeria de ter confiado nela.
Ela era uma maga agora.
Mesmo em meio a toda essa alegria, a toda a sua satisfação, a aprendiz de mago pode ver o temor nos rostos das pessoas da pequena cidade solâmnica. Bem, Olmeiro não ficava exatamente em Solamnia naquele período. Estava, em verdade, na divisa leste com o outrora condado de Lemish, entre as colinas de Granada e a cordilheira meridional de Dargaard. Embora fique apenas a dois dias a cavalo de Solanthus, hoje a cidade estava mais próximas das mãos da infame Kitiara uth Matar, a Dama Azul, do que dos lordes cavaleiros.
A comunidade ficava na Floresta Enegrecida, que se estendia por quase toda Lemish, que continham vários tipos de plantas caducifólias, ou olmos como eram mais conhecidas. Essas olmeiras tinham grande importância devido à madeira negra que era retirada de seus arvoredos. Principalmente da Senhora-dos-Prados, que tinham o nome por “desafiar” as campinas, era constituída por um material de alta qualidade e muito resistente. Majestosa chegava a trinta metros de altura e era ótima para a construção de casas e muito utilizada por toda Solamnia.
Seus produtos eram levados ao sul para Porto do Chamado, que tinha o monopólio do transporte, para ser vendido a várias nações pelo Novo Mar. A “madeira de lei” era o principal produto comercializado pelos povos de Lemish e; junto com os cogumelos, legumes e as ervas; faziam parte de todo o seu sustento. Logo a floresta era vital para a sobrevivência dos lemishianos. Muitos trabalhavam nas matas, mesmo com as lendas e superstições que rondavam suas mentes e, de fato, não apenas animais viviam naqueles bosques lúgubres.
Assim a cidade era responsável pelo comércio de madeira com Solamnia, saindo do monopólio do Porto, e constituía quase um terço da economia do condado, o que não era pouco. No entanto, os olmeiros não tinham noção exata de sua grande importância. Como uma vila que cresceu rápido demais, a mentalidade conservadora ainda influenciava seus cotidianos. Eram, de certo modo, ainda muito provincianos, mas isso mudaria, pois Selanthara tinha passado no Teste com certeza.
Ela era uma maga agora.
Ao passar pelas largas ruas, todos que a viam tinham suas esperanças revigoradas. A jovem os inspirava e não era sem motivo. Ela era uma mulher linda, a mais bela que todos tinham visto em sua vida. Alta, muito alta na verdade, com um corpo bem desenhado que, sutilmente admirado por todos, estava envolto por suaves robes de seda Weya-Lu. Seus cabelos bem aparados e ruivos, raros naquelas terras, que tinham um brilho flamejante comparado apenas pelo ardor de seus olhos verde-esmeralda. Possuía um caminhar tão gracioso e delicado que causaria inveja as mais nobres damas da corte élfica.
Ainda muito jovem para vestir os Mantos Negros, é verdade, mas possuía uma confiança inabalável e um alto controle que impressionava até aos sábios arquimagos de Alta Magia. Era altiva e fria como uma escultura de mármore e sua natureza introspectiva davam a arcana um ar de mistério e fascinação. Assim, andava com passos firmes e determinados que alumbrava a pequena cidade.
Dirigiu-se ao centro com as expressões herméticas dos aldeões incluindo sua soberana Lady Herra que, convidativamente, a esperava nos portões do Palácio de Khalaran Shirak. O palacete era a única construção de pedras em toda aquela paisagem em mogno. Alguém com olhos mais atentos logo percebia que a construção era anterior a cidade, tratava-se na verdade de um antigo monastério cuja origem poucos conheciam agora, já que há muito, os monges tinham abandonado o local por motivos agora, acreditavam, imemoriais.
A Senhora de Olmeiro vinha de uma família antiga e nobre do Forte Espumante, que tinha esse nome devido a sua proximidade com o mar, onde suas ondas se quebravam na muralha, mas estava em ruínas agora.
Sua família se refugiou no Porto do Chamado e tornaram-se os principais comerciantes da Erva-dos-sonhos, mas sem grande dote, acabou por morar ao norte da Floresta Enegrecida.
Uma mulher de postura aristocrática e educação refinada. Era bonita, de cabelos castanhos claros que ondulavam sobre seus ombros. Tinha olhos grandes e amendoados que, diziam, encantavam qualquer pessoa. Pequena e magra lhe concebendo uma aparência de delicadeza, mas essa impressão que logo desaparecia diante ao seu porte nobre e firme. Extravagante, usava várias jóias e uma fina tiara que revelava sua posição.
Fez uma grande mensura, como convinha à situação, e convidou a jovem visitante a entrar em seu palácio:
- Seja bem vinda, minha cara dama Selanthara.
- Obrigada pela hospitalidade Milady. É uma honra estar em Khalaran Shirak! – respondeu a jovem maga em solâmnico e sem sotaque, causando estranheza em Herra.
- A honra é toda nossa! Faz muito tempo que esse palácio não recebia a visita de um Alto Mago, não?
- Certamente! Embora tenha sido construída por arquimagos há muito tempo, nenhum a visitou em toda a Era do Desespero!
- Então é realmente uma honra!
As duas mulheres entraram no palácio e, acompanhadas por um dos guardas, se dirigiram às escadarias da direita no salão de entrada. No primeiro andar foram até a sala de reuniões na extremidade norte da construção e subiram mais uma escada, essa em espiral, que levou a uma porta trancada, a única que a visitante tinha visto assim, e uma vez aberta pelo soldado, elas logo entraram. O homem fechou, com uma exagerada mensura, a porta e esperou do lado de fora, como se fosse uma típica ronda.
Seria ali o local para discutir os termos da submissão da pequena cidade de Olmeiro ao poder da grandiosa Lemish e assim, obviamente da, não menos poderosa, Armada Dracônica Azul. Era para isso que a arcana estava ali e não por outra coisa, se não por aquele momento de glória que tanto tinha lutado.
Selanthara unificara, há duras penas, os goblins da região. Os Arranca Crânios, Cães Sedentos, Devoradores de Tripa, Faca da Morte e até os indômitos Presa Ensangüentada, todas as tribos sob seu comando. Tudo como seu mestre desejara e agora, finalmente, teria alcançado o título da ordem de Alta Magia.
Ela era uma maga agora.
Estavam em um escritório, o único cômodo daquele andar. Tinha quatro enormes janelas, cada uma apontando para um ponto cardeal e, estando todas abertas, seria claramente a única fonte de luz naquela tarde. Tinha uma pequena escrivaninha adjacente à janela sul, quatro poltronas no centro e onde não havia janelas na parede, havia prateleiras com antigos livros.
As jovens se sentaram e não demorou muito para que trouxessem algo para beber.
- Suco de maçã? – ofereceu Lady Herra.
- Obrigada! – agradeceu a neófita e bebericou o refresco.
- Bom, quero lhe assegurar que nossa rendição é total!
- Ora, não se trata de uma capitulação e sim de um acordo. Acredite!
- Hum, difícil acreditar em sua boa vontade, arcana, com a minha cidade cercada!
- Posso dispensa-los se te causa tanto desconforto, Milady. Fazem parte apenas de minha guarda pessoal, te garanto! Além do mais, não ficarei aqui por muito tempo, quero apenas apreciar sua biblioteca e já partiremos, não tenha dúvida.
- Quanto aos termos desse tal acordo?
- Estão aqui, podes ler enquanto fico aqui. Não é nada demais, o comércio com Solamnia continuará em tempos de paz, seus negócios estão seguros, tem minha palavra. Nada mudará!
- Certo!
A Lady daquela pequena cidade sabia que aquilo era uma ilusão, e percebeu a fragilidade do acordo com o “em tempos de paz”. Havia uma outra guerra em iminência, sua experiência permitia perceber que aquele momento era apenas a calmaria antes da tormenta. Entretanto, se esse raciocínio não fosse o suficiente para convence-la, as diferentes tribos de goblins, que só trabalhavam juntas com um líder forte, seria um indicativo suficiente para saber que uma guerra total estava surgindo no horizonte. Sabia que tinha que fazer algo para sobreviver.
Ela olhou para os arredores dali, e viu que não havia apenas goblins, mas seus parentes hobgoblins e bugbears também formavam o corpo do regimento sob o aparente comando da maga, e sentiu um medo avassalador. Embora não soubesse, havia outras criaturas muito mais perigosas que Lady Herra não conseguia ver, mas apenas supor, que faziam parte do séquito de sua convidada. Estranhos grunhidos e urros a incomodavam visivelmente, tornando o ar pesado.
Selanthara percebeu isso e disse calmamente:
- Meus exércitos cuidaram do Senhor da Floresta!
- Mesmo?
Muitos podiam considerar que o Senhor da Floresta seria apenas uma lenda, um conto para assustar as crianças, e assim, amedrontá-las o suficiente para que elas nunca se perdessem na Floresta Enegrecida. Entretanto como soberana dos olmeiros sabia a verdade. Lenhadores sumiam para nunca mais serem vistos e todas expedições de caçadores falhavam miseravelmente. Havia alguém, ou melhor, alguma coisa naquele bosque.
Teria, a aprendiz dos Magos de Alta Magia, realmente extinguido aquele terror? Seria muito bom, pois assim os homens iriam mais ao fundo, e com maior dedicação, para o interior da mata. Um bom incentivo aos seus negócios. No entanto, aquela neófita teria realizado tal feito? Teria poder para tanto?
Parecia que a mulher tinha lido os pensamentos da senhora de Olmeiro, pois ela a olhou com arrogância, mas suas expressões eram tão transparentes que Selanthara nem precisaria. Sua decepção era óbvia e não havia outra saída, se não aceitar os termos do acordo.
A imponente visitante se satisfazia com tudo aquilo e ficara orgulhosa de si mesma. Tinha subjugado a última cidade da fronteira de Solamnia e nada estaria fora de seu controle, nada a deteria desta vez. Tudo ocorria exatamente como fora planejado. Seu treinamento estava completo.
Ela era uma maga agora.
- A deixarei aqui como me pede. – falou Lady Herra, esquivando-se de uma solução para o acordo – Me chame conforme seu desejo.
- Farei isso com certeza, Milady. Obrigada! – agradeceu a arcana e esperou a saída sua anfitriã e disse para o aparente vazio. – Já pode se revelar Seleth, ela já foi!
- Sei que ela se foi neófita!
Uma estranha voz respondeu a arcana. Logo uma imagem onírica foi se formando na frente da mulher que não esboçou nenhuma reação. A figura se tornou visível, era um draconiano. No entanto, não um simples homem-dragão, mas o mais poderoso deles, um Aurak.
Sorrateiramente Seleth caminhou em volta da maga parecendo que ele daria o bote, faria um ataque soturno, a qualquer momento. Muitos, mesmos alguns Altos Lordes Dracônicos, teriam medo diante do hediondo monstro, mas Selanthara não esboçou nenhuma reação, o que causava grande curiosidade no assassino dourado e sempre o deixava incomodado.
- Está com fome, minha Navalha no Escuro?
Perguntou desafiadoramente a mulher usando a alcunha do matador dracônico, era famoso por se alimentar do coração das suas vítimas, e às vezes matava apenas para se alimentar. Como aurak ele podia se alimentar de qualquer coisa e junto a isso, todo draconiano dourado gostava de ficar com souvenires de suas vitimas, assim uma coisa levava a outra lhe dando um hábito nefasto, é verdade, mas que aterrorizava seus inimigos.
Seleth gostava desse nome, sempre nas sombras, sempre sozinho. Auto-suficiente, julgava-se superior aos outros e não gostava trabalhar com seres inferiores, como ela. Então pronunciou revelando:
- Não encontrei o que procura aprendiz dos Magos de Alta Magia!
Havia sarcasmo nas palavras da criatura, que sempre a provocava fazendo questão de lembra-la que ainda não era uma maga. Os auraks sempre faziam isso, pois sabiam de sua origem, e por isso tinham consciência que eram os mais poderosos draconianos de todos. A arrogância estava na personalidade de todos homens-dragão dourados.
- Já sei disso meu caro e sei onde está agora! – disse Selanthara.
- Então meus serviços não são necessários... – comentou o monstro, ainda com arrogância.
- São sim, porque o grimório não está aqui!
Navalha no Escuro não pode conter seu espanto. A neófita tinha revelado o conteúdo da caixa, um grimório, um livro de magias. Foi então que percebeu o que estava acontecendo. Olmeiro era realmente importante, mas não apenas pelo ouro que traria aos cofres da Armada Dracônica, mas traria a ela um dos artefatos mais procurados de todos, o Grimório de Magius.
Claro! O Palácio tinha sido construído há muito tempo para guardar seus segredos e seu próprio nome, Khalaran Shirak, era o nome da mais famosa magia de Magius, capaz de expulsar para sempre uma entidade extraplanar. Indagou-se sobre o por quê daquela demanda.
- Então, obviamente, quer que eu o ache? – perguntou a criatura.
- Sim, os Cães Sedentos acharam o rastro de três elfos saindo daqui e se dirigindo a Solanthus.
- Hurf, farejadores goblins! Não dá para confiar neles.
- Mesmo assim é melhor conferir, leve um dos Retalhárvores com você. Se forem elfos, nada melhor que ter um bugbear para caçá-los.
Essa era uma ordem direta. A arcana tinha feito isso para manter sua autoridade e o homem-dragão sabia disso. Como ele sempre a provocava, ela tinha que mantê-lo na linha e embora nunca admitisse isso, o assassino dourado a admirava nesses momentos. Seria uma grande comandante.
Ela era uma maga agora.
Entretanto o draconiano não gostou da idéia, não queria trabalhar com ninguém. Qualquer que o acompanhasse, provavelmente, mais o atrapalharia mais que o ajudaria. Seria um peso morto, sem dúvida. Contemporizou aquela conflitante situação e traçou rapidamente um plano.
Veja bem, Seleth não era o aurak mais sagaz dos exércitos da Rainha das Trevas, mas tinha a incrível capacidade de raciocinar rápido sempre se adaptando as mudanças e reviravoltas, esse era o seu talento.
Teria que levar mais companheiros realmente, mas se isso não tivesse remédio então que fossem outros draconianos, que ao menos fossem outros de sua letal raça. Enfim, com firmeza disse:
- Levarei um grupo avançado de draconianos e nada mais!
- Pode levar quem quiser, não tem importância, mas o bugbear vai também, como eu ordenei e isso é um fato! – e continuou com palavras firmes – Estamos entendidos ou terei que substituí-lo?
Os olhos reptillianos ficaram vermelhos de raiva e o monstro encarou ameaçadoramente a aprendiz dos Magos de Alta Magia, mas esta não desviou o olhar, continuando com seu eterno estoicismo. Navalha no Escuro não encontrou fraqueza nenhuma nela, então foi obrigado a desviar o olhar.
Embora ainda desconfortável Seleth, obediente, fez uma mensura e voltou as sombras, de onde saíra, mas não antes de escutar o último insulto de sua chefa:
- Não falhe comigo desta vez!
Selanthara finalmente pode se permitir livrar-se de suas obrigações. Estava totalmente sozinha agora e ninguém entraria lá sem que assim pedisse. A noite já tinha caído a arcana agradeceu a isso, pois ficava muito mais à vontade na escuridão.
Olhou pela janela e viu a escura Nuitari, a lua que apenas os magos de mantos negros podiam ver, em quarto minguante e isso não a confortou. Também podia ver a Solinari em plena quarto crescente. A lua prateada ascendendo e a lua negra declinando, isso não era um bom presságio, ou ao menos, não para ela.
Desviou desses pensamentos agourentos e voltou a sentar pesadamente na desconfortável poltrona do palácio de Olmeiro. Totalmente relaxada quase nem percebeu que assumira sua forma verdadeira agora. A neófita não era humana.
Mesmo olhando para ela agora, mesmo vendo sua pele azul de extrema maciez e beleza, muitos não saberiam que criatura era aquela. Apenas os grandes sábios, os estudiosos do passado e aqueles que não deixam a história se tornar lenda, poderiam dizer o que se tratava de uma Irda.
Um Alto Ogro, muito diferente das decadentes criaturas, estes estão mais próximos da raça original e não foram amaldiçoados pelos deuses como os outros. Não eram malignos a despeito de sua origem, sempre buscavam ser bons e justos, mas por sofrerem terríveis maus-tratos das outras raças, preconceituosas, eles há muito aprenderam a se transformar, escondendo suas verdadeiras formas durante a vida inteira.
Assim, momentos como aquele eram raros para Selanthara. Apenas longe dos olhos dos outros indivíduos é que poderia assumir sua forma verdadeira. O preconceito que sua raça sofria era ainda mais implacável, pois há muito, os Irda tinham renegado sua origem maligna e abraçado à causa do bem, mas ela era diferente. A arcana não era assim, não tinha vergonha de sua origem, pelo contrário, tinha orgulho por ter sido criada pela suprema Takhisis. Totalmente dedicada a Rainha das Trevas, tornou-se uma seguidora do filho da Deusa, o maligno Nuitari, o Noturno.
Novamente foi admirar a lua obscura que, não refletindo a luz do sol, não passava de um ponto escuro no céu, mas aqueles que usavam a arte negra da magia podiam vê-la de outra forma e assim apreciar sua perversa beleza.
Entretanto algo aconteceu, uma coisa que a maga não esperava, ou ao menos não agora. A jovem mulher pode ouvir palavras que eram trazidas magicamente, quase que como singelos ecos, pelos ventos uivantes da noite. Tentou identificar o que era, mas a voz sibilante rapidamente revelou sua nefasta origem.
- Saiu-se muito melhor que o esperado, minha aprendiz.
- Obrigada, meu mestre e arquimago Velthorm. – respondeu a neófita – Entretanto não estou com o grimório!
- Ele será seu presente por ter concluído o Teste de Alta Magia. Seu presente mágico!
A felicidade invadiu a mente de Selanthara. Um presente como aquele não era concedido para qualquer um que fosse aprovado no Teste, mas apenas para aqueles que o faziam quase perfeitamente. Tentando esconder seus sentimentos, como era o costume de sua raça, ela falou:
- Na verdade está quase em minhas mãos, meu mentor. Logo teremos o Grimório de Magius!
- Certamente, mas esse assunto não mais ocupa meus pensamentos!
- Mestre! Achei que era seu objetivo também se apossar do objeto?
- Achou não? No entanto, agora outro livro, bem mais antigo, me revelou a Última Torre.
- Harkiel?
- Sim, a dragoa vermelha finalmente me concedeu o livro!
- Como Dracart recebeu isso?
- Mal eu imagino, mas não tem relevância! A cada dia estou mais próximo de meu objetivo principal.
- Irá partir agora, imagino...
- Claro que imagina, não é mesmo? Entretanto não o farei, pois ainda tenho que fazer os preparativos. Conjurar o Antigo não é uma tarefa que pode ser feito com magias vulgares, são rituais Selanthara, rituais ancestrais!
- Sim, eu compreendo mestre!
- Compreende? Antes de ir devo passar por Olmeiro. Quero que faça algo por mim e não deve tardar.
- Estou as suas ordens, meu mestre!
- Preciso de crianças, bem jovens ainda! Não sei o número certo, mas é melhor conseguir dez no mínimo?
- Como farei isso meu senhor?
- Ora! Você domina as cidades do norte de Lemish, peça como tributo!
- Não posso! Sou protetora dessa gente, não uma vil tirana!
- Não importa como vai conseguir, apenas faça!
A Irda sentiu a presença de seu poderoso mestre esvair-se. Sentou novamente e tentou encontrar uma solução. Se ela exigisse de Lady Herra as crianças ela teria uma rebelião com certeza, mas não poderia desagradar seu mestre de forma alguma. Pela primeira vez em muito tempo, não sabia o que fazer.
Olhou para a escrivaninha, buscando um resultado para seu novo e perturbador contratempo. Então viu algo que não estava lá antes. Era um robe dos Magos de Mantos Negros, que só por eles poderia ser usado. Concluiu que o arquimago Velthorm estava oficialmente a admitindo entre os Magos de Alta Magia.
Rapidamente tirou suas leves roupas que trouxe de Khur e, como uma ninfa, ficou nua sob a Solinari. Sua tênue pele azul brilhava refletindo a luz prateada da majestosa lua. Deslizou os dedos no traje sentindo claramente a arte refinada da magia em todo o seu traçado. Pode ler as inscrições de proteção contidas em seu tecido.
Admirada vestiu delicadamente a escura vestimenta e se aprumou. Sim, tinha alcançado os seus desejos e estava tão satisfeita que se dissipou completamente as névoas que a impedia resolver seus problemas. A resposta era fácil e obvia. Iria recorrer aos caçadores de escravos do Chifre Quebrado. Assim não raptaria as crianças de Olmeiro e seu impiedoso mestre teria o que pediu.
Selanthara sentiu orgulho de sua própria inteligência e, em seus novos mantos negros, empertigou-se. Seria uma arcana que teria seu nome lembrado na história de Krynn. Os estetas escreveriam sobre ela e os heraldos proclamariam versos em sua homenagem. Nada poderia impedi-la desta vez...
Ela era uma maga agora.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Capítulo II - O Cavaleiro e o Mago

Nossa história começa, de fato, na Era do Desespero, em seus últimos anos, chamada pelos estetas de Período dos Dragões. Precisamente 356 anos após o Cataclismo, em um lindo amanhecer do segundo dia de Kirinor do mês de Riaverde. Era a aurora da primavera, e mesmo assim, quase na metade do mês, ainda podia se ver a neve nas montanhas. Isso, claro era incomum, mas não impossível. Apenas mostrara o quanto o inverno tinha sido rigoroso naquele ano.
Sir Hector Launwaine olhava distraidamente, enquanto escrevia em seu diário, o gelo derretendo nas montanhas, mas não eram quaisquer montanhas. Ele estava na Rota dos Cavaleiros, que ligava a capital Palanthas ao Forte Vingaard, e de fato ficava entre uma cordilheira, também conhecida pelo nome Vingaard, o mais famoso complexo de montanhas de Solamnia.
O cavaleiro estava entretido com a deslumbrante paisagem, já havia atravessado a famosa Torre do Alto Clero há não mais de um dia e, assim sendo, não faltava muito para chegar ao seu destino, à bela Relgoth, a Cidade dos Leões de Bronze, sua terra natal.
A cadeia de montanhas e a Torre formavam uma defesa formidável para Palanthas e realmente salvou a “Jóia do Norte” durante a Guerra da Lança. No entanto, cobrou um alto preso, a vida de seus preciosos Cavaleiros de Solamnia, incluindo o valoroso Sturm Montante Luzente.
Sir Hector era apenas um garoto na época e ainda estava sendo treinado em Sancrist, onde ficava a sede da cavalaria. Estava lá na histórica nomeação de Sturm e foi a única vez que ele o viu, infelizmente, mas mesmo assim, seus atos de bravura o inspiraram. Sempre foi o sonho de seu pai que ele se tornasse cavaleiro e agora ele voltava para casa como um recém-nomeado Cavaleiro da Coroa. Todos ficariam orgulhosos.
Ele estava muito diferente do que seus familiares se lembrariam. O cavaleiro tinha se tornado um homem alto, mesmo para os padrões solâmnicos. Tinha os olhos azuis, típicos daquela terra, mas seus cabelos eram curtos e castanhos escuros, diferentes do comum loiro do lugar. Tinha o bigode bem cuidado, como todos da cavalaria, mas o mantinha curto. Era muito musculoso, a ponto de perder a agilidade para esquiva, como dizia Lorde Gunthar, seu instrutor, mas compensava sua defesa portando um grande escudo de metal.
Seu escudo possuía o emblema dos Cavaleiros de Solamnia, um martim-pescador com escudo no peito, uma coroa na cabeça e pisando em uma espada emaranhada de rosas. Obviamente a coroa, espada e rosa eram símbolos das três ordens de cavalaria solâmnica e o pássaro era o símbolo daqueles reinos. Sir Hector adoraria usar o escudo de seu clã, mas isso era permitido apenas para o cavaleiro mais velho de sua família, no caso seu pai.
Já estava com a armadura típica dos Cavaleiros da Coroa, feita de aço, que era raro em Ansalon, devido a tantas guerras. Uma proteção finamente trabalhada com uma grande coroa entalhada no peito. Era uma Armadura de Batalha completa, que o tornava ainda mais lento, mas cobria-lhe o corpo inteiramente. Seu elmo tinha asas de pássaro esculpidas nas laterais, uma homenagem a Habbakuk, o Deus padroeiro de sua ordem.
Possuidor de uma espada longa, típica dos cavaleiros, mas esta também era muito bem forjada, encravada de jóias. Junto ao seu escudo tinha o balanço perfeito e ele sempre treinava o combate de ataque e defesa, espada e escudo. Era a única arma que o cavaleiro possuía e, como descrito na Medida, era a única que deveria possuir, embora ultimamente tivessem aparecido mais e mais cavaleiros arqueiros e é claro, sempre havia aqueles que usavam a lança de cavalaria.
O nobre se levantou, julgando que já era hora de continuar a jornada, foi até seu cavalo, prendeu a espada em sua sela e voltou-se para seu companheiro que ainda estava em sono profundo.
- Acorde, Valdor. Já é a hora do despertar!
- Ah, o problema de vocês cavaleiros é que se levantam muito cedo!
- E o seu é o ócio, eu imagino! Vamos, a estrada nos espera!
Assim o dorminhoco companheiro do Cavaleiro da Coroa se levantou. Valdor era um amigo de infância de Sir Hector, mas não era um nobre. Vindo de família que servia aos Launwaine, os dois foram criados juntos. Essa amizade rendeu uma educação aprimorada ao jovem camponês que, uma vez pajem, tornou-se escudeiro do cavaleiro.
Enquanto Launwaine estudava em Sancrist o jovem fora para o Colégio de Bardos Ergothiano, em Lancton. Era o maior centro de heraldos, como eram chamados os bardos em Solamnia, de toda Ansalon. Lá aprendeu Filosofia, Heráldica, História, Música, Religião, entre muitas coisas, mas o que mais gostava, o que mais se gabava de ter aprendido bem era a Oratória, e nisso ele era realmente espetacular.
No entanto, seu corpo também foi educado. Sabia usar uma espada, não tão bem como um cavaleiro, mas sabia. Logo ele tinha um sabre em sua cintura, mas esta não era sua única arma. Também tinha uma besta incomum. A arma tinha um mecanismo de repetição que podia disparar dez quadrelos sem ter que recarregar. Um presente do seu amigo que a conseguiu com os gnomos em sua passagem pelo Monte Deixapralá.
Assim o heraldo tinha a estatura típica de um solâmnico, ou melhor dizendo de um nobre, pois era bem alto. Seu corpo era esguio, ao contrário do companheiro, dando-lhe uma leveza e graça impressionantes. Tinha cabelos loiros na altura dos ombros e olhos verdes. Sempre sorria e carregava consigo um alaúde modesto que às vezes tocava.
- Ócio? – disse Valdor – Há algum mal nisso? Ora! Não é outra coisa, senão o ócio que torna a filosofia ergothiana comparável a élfica!
- Sim, e não é outra coisa, senão os escravos, que tornam os ergothianos ociosos! – replicou Sir Hector imitando a forma de falar do amigo.
- Um costume nefasto sem dúvida, mas faz parte da tradição deles, você deveria respeitar isso, cavaleiro, lembra-se? A Medida? Como era mesmo? – O escudeiro refletiu e recitou – Ah, sim. Um Cavaleiro de Solamnia deverá respeitar todas as culturas diferentes e ideais diferentes, ele nunca interfere no livre-arbítrio dos outros.
- Ora, claro que me lembro! Principalmente do quinto livro! – indignado, proclamou o cavaleiro – Um Cavaleiro de Solamnia deverá fortalecer os fracos, enriquecer os pobres, libertar os escravos, proteger os indefesos e dar aos necessitados.
Assim os dois sorriram e o Launwaine voltou a falar.
- Libertar os escravos! Não possuo tua capacidade de interpretação, meu caro amigo, mas veja que a Medida é bem clara aqui!
- Hum! – respondeu Valdor fazendo uma pose exagerada de sábio. – De fato, a verdade flui de suas palavras!
Os dois riram da profunda discussão, como apenas faziam amigos de longa data. Sir Hector olhou com carinho para seu amigo e contemporizou se era possível ter mais felicidade do que tinha naquele momento. Era jovem e cheio de esperança, mal sabia que seu destino lhe reservava uma estrada de maior labuta que aquela por onde seguiam.



Continuaram assim por mais quatro dias de caminhada pela estrada. Falando assuntos ingênuos e rindo deles, os dois atravessavam a cordilheira, despreocupados e tranqüilos. Sob a luz argêntea de Solinari.
- Não disse que era boa idéia iniciar a viagem no segundo Luindia? – perguntou o escudeiro. – Seria mais bonito ver Solinari no céu naquele dia também, mas ter a lua vermelha em pleno crepúsculo nos vigiando sempre é um bom presságio.
- Claro – respondeu Sir Hector. – Mas não use os termos de Ergoth para as datas, meu amigo, os solâmnicos não gostam, você sabe!
- Ah! É verdade! Desculpe! Segundo Palast então.
- Tudo bem! Foi há muito a Guerra das ...
O cavaleiro parou de falar por perceber a mudança de expressão do amigo. Havia algo errado, algo muito errado. Era fim da tarde e Solinari estava quase cheia. Lunitari estava em primeiro quarto e isso dava um leve tom avermelhado na paisagem, dificultando a visão, mas não os sentidos do heraldo.
Sem o elemento surpresa os goblins saíram de seus esconderijos nas montanhas e se prontificaram a interceptar a estrada. Estavam ali para roubar os viajantes, concluíram os dois amigos, criaturas vis sem dúvida. Eram azuis e de nariz enorme, típico dessa região, mas um deles, no entanto, era amarelo. Tinham facas cruéis como arma e usavam pequenos escudos de madeira para se protegerem. Cercaram rapidamente suas vítimas.
- Hum, sete pra cada um! – disse Valdor sorrindo.
- Querem nos roubar, presumo! – falou Sir Hector aos goblins.
- Não! Ocê tá errado! – afirmou o goblin amarelo em uma voz estridente. – Como pode pensar isso! Tamo aqui pra pega...
O goblin que parecia ser o líder parou, olhou para cima como se quisesse se lembrar de algo. Seu companheiro mais próximo, vacilante, cochichou algo em seu ouvido e a criatura voltou a falar.
- Tamo aqui pra pega pedájo, isso sim!
- Ah, essa é boa! – exclamou o escudeiro.
- Pedágio? A mando de quem? – perguntou o cavaleiro.
- Ora, dos home! – respondeu o goblin amarelo.
- Quais homens? Explique-se!
- Não importa, ocês passa o ouro e continua ou não e fica!
- Sinto muito meu caro, não entregaremos nada! Meu nome é Sir Hector Launwaine. Não quero machucá-los, mas terão que me dar passagem!
Os goblins titubearam. A covardia dessas criaturas era conhecida por todos e era para isso que o nobre apelara. Entretanto os monstros eram muitos e mesmo covardes sabiam contar, assim restabeleceram sua moral e permaneceram firmes.
- Escutem-me! – Sir Hector voltou a falar. – Se vocês me deixarem passar eu não vou machuca-los, têm a minha palavra! Minha palavra é minha honra e minha honra é minha vida!
- Ah, quem ocê pensa que é, todo metido com esse bigode aí? Um cavaleiro? Se pah, um Cavaleiro de Solamnia! – gozou um dos goblins.
- Exato, seu tratante! – respondeu Valdor.
O líder do bando já tinha entendido que estava roubando de um cavaleiro, mas confiante em seu número ele bradou:
- Ou ocês passa o ouro ou eu passo a faca nocês e pego ouro mesmo assim!
- Pela minha espada! Não tem jeito mesmo! – bufou Launwaine. – Que os Deuses guardem suas almas!
O Cavaleiro da Coroa ergueu seu escudo e nem pensou em pegar sua espada. Realmente não queria machucá-los, queria dar-lhes outra chance, assim usara o escudo como arma. Ao contrário do heraldo que desembainhou o sabre e ficou de costas para seu amigo. Uma típica tática contra vários oponentes, pois assim não seriam pegos pelas costas por aquelas criaturas covardes.
Um goblin se antecipou e pulou em direção ao nobre que recebeu sua investida com um golpe de escudo que atingiu o monstro no ar e o fez cair pesadamente sobre o outro. A pancada acabou desmaiando as duas criaturinhas. Foi eficiente, mesmo não sabendo usar o escudo como arma. Os cincos restantes, do lado do cavaleiro, se assustaram, mas a moral deles foi readquirida pelo grito de guerra do líder amarelo.
Não foi muito diferente do lado do escudeiro. Três dos goblins avançaram. Um deles se atrapalhou e errou o golpe, o outro tentou atingir a perna do seu oponente, mas este, de forma habilidosa, retirou sua perna e se colocou em base para receber o golpe da próxima criatura, que investia em estocada. Seu golpe foi aparado pelo sabre de Valdor que contra-atacou decepando rapidamente a cabeça de seu atacante.
Veloz, Sir Hector acertou outro inimigo em um vigoroso golpe de escudo, de baixo para cima, arremessando outro goblin longe. Aproveitando a força do movimento, ele desceu o escudo, como uma onda que se quebra no mar, sobre outro pobre monstrinho, que foi ao chão esmagado.
Os dois goblins que erraram seus golpes tentaram atacar juntos, mas o heraldo se esquivou de um e aparou o outro ao mesmo tempo. Mesmo assim teve tempo para acertar mortalmente um dos desavisados oponentes que mal tinha se aproximado. Fez isso e voltou para sua posição defensiva, esperando o próximo movimento, como fora treinado a fazer.
Diferente, Launwaine sabia que seu amigo podia estar com problemas e antecipou-se agarrando o líder bandoleiro pelo pescoço, levantando-o do chão. O goblin amarelo tentou esfaquear o braço do cavaleiro, mas sua armadura era resistente demais e o protegeu totalmente. Persistente no movimento o apertão fez a criatura perder os sentidos.
Novamente em um ataque combinado, os ladrõezinhos dessa vez acertaram o escudeiro. Um acertou a barriga dele, mas foi o golpe na cabeça que fez Valdor desmaiar. O nobre o viu cair no chão e rápido defendeu seu amigo do ataque de misericórdia da pequena criatura golpeando com o corpo que ainda segurava. Os quatros oponentes que ainda restavam viram o goblin amarelo caído.
- Fujam vermes, ou terão a mesma sina!
O Cavaleiro da Coroa não gostou de ameaçar seus inimigos dessa maneira, mas precisava cuidar rápido de seu companheiro, assim se conformou e ficou feliz da tática ter funcionado. Uma vez seu líder ter caído, os goblins perderam sua frágil moral e fugiram de volta para suas cavernas.
Preocupado, Sir Hector debruçou-se sobre o colega e tentou cuidar de seu ferimento o melhor possível. Usou de seus escassos conhecimentos de cura estancando o sangue e fechando o ferimento. Esperava sinceramente que isso ajudasse, ao menos, até chegar a Relgoth, por isso, tão logo colocou o heraldo no cavalo, ele partiu.
- Você ficará bem meu amigo!
O nobre falou isso mais para consolar a si próprio que por outro motivo. Sabia que ferimentos como aqueles não permitiriam que seu companheiro sobrevivesse à viagem, mas a esperança era o último sentimento que abandonava um Cavaleiro de Solamnia.
Desolado pelo ocorrido, ele quase não percebeu que alguém se aproximava, como que vindo de um caminho contrário.
A estranha figura parou bem em frente ao cavalo. Era um homem de mantos vermelhos, um capuz escondia seu rosto. Possuía um cajado platino com uma esfera na ponta presa por uma garra de grifo. Podia se ver vários sacos e asas de inúmeros pássaros presos ao seu cinto. Ele exalava um aroma forte, mas relaxante, de ervas que o solâmnico desconhecia.
- Dê-me passagem, um amigo está ferido!
- Claro, entre outras coisas, é por Valdor que o rio do tempo me trouxe aqui!
- Como sabe o nome dele?
- Ora, o que seria, se não o conhecimento, a espada de um mago!
- Quem é você?
O cavaleiro se aproximou com cautela, desmontando do cavalo ele tentou ver o rosto do estranho, que logo retirou seu capuz e deixou-se mostrar. A figura era tão estranha que até o animal se assustou. O próprio Sir Hector recuou. Se fosse um guerreiro comum ele pegaria sua espada, mas isso não condizia com a Medida, de forma que ele não tinha esse reflexo.
O homem de vermelho não tinha barba e possuía cabelos brancos devido ao tempo. Mas o que assustava eram seus olhos. Ele não os tinha e possuía horríveis cicatrizes no lugar, como se tivessem sido dilacerados. Logo Launwaine se apiedou do velho e se aproximou dizendo:
- Você está bem, senhor?
- Mesmo em uma situação tão adversa, coloca primeiro a tua compaixão! – exclamou o misterioso homem – Posso afirmar apenas que estou longe de estar desamparado, meu senhor. O honrado escudo, sem dúvida!
- Como disse?
- Sinto que não poderei responder esta pergunta a ti satisfatoriamente, mas ao menos permita que eu tente com a primeira. Meu nome é Handar e sou um arquimago da Ordem dos Mantos Vermelhos. Assim, meu caro cavaleiro, a Lua Púrpura não está no céu levianamente!
- Eu...
- Calma, deixe que eu auxilie a espada!
Dito isso o mago tirou de uma de suas bolsas um frasco. Havia algum líquido mal cheiroso e verde dentro. Ele entregou ao confuso cavaleiro e disse:
- Esta é uma erva curativa, cujo nome já está insolúvel em minhas lembranças, mas Hégion nunca falhou comigo, posso lhe garantir.
Sir Hector pegou o frasco. Nunca um nobre, principalmente naquela situação estranha, daria o frasco ao companheiro, sem saber sua procedência. Entretanto ele não via mentira nas palavras de Handar, se é que era mesmo esse o nome dele. Algo no mago gerava uma aura de confiança. Assim, com o amigo próximo ao portal das almas, o cavaleiro deu-lhe de beber.
O gosto era horrível e Valdor se levantou reclamando. Não havia mais ferimento algum. Sem entender o que houve, ele recebeu o abraço do amigo que estava feliz por vê-lo bem!
- Pelas graças da Fênix Azul! – falou o Cavaleiro da Coroa. – Funcionou realmente! Não sei como agradecer, meu nobre mago!
- Não será preciso, salvei mais vidas hoje que podes perceber!
- Opa, quem é esse? – perguntou o escudeiro.
As devidas apresentações e explicações foram feitas e todos os três juntos partiram para a cidade.



Seis dias inteiros se passaram para que eles finalmente saíssem da estrada dentro das cordilheiras. Os três, mesmo o estranho arcano, pareciam companheiros de muito tempo, mostrando o quanto fora difícil e cansativa aquela viagem até ali. O tempo que passaram criou um elo entre os aventureiros, embora a fadiga tenha os atingido totalmente.
No entanto, esse sentimento logo se esvaiu com a visão da Planície de Solamnia. Era uma terra lindamente cortada pelos afluentes do Rio Vingaard. Estavam de frente para o leste e assim podiam apreciar o amanhecer do sol por detrás da Cordilheira de Dargaard, que mesmo em sua escuridão, cedia a feixes do mais puro brilho, tornando a paisagem, em uma luta de luz e trevas, estonteantemente bela.
Podiam ver alguns castelos ao longe, mas nada tão majestoso como o Forte Vingaard. Mesmo em ruínas a grandeza da antiga capital de Solamnia ainda impressionava. Atravessado pelo Rio Vingaard o Forte fora outrora o mais importante entreposto de comércio naquelas terras. Agora não passava de morada para mendigos e piratas. Isso deveria mudar, pensou Sir Hector, nem que ele tivesse que entregar a vida para isso!
- Cuidado com seus desejos Milorde! – falou Handar. – Eles podem se realizar.
- Seria uma bela morte, meu caro! – respondeu o cavaleiro sem perceber que o mago tinha ouvido seus pensamentos. – Uma bela morte!
- Bela morte sem dúvida! Como merece um Cavaleiro de Solamnia!
A tristeza atingiu o homem de vermelho e os outros tentaram entender o porquê. Imaginaram que talvez aquele velho tivesse lutado na Guerra da Lança, e sem dúvida, ele parecia ter lutado em algum árduo conflito. Podia se ver isso em sua forma e expressões julgou Launwaine, como anos antes ele vira em seu mestre, Lorde Gunthar. As sombras do passado abandonaram o arcano quando o cavaleiro disse:
- Não dá para ver minha cidade ainda, mas seguindo por ali logo estaremos...
- Essa é a estrada de Valdor apenas, Milorde – pronunciou o mago. – Ao menos por enquanto, teu destino e o meu agora estão em Vingaard!
- Como? Não entendo...
- Quero te revelar algo que só pode ser visto lá! E devemos ir logo, tem que ser durante a Noite do Olho, e isso ocorrerá em dois dias ou três!
- Mas, a estrada para lá não nos levará em menos de uma semana!
- A Ventania nos carregará. Vamos! Diga ao seu escudeiro para ir a Relgoth e preparar sua volta, não chegará muito depois dele!
- Isso é impossível – protestou o Heraldo. – Não tem como chegar a tempo!
- Deixe isso comigo, sou um arquimago no final das contas, não?
- Se sente bem para ir sozinho, Valdor? São três dias ainda de viagem, mas não vejo problemas a partir daqui!
- Claro que posso ir, mas o que me assusta é sua confiança nesse mágico! Nem sabemos quem ele é realmente!
- Fique calmo! Seu amigo cavaleiro estará de volta no quarto Bakukal!
- É o que espero, ou juro pelo Som da Vida que o encontrarei de novo!
- Não vamos mais nos encontrar nessa vida, discípulo de Branchala!
Sir Hector deu seu cavalo para o amigo, que contrariado partiu. Os dois ficaram ali por um bom tempo, até que não se pudesse ver mais o escudeiro ao longe. Handar colocou uma das mãos na cabeça, parecendo se concentrar em algo, e logo depois relaxou.
- Então – começou o cavaleiro. – Ventania que nos levará?
- Sim Milorde! Seremos conduzidos pela filha do Céu!
Com essas palavras o arquimago vermelho guiou os olhos azuis do nobre para o horizonte. Não demorou muito para que ele pudesse ver uma enorme criatura alada sobrevoando as planícies. Um medo irracional ameaçou tomar conta de Launwaine, mas foi confortado pelo velho.
- Não tenha medo senhor de Relgoth! Ela é a prova que o bem redime os seus e de qualquer forma não estará conosco em Vingaard. Lá serão apenas eu e você, meu Lorde. O Cavaleiro e o Mago!