Ascensão do Inimigo

A Guerra da Lança tinha chegado ao seu fim, grandes cavaleiros se sacrificaram para manter a paz, mas o exército maligno não tinha sido derrotado totalmente. Em sua poderosa fortaleza a Dama Azul ainda planejava um último ataque de seu Armada Dracônica aos Reinos de Solamnia. No entanto, um mal muito mais antigo foi despertado sem o conhecimento de nenhum dos lados. Um inimigo incrivelmente poderoso que usa sutilmente sua influência sombria para alcançar seus objetivos. Cabe a um grupo de bravos heróis confrontar esse perigo avassalador que a todos domina. O Sussurro das Trevas é um épico de fantasia dividido em três partes que narrará uma saga no mundo de Dragonlance.

Poema dos Seis Heróis

“A palavra será a redenção dos pecadores
Apenas o mais misericordioso a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O escudo será a proteção dos desamparados
Apenas o mais honrado o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A espada será a justiça dos oprimidos
Apenas o mais temerário a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O cajado será a lei dos desesperados
Apenas o mais prudente o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

A flecha será o equilíbrio dos soberbos
Apenas o mais sábio a portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas

O machado será a vingança dos esquecidos
Apenas o mais audacioso o portará
O Mal rastejará novamente para as profundezas”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Capítulo X - Masmorras de Vingaard

Os sete companheiros encontraram uma pequena câmara repleta de celas decadentes extremamente imundas onde várias pessoas vestidas apenas com trapos estavam presas. A cena era horrível e a condição em que aqueles prisioneiros se encontravam era deplorável. Estavam totalmente no escuro e as prisões estavam inundadas até o joelho com uma água turva e nociva. Muitos já estavam mortos ali e os poucos vivos estavam com doenças hediondas pelos maus tratos. Aquele era um lugar de morte e desolação.
Os aventureiros não entendiam o porquê de aqueles pobres coitados estarem sendo mantidos ali, a causa de tamanha vileza, mas sabiam bem o que deveriam fazer. Teriam que ajudá-los de alguma forma. Mas inicialmente a cena era tão chocante que eles demoraram um tempo para assimilarem tudo aquilo. Não tinham percebido, até mesmo, que a chama contínua da tocha de Diana mais causava mal do que bem aos prisioneiros das masmorras de Vingaard.
Valdor, que como um heraldo era o mais sensível dos companheiros, se apiedou completamente dos prisioneiros e decidiu que tinha que fazer algo por aqueles homens e mulheres sem esperança. Sabia que não poderia fazer muito mais do que qualquer um ali, assim decidiu tentar acalmar e trazer um pouco de alegria aos que estavam naquelas lastimáveis condições. O jovem pegou seu modesto alaúde e improvisou uma canção:

“Este homem que vos fala,
Não é somente um poeta cantor
E esta canção que vos embala,
Nunca deverá ser um desabafo de dor.

Uma exaltação que nunca se cala,
Nem diante do mais forte ardor
Mesmo a escuridão desta sala,
Ilumina-se ante o caloroso amor.”

Seus corações ficaram mais leves com o poema e o ar já não estava mais tão terrivelmente carregado. Aqueles homens ainda estavam melancólicos, mas a total desolação já os tinha abandonado, graças à canção do bardo, e até mesmo os heróis conseguiam pensar melhor no que deveriam fazer para levar a esperança novamente a aqueles tristes rostos.
- Quem são vocês? – perguntou a sacerdotisa enquanto entregava sua tocha a Dális, enquanto este ia para um pouco longe diminuindo a força da luz que feria os olhos dos prisioneiros. – De onde vêm?
- Al... Aldeões! – disse um dos presos. – Vi... Vivemos na Floresta Guardiã perto da saída oeste da Cordilheira aqui. Embo... Embora não passe de um brejo nevoento agora!
- Er, sim! E bons olhos os vejam! – falou outro preso, este mais velho – Se vieram nos salvar, ficamos muito felizes... Mas eu... Nós não podemos dar nada como recompensa, pois tudo nos foi tirado!
- Nem tudo meu bom homem! – afirmou Sir Hector. – Vocês ainda têm uns aos outros e agora sua liberdade também! Estamos indo justamente para a saída oeste e não vejo problemas em passarmos pela tua floresta!
- Não! – exclamou assustado o velho prisioneiro. – Não desejamos ir por aquelas bandas de forma alguma!
- Mas por quê? – perguntou Orvalho da Aurora. – Lá está um círculo de druidas se bem me lembro! Por que não quer voltar para aquele local sagrado?
- Por... Porque uma noite tenebrosa caiu sobre as florestas transformando tudo aquilo em um charco ácido. So... Somos o circulo de druidas que diz tão amavelmente, mas vos digo agora; evitem aquelas terras, pois é sempre escuro no agora chamado Pântano Guardião!
- O que vamos fazer? – perguntou Diana a Sir Hector. – Não podemos deixá-los aqui e nem podemos nos desviar de nossa missão!
- Não! – respondeu o nobre ponderando tudo aquilo. – Não! Eu levarei estes refugiados a Relgoth para que fiquem seguros lá. Em minha cidadela eles nunca receberão maus tratos e os guardarei de todo perigo e afronta. Vocês, meus companheiros, continuarão com a demanda!
- Eu vou com você, Cavaleiro de Solamnia! – disse Fizban. – Vai se perder miseravelmente nessas minas sem minha ajuda!
- Eu também vou contigo! – afirmou Valdor. – Seu escudeiro irá junto!
- Não! – discordou Sir Hector cofiando o bigode. – Não podemos ir todos se não a missão falhará desgraçadamente e muitos dependem de nós! Iremos apenas eu e o mago! Devo chegar à entrada da garganta apenas à noite e isso será ótimo, pois eles sofrerão por ver a luz do dia novamente! Mas digo a vocês que serão bem-vindos em minha cidade e serão bem tratados na Cidadela dos Leões de Bronze!
Embora muito agradecidos os aldeões não falaram nada, pois estavam muito cansados pelos maus tratos e doenças que tinham.
- Não deveríamos nos dividir! – reclamou Diana. – Mas não vejo outra solução para este problema...
Tanto a sacerdotisa como Orvalho de Aurora curaram como podiam aqueles pobres homens e os ajudaram a se levantar para partirem na jornada para Relgoth. Enquanto isso os outros companheiros ajudaram a enterrar aqueles que já tinham morrido e finalmente Diana fez a Lígion, uma prece de despedida, pelos pobres falecidos.
- Pela minha palavra digo que retornarei a vocês o mais rápido que for possível! – pronunciou finalmente Sir Hector. – Minha palavra é minha honra e minha honra é minha vida! Que os Deuses da Luz estejam com vocês neste lugar escuro.
- Sabemos disso senhor dos cavalos! – disse Thorvalen com uma mesura. – Que sua jornada também seja de boa ventura e fique de olhos bem abertos!
Assim Fizban, o Fabuloso e Sir Hector Launwaine voltaram com os refugiados enquanto os outros aventureiros, agora em cinco, ficaram no corredor de acesso àquele local para descansar. Era uma longa demanda e, se eles pretendiam ainda ver o que acontecia no Pântano Guardião, já que passariam por perto e não queriam deixar aquele mal impune, então teriam de ter boa resistência e deveriam estar descansados completamente.
Comeram as rações de viagem que tinham sido providenciadas pelo Empório do Lobo Andarilho, um dos lugares mais conhecidos pelos aventureiros que passavam pela bela Cidadela de Relgoth. Era uma pequena caixa de arroz, feijão e um pedaço de carne seca, muito usado pelos soldados quando viajavam para guerrear longe de suas casas.
- Alguém quer queijo? – perguntou Dális. – Eu trouxe bastante queijo que comprei em um armazém de nome engraçado lá em Solanthus. Chama Roda Quebrada, se bem me lembro tem uma boa atendente de nome que eu já me esqueci, mas enfim, o queijo é ótimo! Bom como os queijos de Abanassínia, mas não tanto como os de Solance! Veja bem lá está a Hospedaria do Derradeiro Lar e não sei como o queijo de lá é tão bom! Já perguntei pra eles onde compram, mas aquele velho careca não diz nem sob tortura! Embora ele fique se gabando das batatas...
- Eu como o queijo! – interrompeu Thorvalen. – Se isso fizer você ficar com sua matraca fechada!
- Ah, mais aí eu perco duas vezes! O queijo e a graça!
Todos riram da conclusão do gnomo que preferiu comer o queijo sozinho e continuar falando sobre sua visita à Cidadela Dourada. Era uma gargalhada que não davam há um bom tempo e aquilo ajudou a aliviar um pouco a tensão do que passaram ao entrar nas minas de Vingaard. Por um curto momento, apenas um pequeno momento, todos se esqueceram de sua laboriosa campanha, mas não aquela jovem druidisa.
Orvalho da Aurora estava preocupada com os refugiados e com o que poderia ter expulsado um círculo de druidas inteiro de seu santuário. Estava preocupada também com Sir Hector e percebera apenas agora o quanto aquele humano significava para ela. Sentia falta da segurança que ele a fazia sentir, mesmo que não reconhecesse para si mesma. Como uma elfa kagonesti gostava de acreditar que era auto-suficiente e de fato até era, mas por algum motivo queria arrebatadoramente que o sorriso confortante do nobre cavaleiro estivesse ali junto dela. Pensou enfim que deveria ter algum motivo para ela pensar assim, só poderia ter um porquê, mas a pequena selvagem não queria acreditar ou não queria reconhecer que estava ficando enamorada de um solâmnico.
- Não estou dizendo – Thorvalen levantou a voz fazendo-a voltar de seus pensamentos – que ele não saiba lutar! Apenas que ele poderia usar o escudo de outra forma. Como ataque, mas sem que isso prejudique sua defesa!
- Sir Hector foi treinado em Sancrist! – contra-argumentou Valdor. – Acha que luta melhor que os melhores Cavaleiros de Solamnia?
- Sei que os anões possuem técnicas de combate apuradas em séculos de experiência em guerras! Lutávamos bem antes de Vinnas Solamnus criar a cavalaria. Com certeza sou bem mais experiente que todos aqui!
- Apenas porque você é um velho...
- Não sou velho! Não para meu povo, mas com certeza estaria morto se fosse um fracote humano! Eu já sobrevivi há 147 invernos e cem deles foi ao calor da batalha seu tratante indolente!
- Parem já com isso! – disse Diana acalmando os ânimos. – Perceberam que estão discutindo à toa? Sir Hector nos levou até aqui com uma diligência inabalável. Foi levar para a cidadela os refugiados e voltará para nos ajudar! O que mais quer dele, mestre anão?
- Que melhore aquela base ou vai acabar caindo por um golpe forte, oras! Que esqueça seus títulos de nobreza e vire um guerreiro de verdade!
- Não sabe – falou pesarosamente Valdor – o quanto esse comentário, este exato comentário, o derrubaria de verdade, meu experiente mercenário da colina!
Thorvalen resolveu não falar mais nada e apenas ele percebeu a saída de Orvalho da Aurora da roda dos companheiros. A elfa se sentia ainda mais triste pela aquela conversa e resolveu se isolar um pouco. Pensou em como tudo tinha mudado de forma tão rápida. Lembrou da maravilhosa vida que tinha na Floresta Enegrecida e dos amigos, Hurian e Thandro, que morreram para protegê-la. Para proteger aquele livro maldito que trazia consigo. Um segredo conhecido apenas pelo anão e pelo cavaleiro. Ah, como aquela jovem gostaria que Sir Hector ainda estivesse junto a ela!
- Farei o primeiro turno, pois não estou nem um pouco cansado! – disse o neidar pegando um pedaço do queijo de Dális. – Essa coisa é horrível! – ralhou ele sob os olhares inquisidores de todos os aventureiros presentes. – Só estou comendo porque estou com muita fome mesmo, mas nunca provei algo tão amargo em quase dois séculos de vida!
O dia seguinte foi mais calmo e os companheiros puderam seguir tranqüilos pelas várias salas, câmaras e túneis das montanhas. Não havia nenhum sinal dos skuns e Thorvalen guiava o grupo com seu habitual jeito taciturno. Graças ao anão da colina os heróis puderam evitar várias armadilhas naturais e locais perigosos, embora todos eles se sentissem perdidos naquele ambiente labiríntico; menos, claro, o neidar proscrito.
Caminhavam naquelas masmorras por horas e já estavam cansados de tanto andar, mas o pior é passar tanto tempo sem sentir o calor da luz do sol em seus corpos. Toda aquela escuridão, mesmo com a tocha de chama contínua da reverenda Diana, deixava o ar ainda mais pesado e fazia com que a vontade deles diminuísse drasticamente.
- Então eles são lançados? – perguntou Valdor assustado. – Esse tal de elevador não me parece muito diferente de uma catapulta humana!
- Não é uma catapulta! – respondeu Dális contrariado. – O processo é totalmente diferente e veja, tem as redes! Depois que a pessoa é lançada para o andar superior, ou outro andar acima, de qualquer forma, há uma rede para amortecer sua queda. Entretanto e, no entanto, problema é que nem sempre acertamos os cálculos ou algum labrego opera o elevador e a pessoa acaba caindo a alguns metros longe da rede, mas é um erro comum no fim das contas. O curioso é que com as nossas catapultas isso não acontece, pois calculamos a distancia do disparo da pedra e ela vai pra lá certinho! Não entendo o porquê, mas quando perguntei aos membros da Guilda dos Engenhoqueiros, me disseram que isso acontece porque há mais variantes entre os pesos das pessoas do que das pedras. Particularmente, assim, comigo mesmo, eu acho... Opa!
O pequeno gnomo parou de falar por um instante e, como isso era extremamente raro de acontecer, logo chamou a atenção de todos. Os aventureiros olharam em sua volta e logo perceberam que não estavam mais sozinhos. Havia mais alguma coisa na escuridão das masmorras. Vultos se aproximavam cautelosamente, mas como logo perceberem que tinham sido vistos, eles subitamente atacaram com muita celeridade.
Novamente eram atacados por um bando de Skuns, os homens-peixe, e novamente se viam cercados por eles. Os cinco companheiros se colocaram de costas um para o outro, formando um círculo, achando melhor esperar que os seus monstruosos agressores viessem até eles.
Essa tática funcionou bem no inicio. Nenhuma das criaturas conseguia penetrar no circulo, pois era fatalmente atacada pela espada veloz de Valdor, pelo machado retalhador de Thorvalen, a maça esmagadora de Diana, a lança pungente de Orvalho da Aurora ou a adaga precisa de Dális. Se algum deles falhasse o outro ao lado rapidamente lhe dava cobertura. Assim continuaram por um bom tempo, mas logo perceberam que não paravam de chegar cada vez mais skuns...
- Essas criaturas brotam das pedras? – perguntou a elfa selvagem. – Nossos inimigos são muitos!
- Talvez – respondeu o heraldo – eles sejam parentes do Thorvalen!
- Bah! – resmungou o anão da colina. – Posso ficar aqui talhando o dia todo!
- Não! – contrariou a sacerdotisa tomando cuidado para convencer o companheiro. – Vamos ter que sair deste lugar para uma melhor posição!
- Ali! – bradou o gnomo ao encontrar uma brecha entre os inimigos. – Me sigam aqueles que forem meus amigos!
O pequeno saiu em meio aos skuns e foi seguido instintivamente pelos outros heróis. Dális, percebendo isso, sentiu uma alegria enorme lhe preencher a mente, pois duvidara que alguém naquele grupo lhe desse algum crédito. Entretanto até mesmo o rabugento Thorvalen estava atrás dele, mas se lembrou de algo e a tristeza novamente veio à sua face. O gnomo não tinha a mínima idéia do que fazer e nem para onde ir.
Foi em meio a essa confusão que Orvalho de Aurora viu que em um dos trilhos logo adiante estava um dos carroções, mas este, montado no estranho caminho de metal e madeira. Imaginou se não era isso que Dális tinha visto e correu rapidamente subindo no transporte.
- Vamos! – disse ela. – Entrem rápido aqui!
- Isso mesmo! – gritou o pequeno gnomo. – Vamos para o carroção e ele irá nos tirar daqui!
Enquanto eles entravam no veículo uma saraivada de azagaias silvou no ar do túnel e se abateu velozmente contra eles. No entanto, nenhuma delas atingiu os aventureiros, a não ser a que ricocheteou no escudo de Thorvalen. Uma vez lá dentro, Valdor resolveu perguntar:
- E agora, Dális?
- Tenho que alcançar a manivela! – respondeu o pequeno. – Sabe? Ela vai dar impulsão ao carroção e ele irá deslizar com facilidade, já que estamos em uma decida, mas cuidado! Lembra quando fa...
- Vai logo sua matraca! – ralhou o anão. – Eu lhe cubro e tu acionas esta coisa do abismo!
- Certo!
Assim, coberto pelo escudo protetor do neidar, o pequeno Dális, com muito esforço, puxou a alavanca e o carroção se pôs a movimentar-se.
Os cinco companheiros desceram, dentro do transporte, e quando o caminho dos trilhos ficou mais íngreme, atingiram uma velocidade assustadoramente vertiginosa. Apenas o gnomo, que estava adorando a experiência, e Thorvalen, conseguiam ficar em pé para ver onde estavam indo exatamente, mas mal podiam acreditar em tudo aquilo.
Era uma infinidade de passagens e túneis que viam passar por seus olhos de forma embaçada, quase onírica. Grandes eram as câmaras das Masmorras de Vingaard e se não fosse pelo “atalho” que aquele carroção lhes proporcionara, talvez tivessem demorado mais um dia pra atravessar tudo aquilo. Entretanto outra coisa incomodou o experiente anão da colina.
- Se abaixem!
Uma seção do trilho estava quebrada e o transporte de descarrilou ao passar por aquele local. O carroção atingiu o alto daquele salão lançando os companheiros ao ar e os fazendo cair dentro de um grande lago subterrâneo.
Aos poucos os sentidos dos heróis foram voltando. Valdor conseguia ver Diana e Orvalho da Aurora se levantando machucadas ainda pela queda. Procurou os outros, achou Dális desmaiado, mas não viu Thorvalen e iniciou uma busca, apenas com os olhos, pelo lugar, a fim de achar o amigo.
O heraldo viu que estava em uma grande câmara com vários túneis de passagens e em seu centro um grande lago, em relação ao qual se encontrava na margem. A água parecia tranqüila e refrescante, um verdadeiro bálsamo em meio a aquele lugar amaldiçoado. Uma linda queda d’água vinha do alto teto, mas ele não conseguia ver tão longe devido à escuridão. De certa forma era ainda mais escuro aquele lugar e Valdor agradeceu em pensamento por Diana ter aquela tocha cuja chama nunca se apagava.
Entretanto, algo chamou a sua atenção. Podia ver algo, uma massa obscura, se mexendo nas águas transparentes do lago, e imaginou se não seria Thorvalen. Andou o mais rápido que pôde até perto do centro do lago, para enxergar melhor, e quando viu o que era ele parou. O frescor e a limpidez da fonte eram um alívio para aqueles dias de tensão e desolação que estava vivenciando. Estava totalmente fascinado por aquilo!
Diana viu o heraldo se dirigir ao centro do lago e decidiu ir com ele para saber o que tinha chamado sua atenção, mas outra coisa desviou seu olhar. Sua companheira, Orvalho da Aurora, estava sentada na margem com graves ferimentos e a reverenda de Paladine achou melhor ajudar a amiga.
Foi quando subitamente tentáculos sinuosos agarram a elfa selvagem puxando-a para debaixo das águas límpidas. A jovem ainda teve tempo de armar seu arco e disparar uma flecha bem no meio donde vinham os tentáculos. Ela com certeza acertou algo, mas mesmo assim foi tragada pela força da estranha besta e desapareceu no meio do lago cristalino.
A sacerdotisa tentou chegar perto da amiga para ajudá-la, mas foi interrompida por Valdor que se colocou à sua frente.
- Orvalho da Aurora está em perigo! – disse Diana. – Vamos ajudar!
Para sua total surpresa, o heraldo a socou precisamente no rosto fazendo a jovem cair mais pelo susto do que pela força do golpe e, uma vez ela estando no chão, Valdor retirou seu sabre e apontou em direção a Diana.
- O que você está fazendo! – gritou. – Por que está me atacando?
Não houve resposta alguma e a jovem sacerdotisa não entendeu aquilo, apenas percebeu um olhar estranho em seu companheiro. Tinha que raciocinar rápido, pois sua amiga élfica ainda estava submersa e ela não tinha visto nem Dális nem Thorvalen ainda. Não tinha a mínima idéia de como eles estavam. Também não queria ferir o seu amigo, mesmo esse agindo com tamanha insanidade, assim ela contemporizou sobre o que fazer. A reverenda Diana se levantou rapidamente e fez uma prece, segurando o medalhão de prata, símbolo de seu Deus:
- Oh Cavaleiro Valente – iniciou, mas Valdor aproveitou o momento e a atacou, entretanto ela se defendeu com o braço armadurado e continuou sua reza a Paladine – proteja sua filha que não quer ferir o colega. Faça com que ele também não possa fazer mal a mim, pois meu corpo é seu santuário.
Uma aura branca começou a emanar do corpo da sacerdotisa e sua luz, embora não tivesse o alcance da tocha de chama eterna, era muitas vezes mais forte e gloriosa. Qualquer um que a visse naquele momento realmente acreditaria que ela fora abençoada por sua Divindade.
Assim o heraldo não conseguia mais agredir a companheira de forma alguma, por mais que tentasse, a simples visão daquela mulher em todo o seu esplendor o fazia desistir inexoravelmente. A clériga agora, sem ter que se preocupar com Valdor, podia se focar em ajudar a amiga e descobrir o que estava acontecendo naquelas masmorras.
Ela agora pôde ver o pequeno gnomo caído, próximo à margem, aparentemente desacordado. Pensou em ir até ele, mas aqueles malignos tentáculos se bateram contra ela a fim de aprisioná-la como fez com Orvalho da Aurora, mas Diana por sua vez não tinha sido pega de surpresa.
Novamente evocando o nome de seu Deus patrono ela golpeou um daqueles delgados e sinuosos braços da criatura com sua maça-estrela e esmagou um dos tentáculos devido a sua fé.
Um brado de dor e fúria ecoou por toda a caverna, mas mesmo assim os outros tentáculos conseguiram segurá-la. A sacerdotisa foi erguida pela perna esquerda e assim ficando de cabeça para baixo. No entanto, sua vontade era inabalável e a reverenda continuou atacando com sua destruidora maça até que a oculta besta a largou.
Diana se estatelou no chão, estava seriamente ferida, mas mesmo assim ela continuou de pé, pronta para lutar. O monstro percebeu isso e finalmente emergiu do lado a fim de amedrontar a clériga com sua aparência.
Era uma criatura realmente apavorante! O monstro aquático devia ter o comprimento de quatro homens. Tinha vários tentáculos e nadadeiras em um corpo cheio de protuberâncias ósseas de cabeça bulbosa com três olhos vermelhos e horripilantes. As águas se tornaram escuras e viscosas em sua volta e um cheiro desagradável de gordura estragada empestou o ar das masmorras. A reverenda de Paladine se manteve firme, mas sua fé falhou quando viu Orvalho da Aurora morta entre aqueles tentáculos banhados de sangue.
Aquele ser repugnante podia farejar o medo crescendo em sua formidável adversária, assim resolveu agarrar Valdor, mesmo esse a servindo fascinado por seu poder, e o ergueu à frente de Diana. Ela não pôde fazer nada enquanto os ossos do companheiro eram triturados pela criatura.
A sacerdotisa fraquejou com aquilo, sua costumeira serenidade e prudência foram abandonadas. Ela simplesmente avançou como pôde pelas águas do lago e atacou a criatura com fúria, sem se preocupar com a defesa, sem se importar que uma de suas magias pudesse ser mais eficaz naquele momento. A besta aproveitou isso e a segurou novamente pela perna esquerda e fez o corpo de Diana se chocar contra a parede. Assim a jovem largou tanto sua arma como a tocha de chama contínua que carregava em cada mão. A escuridão voltou a dominar as masmorras de Vingaard.
A reverenda que, uma vez órfã, tinha devotado toda sua vida para seu Deus, pensou pela primeira vez que tinha sido abandonada por seu patrono; no entanto, esta falta de fé logo não mais permeava sua mente. A vontade de Diana era inabalável e mesmo se fosse morrer ali a sacerdotisa não desistiria de seu amor à sua Divindade, sempre reverenciaria seu verdadeiro pai Paladine, o Cavaleiro Valente e soberano dos Deuses do Bem.
No exato momento que sua crença se fortaleceu, Diana ouviu uma voz familiar ecoando naquele lugar maldito e soube exatamente de quem era. Mesmo estando totalmente no escuro.
- Não faria isso se fosse você! – disse calmamente, mas enfaticamente Thorvalen ao observar, com sua visão no escuro, que o monstro estava prestes a matar sua companheira. – Não quer que eu vá aí e lhe ensine boas maneiras não? Sua criaturinha desprezível!
O anfíbio atroz encarou o anão das colinas com seus três olhos que brilhavam em meio a todas aquelas trevas. Thorvalen parou por um momento, sorriu e logo voltou a falar:
- Bah! Não acha que vai dominar minha vontade, acha? A única coisa que vai ganhar com isso é um novo sorriso nessa sua cara de peixe!
A aberração se irritou ainda mais com a bravata e guinchou alto doendo os ouvidos dos dois aventureiros. Um dos tentáculos se colocou para trás, como um felino em um bote, e partiu para cima do agora frágil corpo da sacerdotisa; mas antes de atingir seu alvo, o anão neidar correu e deu um salto, passando por cima das águas, até atingir a criatura, decepando de uma vez só o tentáculo com sua famosa arma, o machado Lâmina Glacial.
Thorvalen caiu sobre o corpo da besta que o recebeu com seus outros tentáculos tentando agarrar o anão. Quando percebeu que não conseguiria, usou suas nadadeiras para cortar a carne do oponente, que não esboçou nenhuma reação de dor, ao invés disso ele bradou novamente:
- Acha que isso são cortes? Vou lhe mostrar o que é talhar de verdade!
Mesmo sangrando pelas perfurações que a criatura tinha provocado em todo o seu corpo compacto, o anão desceu o machado sobre a cabeça bulbosa do monstro, cegando dois de seus olhos. Mais um guinchado foi ecoado pelas cavernas, mas antes de terminar, Thorvalen já tinha cegado seu outro olho.
Aquele último golpe tinha sido profundo e o experiente mercenário usou a ponta de seu machado como um anzol para içar a protuberância óssea que protegia os olhos da criatura a fim de abrir seu crânio. Entretanto os tentáculos finalmente agarraram seus poderosos braços e ele foi arremessado para longe, perdendo seu machado ainda cravado no monstro.
O anão da colina caiu quebrando o braço esquerdo e partindo seu velho escudo em dois. Levantou-se murmurando alguma maldição de seu povo e se colocou novamente a combater seu oponente atroz. Retirou um de seus pequenos machados de arremesso e lançou a arma para chamar a atenção da criatura novamente para si. O anfíbio mordeu a isca, deixando Diana para trás e investindo cegamente contra Thorvalen, que não se surpreendeu em ver que seu oponente também conseguia se mover em terra firme, graças aos poucos tentáculos que lhe sobraram inteiros e não esmagados ou decepados.
O monstro se pôs encima do mercenário para esmagá-lo, mas este retirou sua segunda e última machadinha e cravou na barriga da criatura. A besta soltava um urro medonho enquanto Thorvalen abria seu estômago, retirando suas entranhas para fora daquele corpo escamoso e ósseo. Mesmo com o braço quebrado ele saiu de baixo do anfíbio atroz para buscar sua Lâmina Glacial e terminar por abrir o crânio da aberração. Não havia mais vida naquela criatura, mas o anão queria ter certeza de que o monstro estava morto.
Diana recobrou a consciência e viu que estava na margem do lago, que agora era negro como piche, não mais cristalino e refrescante. A primeira coisa que viu foi Thorvalen sentado em cima do enorme peixe bestial fumando um cachimbo que nunca tinha visto antes. Ela ignorou a pose de vitória do anão da colina e foi à procura dos demais aventureiros. Os encontrou todos enfileirados na margem logo ao seu lado, estavam enfaixados com bandagens improvisadas, mas eficazes.
- Um mercenário realmente experiente – elogiou Diana. – Esses curativos servem bem até eu acordar e poder curá-los com minha fé!
- Tu ou a Orvalho da Aurora – respondeu o neidar – quis dizer!
- Orvalho da Aurora?
Foi apenas agora que a sacerdotisa notou que a amiga élfica estava entre os companheiros feridos. Ela achava que a kagonesti tinha morrido pelos tentáculos da aberração, estava gravemente ferida, mas ainda viva. Estava ainda ao alcance de suas capacidades curativas.
- Que Paladine se apieda de ti, minha colega! – rezou Diana curando a elfa selvagem e novamente voltou a falar com Thorvalen. – Achei que aquela besta a havia matado!
- Quem? O Abolete? – perguntou o mercenário ainda fumando com um largo sorriso sob a barba. – Balela! Ele apenas mostrou o que queria para tu!
- Abolete? – indagou Orvalho da Aurora já recobrando a conciência. – O que é isso afinal?
- O monstro que nos ataco. – respondeu o anão enquanto Diana e a própria druidisa curavam os outros heróis. – Já tinha visto um desses antes! Sempre quando tem muitos skuns acabamos encontrando um Abolete. Eles são os criadores dos homens-peixe. O Abolete pega uma pessoa e absorve totalmente seu conhecimento com seu poder profano e então decide se vai comê-la ou usá-la como escravo transformando-as em skuns.
- Então nós atacamos pessoas inocentes lá em cima?– interrompeu a sacerdotisa. – Por isso os refugiados estavam presos ainda, para virar um desses tais skuns?
- Não e sim! Não, depois que se vira um skun não tem mais volta e é melhor que a pessoa morra do que viver escrava desta criatura atroz! E sim, aqueles druidas da Floresta Guardiã estavam vivos apenas para virarem meros escravos do Abolete.
- Que coisa mais horrível!
- E eu perdi tudo isso! – disse Dális. – Carambolas, alguém podia ter me acordado! Sempre perco essas coisas, mas se vocês virem algum vulcão por aqui vão me contar, né? Essa é minha missão de vida, não sei se eu falei isso para vocês... Todo gnomo tem uma...
- Esse aí já acordou com a corda toda! – disse o Thorvalen. – Melhor sairmos daqui logo, se estiver bom para todos!
Os cinco companheiros saíram da caverna do lago e continuaram por uma passagem, guiados pelo anão neidar para mais fundo nas masmorras. Apenas para logo depois desabarem em um descanso merecido e profundo, mas não antes de Diana guardar o local de descanso com suas divinas magias de proteção.
No dia seguinte, os heróis ainda precisaram dos poderes curativos da reverenda de Paladine e da druidisa Orvalho da Aurora. Muitos eram os ferimentos por terem confrontado o Abolete e seus skuns.
Encontraram naquele mesmo dia a saída oeste das Montanhas de Vingaard e puderam ver novamente a luz do sol. Entretanto ainda chovia muito na superfície de Solamnia e todos tiveram que se cobrir com suas capas e sobretudos para descerem a cordilheira.
Estavam bem no alto e puderam ver as ruínas da antiga Casa de Inverno que estava inundada desde tempos imemoriais. Um forte odor de maresia estava no ar mesmo com toda aquela chuva e mal podendo ver o Mar de Sirrion que banhava as terras da costa. Também viram o Pântano Guardião e imaginaram o que poderia ter acontecido ali para expulsar todo um círculo de druidas de seu antigo e sagrado lar.
Mesmo na primavera, sempre havia um pouco de neve na parte meridional daquelas montanhas. Logo a chuva era de granizo ali e isso tornou a travessia muito perigosa e escorregadia. A maioria da travessia era formada de desfiladeiros sinuosos e traiçoeiros e toda a atenção era pouca, assim tinha-se que ter os olhos bem abertos, como diria Thorvalen. O próprio Dális chegou a cair de um penhasco apenas para ser salvo por Orvalho da Aurora, que usou seus poderes druídicos para se transformar em uma enorme harpia e trazer o gnomo são e salvo para as cordilheiras novamente.
Chegaram somente à noite no sopé das montanhas e decidiram acampar, com barracas improvisadas de gravetos e folhas feitas pela elfa selvagem, para mais uma noite de descanso e recarregar usas energias para o dia seguinte. Foi uma noite fria e muito chuvosa, sendo iluminada pelos relâmpagos esporádicos que ribombavam nos céus ao oeste de Solamnia.
Partiram logo ao alvorecer do dia e agora estavam mais animados por estarem ao ar livre novamente. Havia chuva ainda, mas mesmo esta não passava de uma suave garoa, tornando aquela manhã fresca e agradável. Foi uma longa, mas tranqüila caminhada, tanto eles que chegaram à outrora Floresta Guardiã apenas próximo ao meio-dia.
Então toda a alegria conquistada naquela manhã fugiu de suas mentes quando os cinco companheiros puderam ver com os próprios olhos o que estava acontecendo naquele local. Aquele pântano fétido podia ter sido um santuário antes, mas agora não passava de um lugar decadente e sinistro. Podia até ter vida antes naquelas bandas, mas agora estava totalmente desolado. Os antigos bosques verdejantes não passavam agora de charnecas alagadas.
Era agora um brejo imundo cheio de árvores lúgubres e vegetação podre que estava espalhada pelas poças estagnadas e turvas. Iluminado apenas pelos poucos feixes que o sol conseguia penetrar naquela neblina densa e certamente venenosa. Quanto mais os heróis caminhavam, a cada passo que davam, percebiam cada vez mais a total devastação em que se encontrava o agora chamado Pântano Guardião.
Já bem dentro daqueles baixios de poças lodosas e gélidas, eles viram vários amontoados próximos a um outeiro coberto por cipós secos e lôbregos. Os aventureiros foram chegando mais perto e perceberam que se tratava de várias armações de peles expostas ao sol para secar, como fazem os caçadores, mas as carnes que estavam sendo curtidas não eram de bois ou porcos.
Era carne humana.
Corpos dos malfadados membros do círculo de druidas que não conseguiram fugir da extrema maldade e vilania que se abatera sobre sua comunidade. Estavam expostos como carne de caça. Aquela visão gerou náuseas e vertigem em alguns dos companheiros, mas foi apenas quando viram que havia também inocentes crianças entre os mortos estirados, que a reverenda Diana começou a vomitar.
- Isso querida – disse Valdor, mesmo desolado – ponha tudo para fora!
- Que tipo de monstro pode ter feito isso?
A pergunta de Orvalho da Aurora logo teve sua resposta e a elfa quase se arrependeu de ter feito tal indagação.
Algo se ergueu com uma indolente letargia daquelas águas pantanosas e fétidas. Foi como se toda a podridão do lugar se manifestasse em uma única criatura, negra como a noite e tenebrosa como o mais íntimo dos medos. Aquilo se pôs de pé e abriu suas vastas asas fazendo a escuridão mesmo em pleno meio-dia. Amedrontado, Valdor relembrou o que o velho refugiado dissera nas masmorras de Vingaard e reproduziu aquela sentença de morte:
- Por que uma noite tenebrosa caiu sobre as florestas transformando tudo aquilo em um charco ácido.
Sim, bem ali na frente deles estava a criatura mais temida e medonha de todo o continente de Ansalon. Tema de lendas e baladas de tragédia, era o mais avassalador e colossal dos inimigos que um aventureiro poderia ousar debilmente enfrentar. O esplendor sombrio que representava o mais incomensurável poder de devastação. Terrivelmente majestoso, uma criatura que personificava a soma de todos os medos que habita o canto mais escuro em nossos corações.
Ali os cinco companheiros deixaram toda a esperança para trás e se entregaram ao total desespero, pois estavam diante de um dragão negro.

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